Ana Hatherly: um mapa da imaginação no mundo


A sua vasta e prolífica obra tem sido objecto, em cada uma das áreas que dominava com rigor e exigência, de crescente interesse.


Ana Hatherly (1929-2015) viveu intensamente a sua vida multifacetada como mulher num mundo sem fronteiras que foi resgatando, e que a foi conquistando, enquanto poeta, académica, ensaísta, pedagoga, artista plástica, performer ou cineasta.

A sua vasta e prolífica obra tem sido objecto, em cada uma das áreas que dominava com rigor e exigência, de crescente interesse, visível seja nas exposições que fez, na solicitação permanente das suas obras para integrarem exposições nacionais e internacionais ou nas múltiplas traduções da sua obra literária em mais de uma vintena de línguas que percorrem continentes e culturas diversas, mas atentas.

Também no contexto das artes visuais, o seu percurso já conhecia caminhos distantes deste país. Recordo aqui uma edição da Bienal de Veneza de 1978, sob o tema “Materializzazione del linguaggio”, cujo cartaz tem como imagem um fragmento de um desenho da artista que pertence a um dos seus livros de poesia visual, intitulado “Mapas da Imaginação e da Memória”.

Esse desenho viria mais tarde, na década de 1990, a incorporar a colecção de arte da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), através da aquisição de um primeiro núcleo de obras sobre papel que Manuel Castro Caldas, então curador da colecção da FLAD, escolheu. O seu acervo na fundação conta hoje com mais de 200 obras, um dos maiores conjuntos de desenhos coleccionados em Portugal e no estrangeiro, o que faz dela a artista mais representada na colecção de arte contemporânea da FLAD.

O seu percurso era pautado por um inconformismo produtivo e, como referi num artigo deste jornal sobre a sua performance “Rotura”, de 1977 – estávamos ainda tão longe de interiorizar a sua perda –, incessante enquanto “atitude poética e irreverente do seu pensamento”, mas também da sua vontade intrépida de experimentar e se reinventar em cada obra que materializava.

Ana Hatherly deixou-nos no passado dia cinco de Agosto, aos 86 anos de idade. Contudo, a importância da obra, que se cruza entre os estudos do período barroco, a escrita oriental, a poesia visual, a pintura e a criação literária em prosa e verso (recordemos ainda as “Tisanas”, 463 na última edição, ou “O Mestre”, que está prestes a ser publicado em tradução e edição francesa), é um sinal de que os artistas são ainda seres livres e atentos ao pulsar do tempo.

A sua obra cinematográfica, que nos deixou a memória viva dos primeiros tempos de liberdade com o filme “Revolução”, revela esse olhar diferenciado, mas desperto, que Ana Hatherly perseguiu sempre e com o qual resistiu. “A Mão Inteligente”, que Raquel Henriques da Silva, João Pinharanda e a artista publicaram, estender-se-á até nós, perpetuando a pregnância de uma obra que não se detém perante as pregas do tempo.

Curador da colecção de arte da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento

 

Ana Hatherly: um mapa da imaginação no mundo


A sua vasta e prolífica obra tem sido objecto, em cada uma das áreas que dominava com rigor e exigência, de crescente interesse.


Ana Hatherly (1929-2015) viveu intensamente a sua vida multifacetada como mulher num mundo sem fronteiras que foi resgatando, e que a foi conquistando, enquanto poeta, académica, ensaísta, pedagoga, artista plástica, performer ou cineasta.

A sua vasta e prolífica obra tem sido objecto, em cada uma das áreas que dominava com rigor e exigência, de crescente interesse, visível seja nas exposições que fez, na solicitação permanente das suas obras para integrarem exposições nacionais e internacionais ou nas múltiplas traduções da sua obra literária em mais de uma vintena de línguas que percorrem continentes e culturas diversas, mas atentas.

Também no contexto das artes visuais, o seu percurso já conhecia caminhos distantes deste país. Recordo aqui uma edição da Bienal de Veneza de 1978, sob o tema “Materializzazione del linguaggio”, cujo cartaz tem como imagem um fragmento de um desenho da artista que pertence a um dos seus livros de poesia visual, intitulado “Mapas da Imaginação e da Memória”.

Esse desenho viria mais tarde, na década de 1990, a incorporar a colecção de arte da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), através da aquisição de um primeiro núcleo de obras sobre papel que Manuel Castro Caldas, então curador da colecção da FLAD, escolheu. O seu acervo na fundação conta hoje com mais de 200 obras, um dos maiores conjuntos de desenhos coleccionados em Portugal e no estrangeiro, o que faz dela a artista mais representada na colecção de arte contemporânea da FLAD.

O seu percurso era pautado por um inconformismo produtivo e, como referi num artigo deste jornal sobre a sua performance “Rotura”, de 1977 – estávamos ainda tão longe de interiorizar a sua perda –, incessante enquanto “atitude poética e irreverente do seu pensamento”, mas também da sua vontade intrépida de experimentar e se reinventar em cada obra que materializava.

Ana Hatherly deixou-nos no passado dia cinco de Agosto, aos 86 anos de idade. Contudo, a importância da obra, que se cruza entre os estudos do período barroco, a escrita oriental, a poesia visual, a pintura e a criação literária em prosa e verso (recordemos ainda as “Tisanas”, 463 na última edição, ou “O Mestre”, que está prestes a ser publicado em tradução e edição francesa), é um sinal de que os artistas são ainda seres livres e atentos ao pulsar do tempo.

A sua obra cinematográfica, que nos deixou a memória viva dos primeiros tempos de liberdade com o filme “Revolução”, revela esse olhar diferenciado, mas desperto, que Ana Hatherly perseguiu sempre e com o qual resistiu. “A Mão Inteligente”, que Raquel Henriques da Silva, João Pinharanda e a artista publicaram, estender-se-á até nós, perpetuando a pregnância de uma obra que não se detém perante as pregas do tempo.

Curador da colecção de arte da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento