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"Estagflação é cada vez mais uma realidade"

"Estagflação é cada vez mais uma realidade"

AFP Daniela Soares Ferreira 31/07/2022 14:55

Previsões do FMI não são animadoras. A economia mundial e a europeia não vão crescer tanto como estava previsto e a inflação vai disparar. Economista alerta que ‘a inflação é pior do que a recessão’.

A invasão russa na Ucrânia continua a causar preocupações no crescimento económico mundial e já levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a rever em baixa as previsões de crescimento. A economia mundial deverá crescer apenas 3,2% este ano, enquanto a inflação foi revista em alta. «À medida que a inflação se estende a toda a economia dos EUA e da zona euro, sobretudo acelerada desde o início do ano pela invasão da Ucrânia pela Rússia, as consequências para travar essa mesma alta dos preços penalizarão a economia», começa por dizer ao Nascer do SOL, Paulo Rosa, economista do Banco Carregosa. E, por isso, não tem dúvidas: «A estagflação  [estagnação económica associada a elevada inflação] é cada vez mais uma realidade», lembrando que os números do 2.º trimestre do PIB nos EUA mostraram uma contração económica de 0,9% e ditaram uma recessão técnica da economia americana, visto que no 1.º trimestre a economia havia descido 1,6%.

O economista lembra que os dados macroeconómicos «continuam a deteriorar-se», recordando que a economia americana caiu 0,9% no segundo trimestre e entrou em recessão técnica, depois de ter contraído 1,6% no primeiro trimestre. Situação à qual se juntam os pedidos de subsídios de desemprego semanais que cresceram para o nível mais elevado dos últimos oito meses, o que começa «a revelar alguma fraqueza no mercado de trabalho americano». Também os dados de confiança do consumidor para julho «foram mais fracos do que o esperado e estabeleceram mínimos dos últimos 17 meses». E acrescenta: «Os dados mais fracos também acompanharam as vendas de casas novas nos EUA, aumentando os receios de recessão impulsionada pela alta dos juros para travar a elevada inflação. Também o sentimento do consumidor alemão atingiu um novo mínimo histórico em agosto, com os receios de uma recessão iminente e a elevada inflação a penalizarem as expectativas económicas e os rendimentos disponíveis das famílias, mostraram dados de mercado do GfK».

E, a penalizar o sentimento tem estado também, diz Paulo Rosa, «a frágil situação energética da Europa, com os fluxos de gás do gasoduto Nord Stream 1 da Rússia a descerem mais de metade, esta semana, em relação aos níveis já reduzidos».

Para o responsável, não há dúvidas: «Neste momento, crescem as preocupações relativas a uma recessão. E gradualmente a questão já não é saber se há ou não recessão, mas a sua dimensão (mais ou menos ligeira, mais ou menos cavada)». E defende que  «pior do que uma recessão é uma inflação constantemente elevada impulsionada pela dinâmica de alta dos preços e pelos vícios arraigados de subida de preços sem aumento de concorrência».

E deixa exemplos: «O açambarcamento, por exemplo, é uma realidade perniciosa num contexto de elevada inflação como o atual. Todos querem ganhar com a inflação e manter as suas margens. Mas a atual inflação é maioritariamente do lado da oferta, sobretudo da alta dos preços dos combustíveis, cuja dependência europeia do exterior é muito significativa e, em boa verdade, subtrai PIB a quase todas as economias da Europa».

 Por isso, na sua opinião, é fundamental travar esta inflação. «A inflação é a pior do que a recessão. E os bancos centrais, tais como BCE e Reserva Federal dos EUA, sabem-no e vão tentar travá-la ajustando a atual procura à menor oferta, continuando a subida dos juros».

 

Choque petrolífero?

O FMI diz que, num cenário pessimista mas «plausível», podemos voltar a repetir o choque petrolífero de 1970. E para o economista do Banco Carregosa não há dúvidas: a atual crise energética «assemelha-se cada vez mais ao período do choque petrolífero da década de 1970». Daí defender que, «a estagflação é cada vez mais uma realidade», acrescentando que «a atual inflação é maioritariamente do lado da oferta, sobretudo da alta dos preços dos combustíveis, cuja dependência europeia do exterior é muito significativa e, em boa verdade, subtrai PIB a quase todas as economias da Europa».

Mas Paulo Rosa diz que, neste momento, existem outras questões: «A questão já não é saber se há ou não recessão, mas a sua dimensão (mais ou menos ligeira ou mais ou menos cavada)».

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