Um visionário da moderna indústria mineira


No início dos anos 70, Quintino Rogado, já professor catedrático do Técnico, cria com os seus assistentes, um centro de investigação para o desenvolvimento das novas metodologias daquela área científica. É um tempo que coincide com uma mudança drástica do cálculo automático.


No centenário do nascimento do professor José Quintino Rogado, é obrigatório destacar o papel de um visionário que mudou o ensino e a prática da engenharia de minas em Portugal e foi um dos atores que mais contribuiu para colocar a indústria extrativa internacional na rota da modernidade, tal como a conhecemos hoje.

Os mais relevantes “Think Tanks” que analisam a estratégia de longo termo das maiores empresas mineiras internacionais concordam que a segurança, a sustentabilidade e a produtividade são dos mais importantes objetivos a atingir. Para assegurar estas metas, dentro do quadro atual de crescente procura de matérias-primas minerais, para fazer face à necessária transição energética, a moderna indústria mineira assenta em alguns pilares fortes da sua atividade produtiva: automação, robótica, inteligência artificial, mineração em tempo real, sistemas LTE (Long Term Evolution) de comunicação. Mas a indústria mineira tem uma particularidade diferenciadora das restantes: lida com recursos minerais, que são espacialmente muito heterogéneos, mal reconhecidos, localizados em ambientes geologicamente complexos e cada vez mais profundos, onde a incerteza e a ignorância se sobrepõem ao conhecimento. Isso implica que todos aqueles pilares têm necessariamente de assentar numa interface fiável do conhecimento do recurso mineral e dos riscos associados ao seu desconhecimento. Por esta razão, os projetos mineiros modernos têm um denominador comum como alvo: uma grande capacidade de previsão dos recursos minerais existentes, para uma consequente alocação otimizada dos meios de toda a cadeia de produção da mina.

Esta realidade, que conhecemos hoje, viveu a sua primeira grande transformação nos anos 60 do século XX com alguns intervenientes de relevo, entre os quais o engenheiro de minas, José Quintino Rogado, então responsável técnico das minas de ferro de Cassinga no sul de Angola. Foi aí que levantou um problema e enfrentou um desafio que desencadeou uma das mais marcantes mudanças estruturais da prática da engenharia de minas: o que impedia o planeamento e a gestão dos recursos minerais, no sentido de previsão de curto e médio termo da sua produção, era a ausência de modelos matemáticos desses recursos. Eram tempos em que predominavam modelos empíricos dos recursos com um acentuado desfasamento em relação à evolução tecnológica do equipamento mineiro.

Um encontro casual com um jovem cientista francês da École des Mines de Paris, Georges Matheron, que testava os primeiros modelos geoestatísticos nos depósitos de ouro de Witswatersrand na África do Sul, acabaria por dar origem à solução daquele gargalo metodológico. Quintino Rogado percebeu que, naqueles modelos, desenvolvidos por Matheron no recém-criado centro de geoestatística de Fontainebleau, poderia estar a chave para transformar o quadro metodológico da engenharia de minas. Numa palavra, era possível a transformação de um recurso heterogéneo e muito complexo numa realidade previsível e integrável num fluxo de produção.

No início dos anos 70, Quintino Rogado, já professor catedrático do Técnico, cria com os seus assistentes, um centro de investigação para o desenvolvimento das novas metodologias daquela área científica. É um tempo que coincide com uma mudança drástica do cálculo automático, através da maior disponibilização dos computadores com o advento dos microprocessadores e computadores pessoais, e do aumento exponencial do poder de cálculo. Problemas até ali de difícil abordagem do ponto de vista analítico, passaram a ter soluções algorítmicas, rápidas e fiáveis, no quadro do cálculo numérico.

É assim que o Técnico se torna numa das primeiras e mais importantes escolas internacionais a criar, praticar e ensinar modelos geoestatísticos para a caracterização e previsão de recursos minerais e modelos matemáticos de otimização (Investigação Operacional) no Planeamento Mineiro. Novas disciplinas que mudaram em definitivo a prática da engenharia de minas.

É este o quadro metodológico, de quantificação do conhecimento e incerteza de um recurso mineral, que serviu de base à evolução tecnológica do processo produtivo de uma mina, tal como a conhecemos hoje – sistemas de comunicação internas, equipamento mineiro autónomo ou semi-autónomo, prática de “real-time mining”- assegurando dois dos objetivos principais da industria extrativa, a segurança e a produtividade. Para além disso, a capacidade de previsão da incerteza e risco dos recursos minerais, permitiu integrar e otimizar toda a cadeia do processo produtivo e, deste modo, abranger a energia e o ambiente, as bases do outro grande objetivo, a sustentabilidade: reduzir o consumo de energia no processamento de minérios e na mina e minimizar os impactes ambientais dos resíduos mineiros tornaram sustentável a prática da moderna engenharia de minas.  

Desde os anos 70 do século passado, várias gerações de alunos formados no Técnico, ao integrarem a indústria mineira, cimentaram as bases da moderna engenharia de minas de hoje. Toda esta transformação se deveu à grande visão de José Quintino Rogado.

