15/9/19
 
 
José Cabrita Saraiva 16/04/2019
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Um imenso livro de pedra em chamas

Não é a catedral mais antiga de França, nem a maior, nem porventura a mais bonita. Se atentarmos bem, era a 150 km dali, em Reims, que os reis eram ungidos e o melhor exemplo do gótico francês encontra-se um pouco mais a sudoeste, em Chartres. Quanto ao interior, o da Sainte-Chapelle é sem dúvida mais deslumbrante.

Ainda assim, conquistou um estatuto único entre as igrejas da Europa. As suas torres incompletas tornaram-se um símbolo de Paris, da Idade Média, da cultura e da História europeias. Notre-Dame de Paris é um daqueles ícones globais que levam qualquer turista a suster a respiração para olhar para eles pela primeira vez. E a lamentar - como eu lamentei - que os malditos andaimes das obras de restauro (que parecem nunca ter fim) estraguem uma fotografia que de outro modo seria perfeita.

O dia de ontem será lembrado nos anos vindouros como aquele em que este ícone medieval sofreu danos terríveis. Não sabemos o que terá desaparecido e o que sobreviveu às chamas - como terão ficado as suas naves, as suas abóbadas, as esculturas do pórtico e as famosas gárgulas. A pedra não arde como a madeira, é verdade, mas estala e fica enegrecida pelo fumo. Pela dimensão do sinistro deu para perceber sem margem para grandes dúvidas que muita da magia de Notre Dame vai perder-se inevitavelmente.

Ontem deu também para perceber que alguns monumentos que consideramos eternos - que tendemos a achar que existem desde sempre e que ali ficarão para sempre - são vulneráveis e não estão a salvo quer de acidentes, quer da incúria humana.

Victor Hugo, o escritor romântico que muito fez para celebrizar Notre-Dame e para lhe dar o estatuto quase mítico que tem hoje, comparou-a a um imenso livro de pedra onde está inscrita a História de França. Algumas das páginas desse livro, denunciou Hugo, já tinham sido arrancadas por intervenções negligentes. Ontem arderam mais algumas. É uma tragédia e custa a acreditar que tenha acontecido no nosso tempo.
 

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