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A história mal contada do frei que é fraude

A história mal contada do frei que é fraude

07/08/2013 00:00
A Misericórdia de Lisboa, reza a História, foi fundada pela rainha D. Leonor, à época influenciada pelo seu confessor - um frade espanhol. Mas frei Miguel Contreiras, que andava pelas ruas de Lisboa com um anão e um burro a dar esmolas aos pobres, pode n

Volta e meia reacende-se a polémica. Miguel Contreiras, o frade espanhol a quem os livros de História atribuem a fundação da Misericórdia de Lisboa no século XV, pode nunca ter existido e não passar de uma fraude histórica. Em 2009, a câmara chegou a ponderar mudar o nome da transversal à Avenida de Roma. O "Diário de Notícias" escrevia que a comissão de toponímia da autarquia estava a avaliar os dados históricos disponíveis para tomar uma decisão. Quatro anos depois, as averiguações parecem não ter dado em nada e a avenida lisboeta mantém o nome. E existe. Ao contrário do frade espanhol Miguel Contreiras que, segundo a maioria dos historiadores, é a maior fraude histórica do país.

Nos manuais de História conta-se que Miguel Contreiras, da Ordem da Santíssima Trindade, morreu em Lisboa em 1505 com 74 anos. É-lhe atribuído o papel de confessor da rainha D. Leonor, viúva, a quem terá influenciado para a criação da Misericórdia, a primeira instituída em Portugal. O frade é apontado, no site da Santa Casa, como o primeiro provedor da instituição, a partir de 1498. Nas crónicas históricas - de veracidade duvidosa, segundo a maioria dos historiadores actuais -, Contreiras é descrito como uma personagem adorada pelo povo de Lisboa, que lhe chamava "o apóstolo dos pobres". Conta-se também que foi prior do Convento da Trindade, lugar onde terá sido enterrado e que foi destruído no terramoto de 1755. Terá chegado a Portugal com 56 anos e era hábito passear-se pelas ruas de Lisboa, sempre acompanhado por um anão e um burro e distribuindo esmolas aos pobres e aos doentes. Boa parte dos poucos registos biográficos do frade que sobreviveram à passagem do tempo são notas redigidas por Bernardo da Madre de Deus - responsável pela Ordem da Trindade a partir de meados do século XVI. A existência de Miguel Contreiras foi posta em causa pela primeira vez logo nessa altura. E há quem garanta que esses registos terão sido inventados aquando da criação de um tribunal especial constituído para decidir se Miguel Contreiras existira ou não. Foram arroladas 18 testemunhas - quase todas indicadas pela Ordem da Trindade - e só quatro admitiram ter ouvido falar do frade espanhol. Mesmo assim, a existência do suposto fundador da Misericórdia foi dada como certa e o assunto ficou arrumado. Miguel Contreiras passou a figurar nas bandeiras da instituição, ainda hoje existe um enorme retrato que o representa na sala da administração da Misericórdia e em 1955 a Câmara de Lisboa deu-lhe uma rua da cidade - apesar das dúvidas sobre se a história do frei é ficção ou realidade.

O primeiro grande trabalho de investigação que veio deitar por terra o mito de Miguel Contreiras remonta à primeira metade do século XX. Artur Magalhães, historiador portuense, provou que os documentos que fazem referência ao frei espanhol são meros testemunhos redigidos por membros da Ordem da Trindade com o intuito de recuperarem um estatuto que haviam perdido. É que a existência dos trinitários - que chegaram a Portugal no início do século XIII com a missão de resgatar cativos em terras muçulmanas - ficou ameaçada em meados do século XVI, porque os cativos eram cada vez menos. Assim, associar o nome de um trinitário à Misericórdia de Lisboa, que entretanto ganhara enorme força, servia para que a Ordem não perdesse a relevância do passado. D. Sebastião chegou a atribuir aos trinitários a exclusividade do resgate de cativos - um trabalho que consistia na angariação de dinheiro para pagar resgates além-mar. Isabel Sá, investigadora da Universidade do Minho e que se tem dedicado ao estudo das Misericórdias, avança outra explicação para o mito, relacionada com a fase de incorporação da monarquia ibérica. A partir de 1580, Portugal passou a ser governado por Espanha e, sublinha a investigadora, "era importante associar a fundação da Misericórdia de Lisboa a um frade castelhano". Fraude ou não, certo é que o nome de Miguel Contreiras figura na História de Portugal há mais de cinco séculos.

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