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Da velha estante: O Raio U

Da velha estante: O Raio U

Ricardo António Alves 24/02/2020 21:10

Muitos clássicos da BD mantêm o viço; outros têm um interesse eminentemente histórico, como é o caso do livro de hoje. Isto para dizer que, retomando o espírito inicial desta página, iremos conjugando novas e velhas leituras.

O Raio U marca a estreia nos quadradinhos de largo fôlego de Edgar Pierre Jacobs (1904-1987), na revista Bravo, em 1943, e pertence sobremaneira à categoria da obra que ficou nos anais, embora se situe uns bons furos abaixo da série que o consagrou, Blake e Mortimer.

A génese é conhecida: Jacobs, um homem da publicidade e da ilustração com uma paixão pela ópera – fora barítono, sem espetáculos na Bélgica ocupada –, ingressara na revista Bravo, especializada nos comics americanos, com Flash Gordon no principal cartaz. Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, o material deixa de chegar; e, em pânico, o chefe de redação pede a Jacobs para substituir o consagrado Alex Raymond. Na autobiografia, Un Opéra de Papier – Les Mémoires de Blake et Mortimer (1981), revela que se sentiu lisonjeado, embora receoso, com o seu pastiche Gordon l’Intrépide, e, também por isso, nunca assinou a contrafação, que tinha os dias contados: os alemães proibiram as historietas americanas, e foi assim que surgiu O Raio U, “descaradamente” inspirado no modelo americano, embora recorrendo já a filacteras, bem como antecipando alguns tópicos que irá retomar na série que o consagrou, e explorando também um imaginário que fora desenvolvido por autores como Júlio Verne, Conan Doyle ou H. G. Wells.

A história, cheia de peripécias, é contudo linear: uma missão num território remoto, em busca de um metal raro, necessário ao desenvolvimento de uma arma pelos cientistas da Nordlândia, “os bons”, tem um agente infiltrado da Austrádia, em trabalho de sabotagem. Os primeiros fazem as vezes dos britânicos e aliados, os outros são “os maus”, o que, em 1943, só podia ter um significado preciso.

Vale a pena olhar a capa com atenção. Desde logo, a promessa de um turbilhão de aventuras; e, no canto superior esquerdo, um “aeropilha”, nave aérea que aponta, não inocentemente, para o nome do autor, E. P. Jacobs, o criador do “espadão”, fazendo-se desta forma a ligação à aventura inaugural de Blake & Mortimer, de todos conhecida.

O ritmo é realmente alucinante – nas últimas vinhetas ocorre uma batalha aérea... – e os jovens contemporâneos que liam a Bravo devem tê-lo sentido. Greg, que assinou o prefácio, recordava: “Toda uma geração de jovens leitores se agarrava a este O Raio U reluzente para fugir, uma vez por semana, ao realismo cinzento e negro da Ocupação”. A mestria de folhetinista de Jacobs deixava os leitores em suspenso no último quadradinho de cada prancha, fazendo a rapaziada ansiar pelo número seguinte.

O Raio U

Texto E. P. Jacobs

Desenho E. P. Jacobs

Editora Livraria Bertrand, Amadora, 1978

 

BDTECA

Os Patinhas… Pelos quadradinhos Disney, nem sempre bem tratados e muitas vezes malquistos, passou do melhor: de Floyd Gottfredson a Ub Iwerks, de Carl Barks a Paul Murray, sem falar nas equipas espalhadas por esse mundo, de Itália ao Brasil, de Romano Scarpa a Ivan Saidenberg, o inventor do genial Morcego Vermelho. Em França, a Glénat lançou uma coleção em que este universo encantatório é abordado, com a participação de grande nomes da BD francófona como Cosey, o criador de Jonathan, Lewis Trondheim (A Mosca) ou Régis Loisel (Armazém Central), entre outros. O mais recente, saído no final do ano passado, é de Cosey e intitula-se Minnie et le Secret de Tante Miranda. O poético Cosey dedicou-se a desenhar uma aventura da namorada do Mickey na companhia da amiga dileta, a vaca Clarabela… As paisagens nevosas que conhecíamos de Jonathan regressam agora, e acreditem que é muito bom de se ver.

Irredutíveis. Espécie de aldeia gaulesa da língua, o mirandês resistiu a séculos de assédio do seu primitivo vizinho, o galaico-português, tornado idioma imperial. Em 1999 passou a segunda língua oficial do país, falada por pouco mais de dez mil pessoas. Língua que quer afirmar-se tem de escrever-se e publicar-se. Astérix já a fala há vários anos. La Filha de Bercingetorix é o quinto álbum do pequeno gaulês para aqueles irredutíveis transmontanos e também para os curiosos.

 

 

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