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José Matoso. A criança na Idade Média portuguesa

José Matoso. A criança na Idade Média portuguesa

Pedro Miranda 26/11/2020 16:23

A infância não é uma criação cultural contemporânea como alguns parecem julgar. Há mimos e carinhos, brinquedos e conselhos, especificamente, dirigidos aos infantes na Idade Média, como prova a História da vida Privada em Portugal

 

Em textos de jornais e até em obras científicas, recolhe-se, amiúde, a ideia de que a infância – enquanto espaço privilegiado de atenções e cuidados para com a criança – é uma invenção do séc. XX e, mais concretamente até, das décadas mais recentes.

Ora, neste contexto, a revisitação da História da vida privada em Portugal (Temas e Debates), sob a direcção do Professor José Mattoso, pode fornecer precioso auxílio no exame crítico de tal perspectiva. Esta história da vida privada procura, à semelhança de idênticos empreendimentos em outros países – o mais célebre dos quais, o protagonizado pelo historiador Georges Duby, em França -, deslocar a atenção dos grandes protagonistas, dos acontecimentos maiores, das grandes reformas e políticas, por exemplo, para se concentrar nos pormenores do quotidiano: como eram as roupas que as pessoas vestiam; que tipo de habitações possuíam; como era a alimentação; de que modo funcionava a família; que tipo de festas se realizavam; como era vivida a religiosidade ou a sexualidade.
Pois bem, no volume desta colecção relativo à Idade Média, coordenado por Bernardo Vasconcelos e Sousa, o capítulo dedicado à criança reclama redobrada atenção. E, precisamente, porque ele contraria essa ideia-feita do desinteresse (afectivo) pelas crianças até (quase) aos nossos dias. O que se verifica, em realidade, é que “consultadas múltiplas fontes medievais”, “a criança não é um grupo etário social e civilizacionalmente ignorado, desprezado e oprimido” (p.295). Algo que pode ser observado à luz do discurso médico da época, “normativo e sensível”, no qual “são definidos os inúmeros cuidados a ter com a grávida e destinados a preservar o feto”, bem como a identificação das especificidades a curar nas várias idades da vida da criança, com “conselhos para proteger e assegurar a sobrevivência” dos meninos e meninas. Do mesmo modo, os escritos dos teólogos de então são cruciais para assegurar os meios destinados à sua crescente protecção espiritual.

Se os pais dos nossos dias, em particular aqueles com maiores qualificações académicas, são os mais ansiosos de sempre, como vários psicólogos e pediatras da nossa praça vão dizendo, procurando, em muitos casos, convocar, se possível, toda a literatura pediátrica (e afim), a verdade é que as actuais preocupações não são absolutamente inéditas (da paideia grega aos escritos medievais): “a preocupação medieval com a educação infantil é visível nos muitos tratados de educação então produzidos por pais e preceptores letrados nas mais diversificadas regiões do Ocidente medieval cristão. Era, também, frequente a elaboração de várias cartas e recomendações escritas, em que pais e as próprias mães reflectiam sobre a educação a fornecer aos seus descendentes. Para a sociedade medieval a educação devia começar muito cedo, visto se considerar que toda a criança, ao possuir uma espécie de memória inconsciente, seria marcada por tudo o que visse e ouvisse na mais tenra idade. A memória da criança era, frequentemente, comparada quer ao vidro ou à cera mole, onde tudo se imprimia de maneira indelével, quer a um frasco onde sempre permanecia o odor do que lá fora colocado primeiro. Ao aprender muito cedo a virtude e a disciplina, as crianças sempre delas guardariam a lembrança” (p.266).

E no que concerne aos correctivos medievais, seriam, estes, de uso constante e, talvez, brutal? “Relativamente à aplicação dos princípios educativos, embora os pedagogos da Baixa Idade Média não afastassem o uso dos castigos corporais, nem sempre essa pedagogia era recomendada, antes prevalecendo o aconselhamento de um seu uso excepcional e moderado, para que a punição física fosse compreendida pelas crianças a quem era aplicada. De uma forma geral, os pedagogos apenas a sugeriam quando se esgotavam as vias de repreensão por apelo à razão, submissão a ordens orais ou obediência ao cumprimento de actos correctores”, como se pode constatar lendo o Fabulário Português do séc. XV.

É evidente que não conhecendo exatamente a sociologia de tais eras a paridade ou a igualdade de género, os conselhos para uma educação diferenciada para rapazes e raparigas surge como natural. Assim, podemos encontrar, nos pedagogos de finais da Idade Média, instruções sobre a educação das meninas – nomeadamente, as nobres – verificando-se que “não se insistia muito na educação letrada das raparigas. Ressalvando o caso das que se destinavam à vida religiosa, desaconselhava-se mesmo a aprendizagem do alfabeto e da escrita, para que as raparigas não se sentissem estimuladas a dizer secretamente por escrito o que não ousariam afirmar oralmente.

