02/12/2022
 
 
Uma voz pura de abril

Uma voz pura de abril

Ricardo António Alves 30/05/2022 21:23

Por isso José Afonso, aquando da morte prematura deste jogral contemporâneo, disse ser Adriano “o melhor de todos nós”. 

O lugar de Coimbra na música popular portuguesa é imenso. Dali partiu José Afonso, que a revolucionou como nenhum outro, contando com a colaboração inestimável doutros companheiros músicos, de Rui Pato a José Mário Branco, sem esquecer o cancioneiro tradicional e os sons africanos apreendidos em Moçambique. Dali veio também o clã Paredes, Gonçalo, Artur e Carlos, dando às cordas daquele instrumento o timbre do país. E também Adriano Correia de Oliveira (1942-1982).

Este homem enorme, em tamanho e personalidade, cuja barba “passa-piolho”, característica da época, lhe dava um ar mais velho, nunca perdeu a intenção pura de menino. Por isso José Afonso, aquando da morte prematura deste jogral contemporâneo, disse ser Adriano “o melhor de todos nós”. Adriano – é daquelas personalidades que se eternizam, não precisando senão de um nome, “A poucos basta – como identificação pronta – o nome próprio.”, escreveu José Barata Moura no prefácio. Adriano, Zeca, Amália, acrescentamos... Cantor assombroso do chamado Fado de Coimbra, e de intervenção, na mais elevada significação do termo, não nos espantaria que ele fosse considerado a outra “voz de todos nós” (António Variações sobre Amália Rodrigues).

O contexto era simultaneamente de repressão, com Guerra Colonial – uma ameaça a prazo para todos os mancebos da época – e boémia universitária das repúblicas de Coimbra, onde estudou Direito, iniciando-se na banda da tuna académica, como guitarrista. José Cid, o vocalista do grupo (e também futuro companheiro na tropa), que sobre o condiscípulo assevera: “Era a melhor voz da sua geração e um homem infinitamente corajoso, sem medo de nada!” Comunista desde o início da década de 1960, sempre fiel a um ideal de que não se serviu para trepar, quando era fácil; a curta vida, mas vida cheia de ação, risco, amor familiar, música... 

Paulo Vaz de Carvalho, guitarrista e professor universitário que tocou com Adriano, e desenhos de João Mascarenhas – o criador de O Menino Triste (2001) –, dão-nos, em O Perigoso Pacifista – Histórias de Adriano Correia de Oliveira, o percurso biográfico do cantor ao longo destas quatro décadas que mudaram o país, entre ditadura e democracia, de potência colonial a candidato em vias de admissão à então CEE, numa narrativa dinâmica e sem se perder em demasiados pormenores, em que a música é omnipresente, com as vinhetas perpassadas por sinais gráficos que sugerem claves de sol gravitando em torno do cantor, como que dando uma permanente aura poética e sonora em torno de si. 

Com o livro, que assinala o 80.º aniversário do nascimento de Adriano Correia de Oliveira, vem um cd, com temas fundamentais: “Minha Mãe” (José Afonso), “Trova do Vento que Passa” (António Portugal e Manuel Alegre), “Cantar de Emigração” (José Niza e Rosalía de Castro) ou “Canção com Lágrimas” e “Tejo que Levas as Águas” (ambas de Adriano, sobre poemas de Manuel Alegre e Manuel da Fonseca, respetivamente). Ouvi-lo, é ouvirmo-nos, portugueses antigos e de sempre. 

BDTeca

Abecedário

B, de Bruno Brazil (William Vance e Greg, 1969). Veterano da contra espionagem norte-americana, Bruno Brazil comanda a célebre Brigada Caimão, composta por indivíduos com folhas de serviço complicadas, para operações pouco ortodoxas, quiçá impossíveis. “Célebre” a Brigada Caimão no mundo da BD, pois em 1977 os autores submetem-na a uma provação que acabará com a morte ou a inutilização de quase todos os elementos. Em 2019, a série foi retomada, em situação de stress pós-traumático. 

Livros

Le Chat – Intégrale 1, por Greg. É sempre um acontecimento editorial quando se trazem à superfície trabalhos menos conhecidos dos grande nomes da BD. É o caso deste Le Chat, inspirado em Batman, justiceiro da noite, sem super-poderes, cujo maior inimigo é Lady Pantera... Aos 22 anos, então assinando como Michel Denys, Greg mostrava já o talento que viria a mostrar como argumentista (e por vezes também desenhador) em algumas das mais emblemáticas séries franco-belgas, como Achille Talon, Bernard Prince, Bruno Brazil, Comanche entre muitas outras, sem esquecer que o argumento de Tintin e o Lago dos Tubarões é seu. (BD Must Éditions)

 

Amy pour la Vie!, por Dearache, Cazenove e Cécile. A história de Amy, rapariga de 12 anos, e Kita, cão-guia que partilha com a dona os momentos de cada dia. E a ideia-base é: cada cão que entre nas nossas vidas, ensina-nos sempre algo. (Edição Bamboo).  

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