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Joana Mortágua 28/05/2020
Joana Mortágua
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Marxismo Cutural e outras "fake news"

Somos contemporâneos do absurdo. Em Portugal, há gente na internet a anunciar e garantir que o verdadeiro autor das declarações anti-racistas de Ricardo Quaresma é o deputado do Bloco de Esquerda Moisés Ferreira. No Brasil, o ex-deputado Jean Wyllys viu o seu nome envolvido na tentativa de assassinato do então candidato Jair Bolsonaro pela simples multiplicação de um hashtag no twitter. Nos EUA, o Presidente recomenda injetar desinfetante para curar a COVID-19 como um facto científico.

As fake news são uma epidemia civilizacional, uma produção de laboratório criada a partir da mistura de tecnologias digitais e extrema direita. É difícil controlá-las e é ainda mais complicado desmascará-las, mas é essencial combatê-las. Isso passa, em primeiro lugar, por identificar e denunciar responsáveis políticos que recorrem a elas, seja qual for seu o formato.

Por exemplo, tal como a sugestão de que beber álcool gel faz milagres contra o vírus, também o agora badalado “marxismo cultural” é fake news. Não existe. É uma invenção de fanáticos para designar o que o mundo democrático conhece por “defesa dos Direitos Humanos”. O objetivo desta teoria da conspiração é conseguir que ideias como igualdade de género, liberdade de orientação sexual, anti-racismo, deixem de ser consideradas como valores democráticos universais e passem a ser vistas como imposição “cultural” de um complô esquerdista. 

No artigo a propósito da ignorância de Nuno Melo, Pacheco Pereira foi eficaz a explicar porque é que marxismo cultural não passa de uma importação barata da propaganda da extrema-direita[1] A ideia, aliás, não é nova. Os nazis já tinham utilizado um conceito com os mesmos propósitos, embora com um nome mais adaptado aos anos ‘30: “bolchevismo cultural”. 

Por estas e outras coisas há quem diga que vivemos na era da pós-verdade. Podemos discutir se o conceito é válido para lá do eufemismo (também há quem prefira chamar-lhes apenas mentiras) mas estas aldrabices fazem parte da estratégia política da direita ultra-conservadora. O que assusta é a rapidez com que se tornam hegemónicas no Brasil, nos EUA e em tantos países europeus.

Não basta culpar as redes sociais pela produção de lixo e a fertilidade da ignorância. Afinal, “as ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes” e, como lembrou Pacheco Pereira, não houve mudança de “força material dominante”. Se estas ideias se tornam hegemónicas é porque as elites se deixaram contaminar por elas, passaram a fazer parte da ideologia de quem detém o poder.

Mas os instrumentos desvendam o objetivo. O ódio, o medo, a intolerância pela violência, direcionados contra a ciência, os direitos e a diferença, o ultra nacionalismo, o discurso xenófobo, remetem-nos para a superação de uma era, para a substituição de valores universais. Esta direita que não reconhece a Declaração Universal dos Direitos Humanos, promete ao poder económico e financeiro um capitalismo em esteróides.

É bom saber o que está em causa nos milhares de perfis falsos criados pelo partido de André Ventura e nas mentiras difundidas todos os dias por sites da extrema direita. A demarcação de instituições, plataformas, partidos políticos, movimentos sociais, em relação às mentiras de manipulação pública é mais do que um exercício formal. A semana em que o Twitter denunciou uma declaração de Trump como potencialmente falsa e mais uma meia dúzia de políticos portugueses utilizou a expressão “marxismo cultural” é um momento tão bom como qualquer outro para lembrar isso.

[1] A pandemia da ignorância a propósito do “marxismo cultural”, Público, 16 de maio de 2020

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