Contudo, alguns pedagogos não lhes recusavam o direito de aprender a ler e a escrever, porque, ao aplicarem-se assiduamente nessas honestas ocupações, afastavam os maus pensamentos e os consequentes pecados da carne e da vaidade” (p.268). Não se pense, porém, que a forte restrição a uma cultura letrada nas crianças era um exclusivo feminino: “a maioria das crianças medievais não chegava a participar na cultura letrada que estava reservada aos filhos dos privilegiados. De uma forma geral, recebiam dos pais uma educação oral, já que os conhecimentos letrados não eram acessíveis ou até considerados necessários e vantajosos. Podiam, no entanto, em alguns casos, recebê-los dos clérigos, sobretudo nas vilas e cidades, quando, por algum motivo, participavam da sua casa ou parentesco” (p.271). O sono encontrava-se praticamente ausente das preocupações de pedagogos e educadores medievais, embora não já as questões alimentares nas idades mais precoces. Mas aí a ciência era escassa: “tentando fazer o desmame progressivo, o bebé começava a ser alimentado com papas de farinha e alimentos semilíquidos esmagados que seriam, depois, gradualmente substituídos por uma papa de migalhas de pão, mel, leite e um pouco de vinho. A ingestão desta última bebida estava relacionada com o pressuposto de que os resíduos vinícolas depositados após a evaporação do álcool eram ideais para combater as diarreias infantis. No Al-Andaluz, aconselhava-se, como um primeiro passo, fazer a criança chuchar e mastigar bolas de farinha de sêmola com leite e açúcar, seguindo-se a ingestão de bocadinhos de peito de frango pequeno para que ela treinasse a deglutir; acrescentava-se, ainda, que tal regime alimentar devia começar por volta dos dois anos de idade (…) De facto, a fase do desmame coincidia com um período de acentuada morbilidade, já que as alterações alimentares que então ocorriam provocavam frequentes febres, infecções dentárias e doenças gastrointestinais (…) as análises feitas aos esqueletos de crianças exumados em várias necrópoles medievais portuguesas indicam, no seu conjunto, as funestas consequências de uma precipitada iniciação infantil aos hábitos alimentares comuns aos restantes membros da família” (p.264).

Montes de brinquedos, montes, para a rapaziada de hoje. E do séc. XII ao séc. XV, não se brincava? Se sim, com o quê? Em Lisboa, “os jogos com a água envolviam o fabrico e a manipulação de objectos miniatura”, como os “barcos de cortiça”; no campo, aventuras ao ar livre, “mais desportivas ou até agressivas”, com os achados arqueológicos a provarem mesmo, no Algarve, a existência de “brinquedos produzidos para crianças”: “na sua totalidade, os arqueobrinquedos medievais até agora encontrados no Algarve destinavam-se a meninas. A maior parte consiste em miniaturas de louça doméstica, incluindo bules, jarras, panelas e lamparinas (…) Entre os brinquedos algarvios de cerâmica encontram-se, também, pequenas bonecas, cujas barrigas proeminentes aludiam à maternidade (…) A presença de tais brinquedos testemunha como a sociedade hispano-muçulmana atribuiu uma especial atenção à educação das crianças, continuando, nesse sentido, as tradições urbanas que haviam sido herdadas da Antiguidade Clássica. Com efeito, Platão reconhecera que «aos três, quatro, cinco e mesmo seis anos, a criança precisa de divertimento» e Aristóteles defendera, ao referir-se ao valor formativo dos jogos infantis, a «necessidade de orientar e dirigir esta actividade para que ela fosse educativa». No século XII, vários letrados urbanos reassumiram a ideia da necessidade de divertimento por parte das crianças, explicando que era preciso deixá-las brincar porque a sua natureza assim o requeria” (p.272/273).

Caminhamos, pois, para as sínteses finais. “De uma forma geral”, escreve Ana Rodrigues Oliveira, a responsável pelo capítulo dedicado à criança nesta obra colectiva, “existem abundantes testemunhos sobre os mimos e afectos dedicados às crianças durante toda a Idade Média”.

Não obstante, é evidente que nos podemos questionar acerca do significado de “mimos” numa época tão distante da nossa, quando sabemos como ainda há poucas gerações eram interpretados de modo bem diverso do actual – e jamais se pretenderia escamotear essas diferenças, até no respeito pelas então crianças, hoje veneráveis anciãos.

A historiadora também não vai por aí, matizando conceitos e mentalidades de épocas bem distintas: “a atestada valorização sentimental e emotiva dos mais pequenos, tende, no entanto, a expressar-se num quadro diferente do actual, visto que se repartia por uma muito mais numerosa progenitura e se exercia num contexto familiar correntemente confrontado com a dor pela morte de vários filhos. Por um lado, os fracos recursos materiais implicavam a impossibilidade de alimentar convenientemente todos os filhos gerados. Por outro, a frequência das concepções e dos partos impedia as mães de cumprir cabalmente os cuidados materno-infantis, não dedicando a cada um dos filhos toda a vigilância e atenção minimamente requeridos, tal como hoje as concebemos” (p.297).

Enquadradas devidamente as indagações buscadas e feitas as necessárias comparações (com o nosso tempo), a conclusão é clara: “Integradas em famílias biológicas ou de acolhimento, as crianças medievais tendiam a ser encaradas como grupo etário a proteger, respeitar e educar em função de uma especificidade própria, pela qual se lhes reconhecia o direito de virem a ser acompanhadas e amparadas pelos adultos” (p.297).

Num tempo em que os poucos nascimentos nos tornam, provavelmente, mais sensíveis aos cuidados com cada criança, importa, também aqui, rejeitar os lugares-comuns e compreender que o carinho e o mimo dispensados aos infantes, sempre reactualizados e reinterpretados, é certo, têm uma longa tradição atrás deles.

 

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