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Quem quer trabalhar no Alentejo e no Algarve?

Quem quer trabalhar no Alentejo e no Algarve?

Mafalda Gomes Beatriz Dias Coelho 01/07/2018 11:33

No verão, a costa alentejana e o Algarve enchem-se de turistas e o comércio local precisa de contratar pessoal para dar resposta. Mas falta mão-de-obra, garantem os proprietários dos negócios. O i foi à Comporta e a Faro para perceber a extensão do problema. “As pessoas daqui não querem trabalhar” foi a frase que mais ouvimos

O verão ainda agora começou, mas os turistas já estão a chegar à Comporta. E se o movimento destes dias está longe da agitação que invade a pacata aldeia alentejana em agosto – quando é mais procurada pelos visitantes que anseiam por uns dias de férias bem passados –, a chegada dos primeiros veraneantes já destapou um problema que não é novo para quem aqui trabalha.

“Há muita escassez de mão-de-obra, especialmente nesta altura”, diz ao i Cristina Branco, 43 anos. É coordenadora da área educativa e cultural da Fundação Herdade da Comporta e responsável pelo espaço Casa da Cultura, na Rua do Secador, que reúne várias lojas pop-up. Conhece bem, por isso, a dinâmica do problema. “A estratégia na Casa da Cultura e em vários negócios locais passa por contratar universitários da zona. Mas isso não é solução, porque aqui a comunidade é pequena e a população também”, explica. Empregar estrangeiros é outro plano posto em prática, mas neste caso outro desafio se levanta. É que “não há alojamento. Existe, sim, alojamento de férias, a vários níveis de preços. E como não abundam casas, claro que quem arrenda prefere arrendar por um preço mais vantajoso a um turista em vez de o fazer a um valor mais acessível para uma pessoa que vem trabalhar”.

Ao fundo da rua, no Largo de São João, há no Colmo Bar um caso gritante da dificuldade que contratar locais representa. “Este ano tivemos de contratar uma rapariga alemã”, conta ao i Felipe Bandarra, 44 anos. Casado com Cristina, os dois lisboetas decidiram rumar a sul há seis anos para mudar de vida. Abriram o bar – que está fechado durante o inverno – e é Felipe quem o gere. “Precisávamos de um bartender e não conseguimos arranjar. Aqui, indiscutivelmente, a maior dificuldade de qualquer empresário é a mão-de-obra. É que as pessoas no Alentejo, com o devido respeito, estão paradas no 25 de Abril.”

Para Felipe, a base da conjuntura económica que ali se vive está nos apoios estatais. “O subsídio de desemprego e o rendimento social de inserção são uma questão muito séria do nosso país, e aqui vê-se bem isso e é absolutamente assustador. É uma âncora. As pessoas preferem os subsídios a trabalhar, e isso trava a economia”, lamenta o empresário. “Neste momento, a minha perspetiva do Alentejo é que não tem futuro, pelas pessoas que aqui habitam e pela mentalidade de trabalho”, considera.

Quando estava à procura de uma pessoa para a função, enviou anúncios para a “Escola de Hotelaria de Setúbal, que não respondeu a três emails e cinco telefonemas”, a “Escola de Hotelaria de Lisboa, que respondeu” e ainda a “de Portalegre, que não deu qualquer resposta”. E se a maioria dos empresários com quem o i falou optaram por não revelar as condições que oferecem, Felipe prefere a transparência. “Por oito horas de trabalho pago 850 euros, mais prémios no final do ano. Isto é dramático”, lamenta. E os jovens da terra? “A minha leitura é esta: por muito que a universidade abra horizontes, eles chegam a casa e ouvem aquilo que ouvem já há 40 anos. Tem de haver aqui uma reforma cultural e mental gigante para que a região tenha progresso”, defende. Para Felipe, as câmaras municipais deviam ter um papel mais interventivo na criação de possibilidades de as pessoas poderem aqui residir para trabalhar.
No restaurante O Central, a poucos passos do largo, o discurso é idêntico. “É muito difícil, não há pessoas para trabalhar”, diz ao i Clara Santos, 38 anos, que saiu de Viseu há 11 para se estabelecer na Comporta. “Não conseguimos empregar ninguém daqui. Os jovens não sabem o que é a realidade. Não querem trabalhar porque há muito facilitismo em termos dos apoios sociais”, defende. Costuma recorrer ao centro de emprego, mas nunca obtém resposta. O restaurante está aberto entre março e outubro e, este ano, dez pessoas que integraram a equipa acabaram por ir embora. Agora, a sala tem apenas um empregado e dar conta do recado quando a casa enche torna-se complicado. “Deixamos ir embora clientes porque não conseguimos segurá-los”, confessa Clara, que pede uma solução para fixar pessoas na região.

