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Vício. Instituto de Apoio ao Jogador recebe 10 pedidos de ajuda por semana
Jogadores problemáticos da internet são em média 10 anos mais novos que os tradicionais

Vício. Instituto de Apoio ao Jogador recebe 10 pedidos de ajuda por semana

Jogadores problemáticos da internet são em média 10 anos mais novos que os tradicionais SEDAT SUNA/EPA Marta F. Reis 28/09/2015 14:36

Coordenador Pedro Hubert diz que maioria dos pedidos resultam de problemas com jogos online. Em 20% dos casos, sem dinheiro envolvido.

São quase sempre os familiares que pedem ajuda. As dívidas tornam-se evidentes, acentua-se o isolamento e surgem problemas no trabalho ou na escola. Pedro Hubert, psicólogo e coordenador do Instituto de Apoio ao Jogador, revelou ao i que estão a aumentar os pedidos de ajuda de pessoas com dependência do jogo. Desde 2009, ano em que foi criada a linha de ajuda do IAC, passaram de um a dois casos por semana para mais de dez. 

Têm estado a aumentar sobretudo os pedidos relacionados com jogos online, que já são a maioria. Dominam os problemas com póquer e apostas desportivas, mas 20% das situações não dizem respeito a apostas a dinheiro. São sobretudo os videojogos que absorvem adolescentes mas também jogadores mais velhos durante dias e noites, como o League of Legends.

Além de prestar apoio clínico aos chamados jogadores patológicos e famílias, Hubert tem vindo a estudar este fenómeno da dependência do jogo. Na semana passada, o seu estudo inédito sobre diferenças e semelhanças entre os jogadores das salas de jogos reais e os do mundo virtual esteve em destaque na 1.a Conferência Europeia sobre Comportamentos Aditivos e Dependências, que trouxe a Lisboa mais de 600 peritos. Uma das conclusões pode ser a explicação para o aumento dos pedidos de ajuda: há cada vez mais oferta de jogos online e estes jogadores entram em situações de dependência dez anos mais cedo do que aqueles que frequentam casinos e outras salas de jogo, apurou Hubert no âmbito da sua tese de doutoramento concluída em 2014. Neste trabalho, que envolveu inquéritos a 1599 jogadores portugueses, o psicólogo concluí que o jogador patológico online tem em média 30 anos quando o offline tem 40 anos. E os dados sugerem também que, sendo ambas as realidades potencialmente viciantes, no universo online passa-se mais rapidamente de uma situação de jogo recreativo para utilização abusiva e problemática, explica o psicólogo.

Sinalizar Além da actividade no IAC, Pedro Hubert trabalha há dois anos com as administrações regionais de Saúde em formações de profissionais para uma melhor detecção e prevenção destas situações. Além de entender que deve haver um reforço para esta ideia de que os problemas surgem mais cedo e que a situação se pode mais facilmente descontrolar, o especialista admite que o facto de os jogadores online terem tendencialmente maior nível de instrução causa alguma surpresa entre os especialistas – 80% tem o 12.o ou licenciatura. O facto de muitas vezes uma dependência do jogo vir acompanhada de outros distúrbios psicológicos como ansiedade, stresse ou mesmo ideação suicida é algo que Pedro Hubert considera que deve ser tido em conta. Assim como o risco de alguém com um problema de dependência de substâncias poder cessar este vício substituindo-o pelo do jogo. Estima-se que o jogo problemático afecte 0,3% da população portuguesa, ou seja 30 mil pessoas. Mas outras tantas estarão em risco.

Jogo responsável Segundo o especialista, Portugal ainda está a dar os primeiros passos em matéria de jogo responsável. Embora a Lei do Jogo preveja que os jogadores problemáticos de casinos possam pedir a interdição das salas de jogo, Hubert tem dúvidas de que isso tenha efeito prático. “Existem cerca de 400 pedidos por ano e a foto da pessoa é divulgada por todas as salas, mas não havendo controlo de idade à entrada dificilmente serão barrados em todas as ocasiões.” Além disso, diz faltar na maioria dos espaços informação sobre linhas de ajuda. Para o especialista, a lei das apostas online, que entrou em vigor este Verão – obrigando os sites a estarem licenciados, a proibirem menores e disporem de informação sobre linhas de ajuda psicológica – tem melhores bases para uma política de prevenção, desde que seja cumprida. 

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