01/03/2024
 
 

Estar (ou não) em Bombaim

Os pobres são necessários em Bombaim. Eles são as mãos e o trabalho barato. Mas a cidade não foi feita para os acomodar.

BOMBAIM – De há uns anos para cá começaram a chamar-lhe Mumbai. Parece que acaba de vez com a velhíssima teoria de que seria a Boa Baía dos portugueses. Virá de Mumbadevi, a Mãe, na língua do Maharastra. Muito bem. Não vou discutir. Não gosto de discutir etimologias. Saio sempre a perder. Mumbai; ou Bombaim, tanto faz.

Espreitei por todo o Mundo o cancro devastador da pobreza. Das grandes cidades de África às capitais da América Central e do Sul, passando por lugares sinistros de Portugal onde há meninos que passam as noites escondidos do frio por debaixo de folhas de cartão canelado. Mas na Índia vi a miséria. Uma miséria capaz de marcar a memória com o ferro em brasa de uma chaga que se não explica.

Dizem as estatísticas que, de há vinte anos a esta parte, entram em Bombaim mais de mil e quinhentas novas pessoas por dia. Vêm dos campos e trazem nada consigo. E em Bombaim não há espaço para eles. Os velhos blocos de apartamentos estão cheios, os arranha-céus entretanto construídos estão cheios; as barracas erguidas a torto e a direito estão cheias. Foi V.S. Naipaul, Nobel da Literatura, que escreveu: “Estar em Bombaim é estar na multidão permanente.

De dia, as ruas estão apinhadas; de noite, os pavimentos estão repletos de gente que dorme”.

Os pobres são necessários em Bombaim. Eles são as mãos e o trabalho barato. Mas a cidade não foi feita para os acomodar. As estatísticas dizem também que cerca de duzentas e cinquenta mil pessoas dormem nas ruas de Bombaim. Dormem? Mas dormir do verbo dormir? Este número parece demasiado curto, extraordinariamente curto para quem atravessa os quilómetros e quilómetros de avenidas da cidade e os vê empilhando-se em passeios, nas ombreiras das portas, nos separadores das vias rápidas. É preciso um esforço muito grande para entender a Índia. É preciso entender que a mendicidade sempre foi importante para os hindus como uma espécie de teatro religioso, uma demonstração dos trabalhos do “karma”, uma lembrança permanente das obrigações de cada um para consigo próprio e para com as suas vidas futuras. Apenas o exagero dos números foi, com o tempo, desvalorizando esta ideia.

Em Bombaim vi defeitos físicos que não pensava possíveis. Vi mutilações horrendas que aterrorizam os olhares. Muitas são, ao que me dizem, infligidas na infância pelos pais, que assim julgam garantir um futuro para os seus filhos, ou por um mendigo-chefe de uma qualquer estrutura organizada de pedintes que adquiriu a criança e pretende assim provar-lhe os pecados cometidos nas suas vidas anteriores. E os miseráveis foram corrompendo a nobreza de Bombaim. Escureceram essa cidade de edifícios vitorianos e fachadas góticas imponentes. E transformaram-se numa força política de importância primordial num processo lento de reação comunitária perante as necessidades destes milhares e milhares de milhares de sem-abrigo. Uma força política nascida de uma nova religião cujos seguidores se consideram adstritos a um exército: o Shiv Sena, o exército de Shiva. Não o Shiva deus, mas Shivaji, o líder da guerrilha maratha no Séc. XVII que desafiou o império mongol e fez dos marathas, o povo da região de Bombaim, um dos grandes poderes da Índia durante o século que se seguiu.

Junto ao Hotel Taj Mahal, um dos mais luxuosos do Mundo, de frente para as portas da Índia, está a estátua equestre de Shivaji. Ele é o emblema do poder do Sena, do poder das colónias do pavimento, do poder dos habitantes das ruas, dos párias que demandavam a cidade e o trabalhos nas antigas fábricas de cortumes. Lá dentro, pelo corredores, fotografias de artistas, de cinema, da música, do desporto. Gosto de vir aqui. Acreditem: é barato. Para nós, que não queremos gastar mais de 25 euros num jantar e jantá-lo sentado entre o explodir das estrelas. Mas, quando saírem, saiam devagar.

Pelas vizinhas artérias de Colaba, pela largura de Cama Road, ali ao lado, espalham-se as figuras descarnadas dos seus súbditos sem cama e sem comida. Não os pisem.

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