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Da velha estante – Lou Velvet

Da velha estante – Lou Velvet

Ricardo António Alves 04/05/2020 20:45

Lou Velvet é o nome de guerra de um indígena que, a crer no próprio, bem pode encobrir a estrambótica identificação civil de Laudemiro Cebola

Com um ar nonchalant, óculos escuros, barba de três dias, cigarro ao canto da boca, raciocínio rápido, frases cortantes, Lou Velvet é um investigador privado nos quadradinhos deste país – nome de guerra de um indígena que, a crer no próprio, em resposta repentista, bem pode encobrir a estrambótica identificação civil de Laudemiro Cebola, pouco consentânea com tão estilosa personagem. Estamos em crer que, apertado pela Judiciária, a boca ter-lhe-á fugido para a verdade, ou não fosse o criador (José Carlos Fernandes, Loulé, 1964) desta criatura um homem do Algarve, região que disputa com a Madeira o campeonato nacional da onomástica inenarrável... Laudemiro, pois, transmudado no fúlgido Lou Velvet, homenagem a Lou Reed (1942-2013), a quem dá ares, e aos Velvet Underground.

Tempos houve em que os lugares turísticos ficavam às moscas durante a época baixa. Mesmo assim, o dono do Flor de la Mar contrata o luzido Lou para garantir a segurança dos poucos hóspedes deste hotel à beira-praia duma estância balnear algarvia, não nomeada mas, muito provavelmente, Quarteira. Tudo parecia prometer um tédio covid-19 até chegar um grupo excursionista sénior de associados do Clube de Remo de Wilhelmshaven, velhotes pouco simpáticos sobre os quais recai, como maldição a cumprir-se, um assassino que paulatinamente os vai eliminado. A PJ, aqui a fazer o papel de incompetente, toma o nosso anti-herói por suspeito número um, num interrogatório em que quem dispara provocações é o interrogado. Lou, felizmente, vê os pundonores desagravados pela perspicácia de detetive que põe as mãos na massa e deslinda o mistério. O final não é surpreendente, mas o relato termina em vinheta digna de outras personagens modelares, cujo perigo é também a sua profissão: Mortadelo e Salaminho...

Em (À suivre), Lou é contratado para fazer a segurança de um festival de banda desenhada. Vemo-lo, profissional brioso, aprofundando os seus conhecimentos sobre a matéria, folheando um volume de Le Déclic, de um tal Marara. Aliás, Fernandes dá aqui vazão ao gosto de brincar com nomes e palavras: de Moelius – quem não o conhece? – a personagens como o Senúpe, Capitão Kadok, R. G. Tantan, Michel Vilain ou Raspa, arqui-inimigo de um célebre marinheiro de La Valetta. A verdade é que Lou falha redondamente a missão que lhe fora confiada: diante dos nossos olhos pasmos, desfilam os cadáveres de Tintim, Spirou, Michel Vaillant, Obélix, Lucky Luke; Castafiore grita e parte a loiça, até que é desmascarado um célebre rato – não é o Mickey – que se propunha dar uma lição a personagens de BD outrora dignas, rendidas aos ditames dos mercados, esses vilões da vida real. Mas, felizmente, tudo fora um sonho induzido por uma botelha de Jack Daniels. Tudo acaba bem? Não! Enquanto Lou se cozia de onirismos, oito “valiosíssimas pranchas de ‘Histirix, o gaulês’” haviam sido roubadas. Má sorte de Laudemiro. Mas, então, quem foi o assassino? A vinheta da cadeia dá a resposta...

Johan Sfar Desenhador compulsivo, homem dos sete ofícios, romancista, argumentista, realizador (Gainsbourg – Vida Heroica, 2010), entre nós conhecido pela adaptação de O Principezinho e da série O Gato do Rabino, Sfar adaptou para BD o seu próprio romance Le Niçois (2016). Jacques Merenda e a sua querida, Loulou Crystal, arrancam de Nice rumo a Paris, onde irá decorrer a Fashion Week. O plano é roubar as joias de uma tal Kim Kestéchian.

Lou Velvet em Época Morta e (À Suivre)

Texto e desenhos: José Carlos Fernandes

Edição Polvo, 1997

BDTECA

Johan Sfar Desenhador compulsivo, homem dos sete ofícios, romancista, argumentista, realizador (Gainsbourg – Vida Heroica, 2010), entre nós conhecido pela adaptação de O Principezinho e da série O Gato do Rabino, Sfar adaptou para BD o seu próprio romance Le Niçois (2016). Jacques Merenda e a sua querida, Loulou Crystal, arrancam de Nice rumo a Paris, onde irá decorrer a Fashion Week. O plano é roubar as joias de uma tal Kim Kestéchian. Edição Dargaud.
 
 
BD checa Jirí Grus, Dzian Baban e Vojtech Masek assinam um álbum de fantástico medieval. Pavel e Mkulas, servos de Sire Albrecht, nobre boémio do tempo do duque Ulrich (séc. XI), deambulando por locais ermos nas margens dum bosque, descobrem o alegado covil de um dragão. Locais de bestiário pressentido e evitado pelos aldeões, será a altura de dominar o medo e fazer frente ao animal demoníaco. Edição Casterman.
 
 
Adeus ao alcatrão Em cenário pós-apocalíptico, dois jovens irmãos deixam a cidade onde vivem, montados numa escavadora, em busca de cenário mais apaziguador. O que se lhes irá deparar, ao contrário do previsto, é ainda mais desolador, em todos os sentidos. Uma BD pesada, executada por um jovem autor cujo traço lembra Robert Crumb. Thomas Verhille, Ciao Bitume, edição 6 Pieds sur Terre.

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