20/9/21
 
 
José Cabrita Saraiva 14/09/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Por que foram os ativistas alemães embirrar com o Alentejo?

Numa sociedade cada vez mais virada para o consumo e os bens materiais, é bom sinal que ainda haja quem se norteie por ideais e anseie por um mundo melhor.

É o caso, presumo, dos ativistas alemães que querem boicotar as estufas do Alentejo e do Algarve. Estou convencido de que terão a melhor das intenções. Mas também sei que as boas intenções podem dar resultados desastrosos.

Acontece que nestes últimos meses tenho andado um pouco pelo Alentejo. Não por esse, das estufas e da agricultura intensiva, mas pelo outro: o Alentejo interior, profundo, das casas em ruínas, dos campos ao abandono, das aldeias quase fantasma, das estradas onde não passa um carro. O sentimento de solidão que por ali se instala é por vezes avassalador.

Imagino que os ativistas alemães estejam cansados do seu país industrializado, produtivo, superdesenvolvido, rico. Procuram porventura um recanto da Europa intocado, pobrezinho, onde possam esquecer-se do progresso e beneficiar de condições naturais excecionais. Se é esse o caso, há muitos sítios de Portugal onde podem fazê-lo. O contraste com o lado de lá da fronteira é aliás, eloquente. Do lado português, o interior está cheio de terras sem uma fábrica, sem uma indústria, com uma população cada vez mais envelhecida e rarefeita. Passa-se para Espanha e impressiona a quantidade de barracões à beira da estrada e na periferia das cidades. Em termos de paisagem, prefiro sem dúvida a nossa; o problema é que os barracões espanhóis são indício de uma pujança económica aqui inexistente.

Por que foram os ativistas alemães embirrar com uma das poucas atividades produtivas do Alentejo? Será que já nem isso nos é permitido ter? Se são “apaixonados pelo Alentejo”, se querem preocupar-se, preocupem-se com outras coisas. Com os campos de cultivo desaproveitados, por exemplo. Com as casas em ruínas. Com a falta de emprego. Com as terras moribundas. Não se preocupem com aquelas que, apesar de tudo, ainda mantêm a chama da vida acesa.


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