Professor do Instituto Superior Técnico e investigador no Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA)

Um visionário da moderna indústria mineira


No início dos anos 70, Quintino Rogado, já professor catedrático do Técnico, cria com os seus assistentes, um centro de investigação para o desenvolvimento das novas metodologias daquela área científica. É um tempo que coincide com uma mudança drástica do cálculo automático.


No centenário do nascimento do professor José Quintino Rogado, é obrigatório destacar o papel de um visionário que mudou o ensino e a prática da engenharia de minas em Portugal e foi um dos atores que mais contribuiu para colocar a indústria extrativa internacional na rota da modernidade, tal como a conhecemos hoje.

Os mais relevantes “Think Tanks” que analisam a estratégia de longo termo das maiores empresas mineiras internacionais concordam que a segurança, a sustentabilidade e a produtividade são dos mais importantes objetivos a atingir. Para assegurar estas metas, dentro do quadro atual de crescente procura de matérias-primas minerais, para fazer face à necessária transição energética, a moderna indústria mineira assenta em alguns pilares fortes da sua atividade produtiva: automação, robótica, inteligência artificial, mineração em tempo real, sistemas LTE (Long Term Evolution) de comunicação. Mas a indústria mineira tem uma particularidade diferenciadora das restantes: lida com recursos minerais, que são espacialmente muito heterogéneos, mal reconhecidos, localizados em ambientes geologicamente complexos e cada vez mais profundos, onde a incerteza e a ignorância se sobrepõem ao conhecimento. Isso implica que todos aqueles pilares têm necessariamente de assentar numa interface fiável do conhecimento do recurso mineral e dos riscos associados ao seu desconhecimento. Por esta razão, os projetos mineiros modernos têm um denominador comum como alvo: uma grande capacidade de previsão dos recursos minerais existentes, para uma consequente alocação otimizada dos meios de toda a cadeia de produção da mina.

Esta realidade, que conhecemos hoje, viveu a sua primeira grande transformação nos anos 60 do século XX com alguns intervenientes de relevo, entre os quais o engenheiro de minas, José Quintino Rogado, então responsável técnico das minas de ferro de Cassinga no sul de Angola. Foi aí que levantou um problema e enfrentou um desafio que desencadeou uma das mais marcantes mudanças estruturais da prática da engenharia de minas: o que impedia o planeamento e a gestão dos recursos minerais, no sentido de previsão de curto e médio termo da sua produção, era a ausência de modelos matemáticos desses recursos. Eram tempos em que predominavam modelos empíricos dos recursos com um acentuado desfasamento em relação à evolução tecnológica do equipamento mineiro.

Um encontro casual com um jovem cientista francês da École des Mines de Paris, Georges Matheron, que testava os primeiros modelos geoestatísticos nos depósitos de ouro de Witswatersrand na África do Sul, acabaria por dar origem à solução daquele gargalo metodológico. Quintino Rogado percebeu que, naqueles modelos, desenvolvidos por Matheron no recém-criado centro de geoestatística de Fontainebleau, poderia estar a chave para transformar o quadro metodológico da engenharia de minas. Numa palavra, era possível a transformação de um recurso heterogéneo e muito complexo numa realidade previsível e integrável num fluxo de produção.

No início dos anos 70, Quintino Rogado, já professor catedrático do Técnico, cria com os seus assistentes, um centro de investigação para o desenvolvimento das novas metodologias daquela área científica. É um tempo que coincide com uma mudança drástica do cálculo automático, através da maior disponibilização dos computadores com o advento dos microprocessadores e computadores pessoais, e do aumento exponencial do poder de cálculo. Problemas até ali de difícil abordagem do ponto de vista analítico, passaram a ter soluções algorítmicas, rápidas e fiáveis, no quadro do cálculo numérico.

É assim que o Técnico se torna numa das primeiras e mais importantes escolas internacionais a criar, praticar e ensinar modelos geoestatísticos para a caracterização e previsão de recursos minerais e modelos matemáticos de otimização (Investigação Operacional) no Planeamento Mineiro. Novas disciplinas que mudaram em definitivo a prática da engenharia de minas.

É este o quadro metodológico, de quantificação do conhecimento e incerteza de um recurso mineral, que serviu de base à evolução tecnológica do processo produtivo de uma mina, tal como a conhecemos hoje – sistemas de comunicação internas, equipamento mineiro autónomo ou semi-autónomo, prática de “real-time mining”- assegurando dois dos objetivos principais da industria extrativa, a segurança e a produtividade. Para além disso, a capacidade de previsão da incerteza e risco dos recursos minerais, permitiu integrar e otimizar toda a cadeia do processo produtivo e, deste modo, abranger a energia e o ambiente, as bases do outro grande objetivo, a sustentabilidade: reduzir o consumo de energia no processamento de minérios e na mina e minimizar os impactes ambientais dos resíduos mineiros tornaram sustentável a prática da moderna engenharia de minas.  

Desde os anos 70 do século passado, várias gerações de alunos formados no Técnico, ao integrarem a indústria mineira, cimentaram as bases da moderna engenharia de minas de hoje. Toda esta transformação se deveu à grande visão de José Quintino Rogado.

Professor do Instituto Superior Técnico e investigador no Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA)