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Uma sociedade escravocrata e patriarcal

Uma sociedade escravocrata e patriarcal

Ricardo António Alves 30/03/2020 19:50

As personagens são fortes e complexas, os cenários dividem-se entre a plantação de cana-de-açúcar e a cidade de Nova Orleães, com as cores e cheiros do mundo crioulo.

Há indignidades históricas em relação às quais a hermenêutica historiográfica não deve condescender, mesmo com o argumento, neste caso falacioso, do anacronismo a evitar. Uma delas é a escravatura, estabelecida na pré-modernidade pelos Descobrimentos. Sim, poderemos relegar as civilizações da Antiguidade e Alta Idade Média para esse limbo em que a própria “humanidade” estava em construção: os escravos eram despojos de guerra. Chegados ao séc. xv, quando os papas haviam condenado expressamente, em bulas sucessivas, o comércio iníquo de seres humanos – do mercado de escravos de Lagos, no tempo do Infante D. Henrique, ao tráfico transatlântico com destino às plantações das Américas, aqui também contrariado pelas sociedades abolicionistas nos sécs. xviii e xix –, acaba a pertinência de qualquer ensaio justificativo tendencialmente desculpabilizador ou neutral: se o anacronismo é um pecado capital em História, historiografia em que a ética da razão está ausente é particularmente repulsiva. E não será por certas tribos africanas em estádio civilizacional incipiente (ou não) terem feito mercancia dos seus despojos de guerra com traficantes de carne humana que alguma vez a retratação das antigas potências coloniais não deverá ser feita.

É na realidade das plantações na América do Norte que se centra o livro de hoje: Louisiana, com texto de Léa Chretien (1986) e desenho de Gontran Toussaint (Namur, 1989), dupla também na vida. Trata-se de uma saga familiar que percorre a questão inter-racial desde a integração do território, antes francês, nos Estados Unidos, no dealbar do séc. xix, até à luta pelos direitos cívicos na década de 1960. Rememorada por uma velha senhora instada pelas netas a contar-lhes a história da família, que se socorre de uma empregada negra para pôr no papel as memórias de século e meio. Memórias familiares das plantações com pouco de que se orgulhar – ou talvez não, de qualquer modo com o peso da vida construída calcando as vidas dos outros como subgente, o que dava imenso jeito para prosperar.

Ao regime escravocrata perverso junta-se a brutalidade do patriarcado, em que da mulher-esposa se espera parição, obediência e docilidade, e das escravas a submissão aos instintos animais do patrão e do filho deste. Como, porém, nem todos somos feitos da mesma massa, há mulheres e mulheres, o que torna o relato imprevisível, suscitando o interesse pela continuação nos próximos tomos. As personagens são fortes e complexas, os cenários dividem-se entre a plantação de cana-de-açúcar e a cidade de Nova Orleães, com as cores e os cheiros do mundo crioulo, onde, mesmo então, já havia negros livres, filhos de brancos, cujos pais não quiseram dar destino idêntico ao da mercadoria humana que compravam. Gontran Toussaint, ainda com espaço para a evolução do traço, é já uma certeza na sua geração.

Louisiana – 1.La Couleur du Sang

Texto Léa Chretien Desenho Gontran Toussaint

Editora Éditions Dargaud, Paris, 2019

BDTECA

Dany. Septuagenário entrado, Dany, o cocriador de Olivier Rameau – série de maravilhoso para todas as idades –, já então faria suspeitar um leitor adulto da potencial cocquinerie da bela Colombe Tiredaile. A coleção de gags Ça Vous Intéresse aí está para vermos o gosto de Dany por desenhar belas mulheres, que aparecem também no seu último álbum, Un Homme qui Passe (Dupuis, 2020), com texto de Denis Lapierre, a história de um fotógrafo bem vivido, em crise. A ele voltaremos.


Varenne. Da BD à ilustração, Alex Varenne é um autor que também tem le goût des femmes, de tal forma que já se referiram ao seu estilo como la ligne “chair”... Em La Femme et l’Homme Animal (Zanpano, 2019), editado para assinalar o 80.º aniversário, Varenne diz que quer inverter o foco da mulher vista como bichano e outras animalizações. Agora, os animais são os homens, algo que já se sabia, mas, se o autor o diz, é preciso ir ver do que se trata.


Manara. Cinquenta anos de carreira foi o motivo que levou a Glénat a editar a retrospetiva da obra deste autor, que está muito longe de ser uma espécie de pornógrafo: basta lembrar as colaborações com Pratt e Fellini, para nos atermos às duplas. Com Sublimer le Réel, uma edição de grande formato com mais de 500 páginas, se encerra a “BDteca” desta semana, evocando três maduros.

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