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Carta aberta ao chefe Avillez

Carta aberta ao chefe Avillez

Teresa Avillez Ereira 29/05/2017 11:43

Sinto-me abençoada por esta condição única de ser tua irmã. Uma corrente condição tão rica e tão cheia que contribui em larga medida para que eu seja hoje uma pessoa realizada e feliz, enquanto mulher e mãe

Mano Zé,

É com emoção difícil de pôr em palavras que, olhando a depois de amanhã, 31 de maio, o Dia dos Irmãos, me atrevo a escrever sobre ti. Publicamente. Desafio ainda maior, ao aventurar-me a escrever como irmãos.

Estamos ligados por um fio invisível de momentos partilhados, tecido pelo tempo, pela intensidade das experiências e por esse amor tão delicado que se constrói entre irmãos. Um fio que nos liga para além do tempo e do espaço, sensível e inquebrável, num equilíbrio que se torna belo.

Escrever sobre um irmão é um exercício difícil que obriga a mergulhar no mais profundo de nós, com a consciência e a responsabilidade acrescida de, apesar da proximidade e das memórias sobrepostas, escrevermos sobre outra pessoa. Há episódios que não sei destrinçar quem os viveu: se tu, se eu.

Ao folhear o álbum da minha história, estás em todas as páginas. Ao meu lado, de mão dada, vejo a tua cara redonda, de olhos brilhantes e cabelo liso, com uma franja impossível de pôr para o lado e um sorriso seguro que dizia: vai correr tudo bem, mana, estamos juntos. Apesar de seres mais novo, sempre foste de uma serena sabedoria, ainda tão pequenino. Fomos sempre próximos, em idade e brincadeiras, como se experimentássemos a vivência dos gémeos, não o sendo. Sei que as brincadeiras ganharam cor e asas, que o riso duplicou porque foi dobrado por ti e que, nas tempestades que atravessámos, o vento soprou com cuidado, não nos deixando cair, porque foste muralha e abrigo. Fomos colo e críticos exigentes um do outro, esperando o melhor e, surpreendentemente, recebendo sempre mais. Acompanhámo-nos nas dúvidas e nas escolhas nem sempre fáceis.

Na aventura maior de todas, que é crescer, não seguiste à minha frente, eu poderia não saber seguir-te, e também não ficaste para trás, consciente de que era difícil guiar-te, antes caminhámos lado a lado, como nos ensinou o Principezinho. Vi-te ser grande e inteiro, nada teu exagerando ou excluindo. Vi-te ser todo, em cada coisa, e pôr tudo quanto és no mínimo que fazias, como mandou Pessoa. És realmente grande, desde muito criança.

Na infantil, escolheste para dançar a menina diferente e que ninguém escolheu. Em casa, tiravas as tampas das tuas canetas para pores nas minhas, para que não secassem. Quiseste ser carpinteiro e transformar a madeira em peças de arte. Foste sempre o preferido da Mi, que se “punha a crescer” só para te ouvir rir, e tu retribuías com os pinguinhos que lhe curavam as cataratas, num gesto de infinita generosidade. Nos escuteiros, foste o Setinhas de Ouro – o globo de ouro dos escutas. Ainda aí, foste premiado como o cozinheiro de campo! (Já eu fui suspensa, a primeira e a única Avillez dos 25 que foram escutas; e, mesmo assim, não me renegaste.)

No almoço de domingo, em casa dos avós, cabia-te a receita do molho para a salada e, apesar de não chegares à prateleira onde estavam os ingredientes, não havia quem te igualasse no equilíbrio dos sabores. Sempre fomos bons garfos e, desde crianças, tirávamos prazer genuíno dos encontros à volta da mesa, provávamos novos sabores, descobríamos combinações, ouvíamos conversas com atenção – especialmente aquelas precedidas do “attention, les petits” – e crescíamos em tamanho e ideias. À noite, ainda no mesmo quarto, camas de ferro lado a lado, lembrávamos os petiscos que já nos apeteciam, porque o sono tardava a aparecer e o jantar era já distante. Tu descrevias com detalhe aquele prato que comerias; eu fazia o mesmo, e adormecíamos embalados pelos sabores imaginados.

Veio depois o nosso primeiro grande negócio: a venda à família das tortas de laranja que, usando a matéria-prima da casa da mãe, nos dava lucro verdadeiro. Quando os músculos começaram a ter impacto, transformaste a garagem num ginásio. E, quando as hormonas palpitaram, vandalizaste as dobradiças da porta do meu quarto para poderes espreitar as minhas amigas. Também com a desculpa de seres mano mais novo, atrelaste-te a mim para dormir em casa de muitas delas. Até demasiado tarde!

Já com espírito empreendedor, transformámos o barracão num canil de renome e fizemos história com a primeira ninhada em Portugal duma raça nunca antes produzida, os Clumber Spaniel. No râguebi foste apadrinhado pelos mais velhos e batizado de cuecas na fonte do jardim dos frangos. No liceu renderam-se a ti os professores mais excêntricos e, na faculdade, tiveste como melhores amigos a Maria de Lurdes Modesto e José Bento dos Santos.

No quebrar dos corações, nos altos e baixos das paixões da adolescência, fomos onda e rocha, amparando o embate quando era preciso e sofrendo um pelo outro para minimizar a tristeza. E, quando escolheste a profissão, fizeste-o por paixão. Não para seres mais um, mas o melhor. Nesse percurso consciente de trabalho árduo e muita dedicação, a tua missão foi sempre a mesma: ser verdadeiro, ser grande e ser inteiro. Missão apoiada de perto pela mãe e, à distância, pelo pai, que, mesmo sem que o possamos ver, tem sido luz que ilumina os nossos passos, ensinando-nos que a vida é mistério e magia e que a fé é uma certeza. Foste estrela no Tavares e outra no Belcanto, fazendo as manchetes dos jornais. Em 2015 foste duas Michelin, conquistando o título do primeiro português a fazê-lo.

És romântico. És marido atento e dedicado. És pai sensível e envolvido, numa gestão difícil e, por vezes, angustiante de conciliação do tempo e das responsabilidades. Perfeccionista e exigente, nunca tive dúvidas de que também irias desempenhar esses papéis de forma envolvida e inteira.

Estou ligada a ti por este fio de histórias. Umas minhas, outras tuas, todas nossas. Sabes de mim com uma clareza e uma clarividência difíceis de igualar. És direto. Por vezes, duro. Fazes-me crescer. Estou ligada a ti por uma massa de difícil tradução. Estás em mim como sei que estou em ti. Frutos da mesma árvore.

Contigo ensaiei uma antecipação do instinto maternal. Contigo, como irmã, experimentei pela primeira vez o medo aterrador de perder alguém que amamos mais do que a própria vida.

Sinto-me abençoada por esta condição única de ser tua irmã. Uma corrente condição tão rica e tão cheia que contribui em larga medida para que eu seja hoje uma pessoa realizada e feliz, enquanto mulher e mãe.

Obrigada, mano.

Um beijo,

Teresa

 

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