21/1/19
 
 
Bairro 2 de Maio. Ex-alunos agarram-se ao osso que a Câmara de Lisboa não quer roer

Bairro 2 de Maio. Ex-alunos agarram-se ao osso que a Câmara de Lisboa não quer roer

14/10/2013 00:00
Um grupo de três estudantes de Arquitectura da Ajuda estava "a ferver com ideias" para o Bairro 2 de Maio, em Lisboa. Hoje são apoiados com 50 mil euros para lançar um programa da autarquia, que continua com o projectode requalificaçãoda zona na gaveta

Os oito anos de Iuri ainda não lhe roubaram a ingenuidade. Só um grito o detém quando se agacha para pegar numa serrilha, perdida entre pincéis e baldes de tinta: "Larga já isso!" A voz de Mariano impera e sem ela seria impossível manter a ordem no Bairro 2 de Maio, perdido no alto da Ajuda, em Lisboa. "Tem sido uma peça fundamental. Quando se tem tinta e desenhos misturados com uma catrefada de miúdos é preciso alguém que tenha mão neles", avisa Gonçalo Folgado, um de três alunos que em Julho de 2011 vieram da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, nem a 300 metros de distância, à procura do aval dos moradores para iniciarem um projecto de requalificação do bairro.

Mariano foi dos primeiros a recebê-los. Cigano, de barbas longas e olhos à sombra do chapéu que lhe tapa a cabeça, não há morador mais crente no potencial adormecido do bairro. "É uma loucura, as pessoas [de fora] é que não imaginam nem sabem o que aqui está", garante, com a certeza de quem há 38 anos viu o bairro nascer. A 2 de Maio de 1974, o seu pai era uma entre as centenas de pessoas que ocuparam os edifícios destinados ao alojamento de agentes da pide, do regime de Salazar. "Estes prédios não tinham sequer janelas nem portas", lembra, ao enaltecer, mais de uma vez, a sua "construção, que foi acabada pelos moradores".

Talvez por isso Mariano seja o mais fiel dos ajudantes do projecto, orquestrado, a par de Gonçalo, por João Martin, também ex-aluno da faculdade, e Karim Benali, actual mestrando. "Estávamos a ferver com ideias e se não fizéssemos nada era porque tínhamos um coeficiente de inércia muito grande", diz Gonçalo. Uma semana de "redbull, café, cigarros e conversas com a faculdade, a Junta de Freguesia da Ajuda e as associações locais" bastou para o trio de estudantes conseguir "uma candidatura poderosa" ao BIP/ZIP para 2013, programa da Câmara de Lisboa para os bairros e as zonas de intervenção prioritária da cidade. O resultado foi o sexto lugar entre 108 propostas e um financiamento de 49 400 euros. A iniciativa tem o apoio da junta, da Faculdade de Arquitectura, da associação de moradores e a das actividades sociais do bairro e do grupo U:ICLC (Instrumento Criativo pela Liberdade do Conhecimento).

O primeiro passo da intervenção física a ser terminado pode agradecer aos pincéis. Na última sexta-feira eram oito as crianças que fervilhavam de ansiedade, acumulada ao longo dos seis dias em que, sem poderem ajudar, viram um muro com 20 metros de largura ser pintado por técnicos e voluntários. Ao fim de uma semana chegou a sua vez de ajudar - uma parte do muro fora reservada para os mais jovens. "Afinal tínhamos aqui oito putos que foram os guardiões do mural", revela Gonçalo, sempre de gorro na cabeça, ao pegar no rasto dos seis dias passados desde o início das pinturas para atestar as suas palavras: a tela resistiu sem um traço de vandalismo ou risco indesejado.

Do outro lado do passeio, à frente do mural, está a entrada para o rés-do-chão de um prédio. As oito divisões já foram varridas por obras que, a troco de "mil e poucos euros", vão erguer a Casa para Todos: o novo espaço comunitário do bairro, que contará com salas de convívio social, uma divisão para computadores, outra de aulas, uma cozinha e ainda espaços para workshops.

A conversa retorna ao "cigano barbudo", como às tantas Gonçalo lhe chama, para exemplificar "o conjunto de campos de saber" que serão criados para "se adequarem às valências" do bairro. "Agora vou usar o maior estereótipo possível. Aqui o Mariano é cigano, e por norma a malta cigana tem olho para o negócio, sabem fazer disso vida. Se trouxermos aqui um empreendedor, pode-lhes transmitir conhecimentos de venda directa, gestão financeira e de orçamento familiar", sugere. A casa, mas sobretudo a pintura do mural, argumenta Gonçalo, serve para "espicaçar os moradores para fazerem qualquer coisa", pois "o resultado final que interessa é o envolvimento das pessoas".

Neste dia os moradores aparecem, mas com um número ainda tímido. Sónia e Mário Matias são dos poucos a marcar presença. "Quando é para beber ou comer aparecem sempre todos", critica Sónia, no bairro "há 20 e poucos anos". Já Mário, membro da associação de moradores, acredita "que hoje os residentes estão mais preocupados", embora "fiquem de pé atrás e já não adiram tanto às coisas", devido "às promessas feitas e não cumpridas durante vários anos".

A menos de 50 metros do mural, Lurdes Paiva ficou em casa. Ou à porta do prédio. "Acho que ainda estão em obras, por isso não fui lá", justifica, apesar de apoiar "tudo o que seja bom e limpinho" para o bairro. "O único [em Lisboa] que não tem nada", lamenta. O desabafo chega também à voz de Rui Sá Fernandes, com apelido partilhado com "o vereador que só quer é o tacho cheio" - José Sá Fernandes é o responsável camarário pelo pelouro do Urbanismo e Espaço Público. O morador lamenta o facto de "terem de ser ex-alunos da faculdade a virem cá fazer alguma coisa", quando "o Bairro 2 de Maio não tem nada", ao contrário do Bairro da Boavista ou do Padre Cruz, "onde há supermercados, bancos e até farmácias".

Em Junho de 2011, a autarquia aprovou o Programa Integrado de Gestão e Requalificação dos Bairros Municipais, no qual previu uma verba de 1,4 milhões de euros para os trabalhos no bairro. "Os técnicos têm receio de vir cá porque andou-se muito tempo a prometer coisas e hoje, obviamente, as pessoas estão chateadas", explica o jovem arquitecto.

Visto de fora, o Bairro 2 de Maio ainda sofre de estigmatização. "Até na faculdade vemos isto", lamenta Gonçalo, quando ouve alunos a dizerem que "aquilo tem ciganos e tráfico de droga". Pela primeira vez, Mariano acena a cabeça em desaprovação. "Aqui é tudo sossegado e nunca me aconteceu nada", assegura Gonçalo, com a mesma certeza que usou para traçar o seu futuro - e o de João e Karim. "Não vamos largar o osso. Por sermos putos com gorros na cabeça podem não nos levar tão a sério. Mas vão reconhecer o nosso trabalho à medida que as coisas forem sendo feitas", prevê, suficientemente assertivo para provocar o sorriso (e as palavras) em Mariano: "Claro, quem come a carne também tem de roer o osso."

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×