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Rui Correia. "Tenho miúdos de dez anos que não têm quem lhes diga que valem alguma coisa"

Rui Correia. "Tenho miúdos de dez anos que não têm quem lhes diga que valem alguma coisa"

Bruno Gonçalves José Cabrita Saraiva 06/11/2020 09:30

Tenta cativar os alunos de forma heterodoxa – até já andou à luta na sala de aula. E vê como a sua missão tirar os mais desfavorecidos do “poço da pobreza”.

Acha que dar aulas de 90 minutos é uma barbaridade e uma vez fez luta-livre com um aluno na sala. Rui Correia dá aulas de História no secundário há trinta anos. Em 2019 venceu o Global Teacher Prize Portugal, um prémio que distingue o professor do ano, e acaba de publicar Cá dentro. O lugar da escola nos nossos miúdos (ed. Guerra & Paz). Numa conversa em sua casa, perto dos seus discos de jazz, de uma tela feita pelos seus alunos e de um alvo com uma seta ao lado, a furar a parede (uma espécie de pequeno monumento ao falhanço), fala-nos da escola, dos alunos de hoje e das estratégias que usa para os cativar. Em especial aqueles que têm vidas terríveis e que tenta, através da educação, ajudar a tirar do poço da pobreza.

 

O que é o Global Teacher Prize? É um prémio para o melhor professor do país?

O Global Teacher Prize é uma espécie de franchise português de um prémio que tem uma dimensão planetária e que é organizado pela Fundação Varkey. Os professores candidatam-se autonomamente com projetos que depois são avaliados por um júri internacional. A ideia não é, evidentemente, escolher o melhor professor do país. É haver um professor do ano, procurar criar um discurso alternativo em relação aos professores e ao ensino. Porque as tónicas dos sindicatos são muito voltadas para a questão laboral, que é importante. Mas esta é outra forma de pensar o ensino: ir à procura de pessoas que tenham visões alternativas em relação ao discurso tradicional.

Sente-se representado pela Fenprof? Identifica-se com aquele discurso?

É evidente que não podemos estar de acordo com tudo o que uma instituição decide. Mesmo dentro dos partidos há decisões em que muitos militantes não se reveem. Um partido deve ser plural, deve ter uma diversidade grande de opiniões. Num sindicato é exatamente a mesma coisa. Sou sindicalizado desde sempre e voto nas eleições. Sou professor de História, portanto nunca me ouvirá falar mal do sindicalismo. Seria não saber nada sobre História. Claro que muitas vezes sinto-me muito distante da forma como são analisadas as questões, seja pelo ministério, seja pelos sindicatos. Agora, há uma coisa que não tolero, que é a perenização das mesmas figuras durante décadas.

Falou em pluralidade, mas vemos sempre a mesma pessoa – Mário Nogueira – a representar os professores e sempre com o mesmo tipo de discurso.

É isso que acho, também. Seja com o dr. Mário Nogueira, seja com quem for, a perenização no poder é algo profundamente antididático, ensina como não se deve ser democrata. E por isso talvez possa existir alguma fadiga em relação a uma certa linha que não conhece alterações.

Foi para o ensino por vocação ou mais por força das circunstâncias?

Eu queria dar aulas, achava que era uma coisa que fazia sentido.

Não se imaginava mais como professor na universidade?

Tive umas experiências e houve uns convites, mas foram já bastante tardios e não me seduziram por aí além. Diverte-me muito a investigação, mas não gosto de ter a pressão que os professores universitários acabam por ter, e gosto mesmo muito do que faço, sinto-me muito útil. Às vezes divirto-me a pensar que dar aulas ao secundário é uma espécie de poder local do ensino [risos], onde vemos as coisas a acontecer mais rapidamente do que no superior. É uma intervenção muito direta, muito humana, e isso seduz-me.

Em miúdo gostava da escola?

Sim. Nunca tive nenhuma aversão à escola, mas também nunca fui bom aluno...

Não?

Não, não, não. Gostava era de tocar guitarra com os meus amigos. Nunca na vida me passaria pela cabeça chumbar um ano – acho insuportável repetir uma coisa –, mas nunca fui bom aluno. Acabei o secundário aí com uma média de 13. Só era bom aluno a Inglês, e por razões pouco nobres: brincava com os meus amigos às guerras, com milhares daqueles bonequinhos de plástico, ainda hoje sei muita coisa sobre uniformes e armamento por causa disso. Como na altura os filmes que davam na televisão eram só de cowboys e da Segunda Guerra Mundial, e eram todos em inglês, eu falava inglês quando estava a brincar com os meus amigos. Muito cedo deixei de olhar para as legendas. Portanto julgava que ia ser professor de Inglês ou ligado às literaturas. Só que depois tive dois excelentes professores de História, logo um a seguir ao outro, não me deram hipótese de gostar de outra coisa. Decidi ir para História.

 

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