O problema é generalizado e sentido em diferentes áreas de atividade. De partida para a aldeia do Carvalhal impõe-se uma paragem na bomba de gasolina à saída da Comporta para abastecer; na montra, um papel confirma a tendência: “Precisa-se colaborador/a.” Lá dentro, a funcionária diz que, “de fora, ninguém fica para trabalhar por causa do alojamento. O ordenado vai todo para o quarto ou a casa. E aqui ninguém quer”.

Esse é o cenário que se encontra também nas localidades das redondezas. Já no Carvalhal, um papel na porta do minimercado Carvalhal expressa a mesma necessidade. E o proprietário do negócio, que está na família desde o tempo do pai, não esconde a revolta na voz. “Aqui não há ninguém para trabalhar. As pessoas daqui não querem, apoiam--se é nos subsídios”, denuncia. Na Avenida 18 de Dezembro, onde se situa o estabelecimento, está em construção um novo hotel. Um dos responsáveis da obra queixa-se do mesmo. “Falta mão-de-obra aqui. Têm de vir trabalhadores de obras de Lisboa e do Porto. Para nós é desvantajoso porque temos de arrendar casas e é muito difícil. E, além disso, alguns estão ainda num hotel”, descreve. A mesma solução é adotada por outros empreendimentos da zona também em construção.

Mais a sul, a mesma tendência? Não é só na costa alentejana que os proprietários dos negócios se queixam da dificuldade de encontrar mão-de-obra. Mais a sul, na cidade de Faro, vive-se a mesma situação, em especial nas atividades de restauração e hotelaria. Isso é, pelo menos, o panorama que a secretária-geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), Ana Jacinto, descreve ao i.

“Todo o Algarve está a sofrer com isso, tal como outras zonas do país, em particular as que têm um pico grande de sazonalidade. No início do ano, a AHRESP fez uma reflexão sobre esse e outros problemas do setor e desde aí temo-nos reunido e trabalhado com empresários e o próprio governo para encontrar soluções”, avança ao i a responsável.
Entre as propostas da AHRESP em cima da mesa está a formação de curta duração para as pessoas desempregadas poderem entrar no setor. “Essa medida podia ser aplicada de forma imediata. Enquanto houver pessoas nos centros de desemprego é preciso convertê-las para o setor, porque aí é que há emprego”, defende Ana Jacinto. Dessa forma, acredita a secretária-geral da AHRESP, é possível combater o aproveitamento dos apoios estatais por parte de pessoas que, na prática, têm capacidade para trabalhar. Ana Jacinto defende que passar ao lado “dos bons números” do setor é um erro. Até porque, recorde-se, 53 mil dos 141,5 mil novos postos de trabalho criados entre o terceiro trimestre de 2016 e igual período de 2017 inserem-se na hotelaria e restauração. Só em 2016 já se tinham criado 40 mil empregos nos dois setores. E nos próximos três meses, segundo um estudo realizado pelo “ManpowerGroup Employment Outlook Survey”, serão precisos mais 40 mil trabalhadores nos setores. “É preciso aproveitar”, remata.
No Restaurante Clube Naval, mesmo em cima da marina de Faro, a falta de mão-de-obra é familiar ao gerente Carlos Cruz. “É desesperante”, diz. “A falta de mão-de-obra é enorme. Por um lado, os algarvios não querem, e, por outro, muitos dos estrangeiros que nos chegam estão ilegais. E depois não podem ficar. O Estado diz que quer legalizar, mas não quer!”, reclama.

Numa das ruas da Baixa, a criadora do conceito de comida saudável The Woods recorreu à repetida técnica do papel na montra, a par de anúncios nas redes sociais e no centro de emprego. Questionada sobre o mesmo quebra-cabeças, Jéssica Teixeira, 37 anos, responde com um suspiro e abana a cabeça. “É sempre muito difícil. As pessoas de cá aparecem, mas dias depois deixam de vir e o problema com os estrangeiros é que muitos estão ilegais”, explica.
Pedro Bentes, do conhecido Columbus Cocktail & Wine Bar, confessa ao i que contratar mais pessoal já foi um obstáculo muito mais difícil de ultrapassar. Mas parte do problema, defende, “é que as pessoas querem salários melhores, mas nós não conseguimos pagar por causa da economia”.

Na mesma zona, na atividade hoteleira há perceções díspares da questão. No Hotel Faro & Beach Club, por exemplo, o gerente explica que “uma vez que se trata de postos de trabalho que exigem formação académica”, é fácil encontrar pessoal. Pelo contrário, vários hostels da cidade admitem debater-se com o problema.

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