07/02/2023
 
 
Um deserto editorial

Um deserto editorial

Ricardo António Alves 11/04/2022 22:55

“Não basta pôr os álbuns no mercado, esperando que um ou outro caia no goto; um editor a sério não é só isso, mas antes um banal gestor de produto”

Se excetuarmos alguns nichos, incluindo o circuito de fanzines, que foi sempre circunscrito, o panorama da imprensa de banda desenhada em Portugal é o de um deserto inóspito. Não há nada para o grande público, o que diz muito também do que somos.

E se a atividade editorial do presente tem muito o que se lhe diga, de bem e de mal, nomeadamente a ausência de uma política efetiva de criação de hábitos de leitura, em BD, o que se vê é um público sem oferta a este nível, a não ser o que vem de fora, Porque existe um público, que poderia transmitir esse gosto a filhos e netos, como sucedia com gerações anteriores, a do Cavaleiro Andante ou a do Tintin.

Não basta pôr os álbuns no mercado, esperando que um ou outro caia no goto; um editor a sério não é só isso, mas antes um banal gestor de produto, Veja-se o que sucedeu recentemente com o material Disney, saturando-se um mercado ávido, sem outra atitude editorial que não a de fazer dinheiro.

O último editor com uma perceção do papel que deveria ter enquanto construtor de leitores foi Telmo Protásio, da Meribérica, em especial com Jorge Magalhães, no magnífico mensário Seleções BD. Revistas a sério precisam-se, pois, combinando clássico e contemporâneo, o de fora e o de dentro, agora que a BD portuguesa está como nunca antes.

Vêm estas considerações amargas a propósito de uma oferta filial de fumetti Disney comprados num quiosque em Milão: o número 5 de Il Club del Supereroi. Não só está lá tudo, exceto o fugaz Vespa Vermelha, como são doseados autores velhos e novos, dos norte-americanos Paul Murry, Carl Barks e Don Rosa, entre outros, aos italianos Ezio Sisto, Silvia Ziche e Marco Gervasio, e também os brasileiros Ivan Seidenberg, Carlos Edgard Herrero e Paulo Borges, o espanhol Jordi Alfonso, o holandês Bas Schuddeboom ou o japonês Shiro Shirai, com um mangá, a ler da direita para a esquerda, no fim da revista, tudo com textos explicativos e datas de publicação originais.

Voltámos a encontrar um Superpateta clássico, um Morcego Vermelho de sempre (duas personagens a explorar em breve) e um inusitado Superpato pensado nos Países Baixos, surgindo ainda uma interessante experiência que conjuga um original de Carl Barks de 1949 – Super Snooper – com um remake do seu discípulo espiritual, Don Rosa, e um outro, japonês, o tal mangá de Shirai.

Donald encontra os sobrinhos a ler revistas do super-herói Super Snoopper (no mangá, é já um filme), e é crítico por Huguinho, Zezinho e Luisinho perderem tempo com literatura barata, percebendo, porém, pela reação destes, que ele próprio está longe de ser um modelo. Tudo se altera quando, por engano, ingere uma solução química que lhe dará superpoderes. Ver as diferentes soluções a partir da narrativa matriz nas duas versões da década de 1990, é um dos atrativos desta revistinha, que, não sendo do outro mundo, não se compara com o nosso deserto.

BDTeca

ABECEDÁRIO

C, de Coronel Clifton (Raymond Macherot, 1959). Harold Wilberforce Clifton, oficial reformado do MI5, detetive amador, escoteiro graduado, com um fleumático bigode imperial, indumentária impecável, governanta previdente e um MG-Type Midget de fazer inveja, ideal para as deslocações entre Londres e a cidadezinha fictícia de Puddington, onde vive, é uma das grande criações de Macherot, um dos grandes belgas da BD.
 

 

LIVROS

Les Portugais. de Olivier Afonso e Aurélien Ottenwalter. Mário tem 18 anos e foge de Portugal na bagageira de um automóvel. Na fronteira franco-espanhola encontra um patrício, Nel, e ambos rumam a Paris. Filho de portugueses imigrantes em França, Olivier Afonso (n. 1975), com um percurso reconhecido na caracterização e criação de efeitos especiais no cinema francês, vai à procura das raízes, do quotidiano e dos estereótipos associados àqueles que fugiam a salto do país mais atrasado da Europa Ocidental, trabalhavam na construção civil e viviam nos biddonvilles nos arredores de Paris. Uma realidade dura e desagradável, cujos descendentes como Afonso, hoje cidadãos franceses, querem compreender. (edição Les Arènes).

Ler Mais

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline