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Joana Mortágua 18/04/2018
Joana Mortágua
Cronista

opiniao@newsplex.pt

O umbigo das potências

É necessária interpretação criativa para entender a posição do governo português e do Presidente da República face aos bombardeamentos na Síria. Dizem “compreender” o ataque porque é preciso “construir a paz”

Na madrugada de 14 de abril, um grupo de poderosas nações juntou-se para bombardear um país no Médio Oriente. Anunciaram o objetivo de destruir um arsenal de armas químicas. Não tinham qualquer mandato internacional nem procuraram legitimar-se junto de organizações transnacionais – isso fica para depois. Primeiro, as bombas, não vá alguém arrepender-se. Depois, os acenos de cabeça dos fantoches europeus, que é preciso ter prioridades.

Estamos em 2018, mas às vezes não parece. Há 15 anos, conhecemos bem alguns desses fantoches. Na altura chamavam-se Paulo Portas, Durão Barroso e José Maria Aznar, todos sorridentes na fotografia das Lajes com o presidente dos Estados Unidos da América e o primeiro-ministro inglês. Agora, os nomes são outros. No lugar de Tony Blair está Theresa May. No de George W. Bush está Donald Trump, mais um incendiário internacional making America great again.

Como de outras vezes em que potências se juntaram para intervir numa guerra – ou para a começar –, todas têm inquietações internas para as quais precisam de uma boa distração. Já vimos este filme. Chamava-se “Iraque, 2003”, mas também se chamou “Nine-eleven” e “Afeganistão, 2001”. Agora foi rebatizado: “Síria, 2018”, e só podemos esperar que não seja uma reedição ainda mais violenta, ainda mais destruidora, ainda mais prolongada.

Não está em causa condenar a utilização de armas químicas por parte do regime de Assad ou de qualquer outro. E não é só porque o direito internacional o proíbe, é porque é incompatível com o significado de humanidade. Mas é bom lembrar que as armas químicas são inaceitáveis em qualquer circunstância ou coordenada, seja qual for a mão do carrasco. É isso que denuncia a hipocrisia de quem (historicamente) as condena seletivamente, como pretexto.

O debate sobre este pretexto tem motivado polémicas e dúvidas que a entrada de inspetores de armas químicas na Síria poderá ajudar a clarificar. A verdade traz sempre luz sobre os juízos, mas sempre tem o poder de os alterar. Robert Fisk, jornalista premiado e encartado nestas matérias, esteve em Douma nos últimos dias e escreveu no “Independent” que, “depois de falar com mais de 20 pessoas, não consegui encontrar uma que mostrasse o mínimo interesse no papel de Duma na chegada dos ataques aéreos ocidentais. Duas até me disseram que não conheciam nenhuma relação”.

Porque a questão nunca foi o pretexto. A Síria é um país em guerra no umbigo das potências no Médio Oriente, conflitos só acirrados pelo terrorismo islâmico. O mundo é hoje governado por ultraconservadores mais belicistas do que antes, a começar pelos EUA, para quem a “Aliança” volta a ser instrumental, e a ONU dispensável.

Internamente, Macron há muito que despencou nos índices de popularidade em França e está a braços com conflitos sociais pela resistência à sua legislação laboral. Theresa May tem o Brexit, poucas letras para muitos problemas, um país em escalada conservadora e os tories para aguentar (se quer continuar primeira-ministra). Trump tem tudo: escândalos com o FBI, demissões em massa no seu gabinete, um muro mil vezes prometido, demasiadas ameaças inconsequentes vociferadas no Twitter.

Foi por todas estas razões que três potências se juntaram para bombardear a Síria. E não é preciso muita imaginação para perceber o efeito que mais bombas têm numa guerra. É sempre a somar ao mais de meio milhão de mortos. É necessária interpretação criativa, isso sim, para entender a posição do governo português e do Presidente da República. Dizem “compreender” o ataque porque é preciso “evitar a todo o custo qualquer escalada” e “construir a paz”.

“Síria, 2018”. Já vimos este filme, não há suspense, acaba mal. Já foi tudo dito: em nosso nome, não.

 

Deputada do Bloco de Esquerda

 

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