Nunca se sentiu ‘fantasticamente bonita’, mas sempre quis ser ‘impressionante’. E impressionou pela sua extravagância, força e criatividade. Agora, aos 69 anos, Donatella Versace está de saída da direção criativa da marca fundada pelo irmão, passando a desempenhar o papel de embaixadora principal com foco nas intervenções filantrópicas da etiqueta, como a Fundação Versace.
Sempre transmitiu poder, sendo uma das personalidades mais icónicas, importantes e bem sucedidas da história da moda recente. Considerada «neurótica» por alguns, descreve-se como uma «mulher de negócios», «muito séria» que pensa na Versace 24 horas por dia.
Nunca se sentiu «fantasticamente bonita», mas sempre quis ser «impressionante». Foi responsável pela transformação e sucesso da Versace depois do assassínio do irmão, em 1997, à porta da sua mansão de Miami Beach; pelo surgimento e sucesso das famosas supermodelos da década de 1990 – Naomi Campbell, Claudia Schiffer, Cindy Crawford, Linda Evangelista, Carla Bruni ou Kate Moss –, que ficaram conhecidas como as suas «musas». Com um estilo inconfundível, marcado pelas extensões, os cabelos loiros platinados – que usa desde os 11 anos –, o bronzeado permanente, os olhos fumados de preto e roupa justa, nunca temeu pessoas que pudessem ser melhores do ela. «Pelo contrário! Eu procuro-as», revelou numa entrevista em 2018 concedida à dupla Michael Ebert e Sven Michaelsen para a revista digital SSENSE. E também nunca pensou em mudar de penteado. «Ser loira é uma forma de estar na vida. Se o fizesse, não me reconheceria», admitiu à mesma publicação.
Acredita que não são as tendências que impulsionam a indústria da moda, mas sim «as eternas obsessões das mulheres quando se olham no espelho». Interrogada sobre como se vestiria se tivesse que apresentar-se diante de Deus, respondeu que levaria saltos altos, uma das suas perdições. «Tenho a certeza de que Deus nunca viu nenhuns», brincou. No mesmo ano, afirmou que é muito difícil ser quem é. «Gostaria de não ser reconhecida… As pessoas pedem-me uma selfie, e eu fico com vergonha. Sou tímida». Quanto à responsabilidade de ser diretora artística de uma empresa com tamanha história, reconheceu ser duro.
Apesar de defender que Versace sempre foi uma marca para mulheres fortes, «que não têm medo de sair, de se expor e de ser glamorosas – mulheres que acreditam em si mesmas», admitiu várias vezes ter várias inseguranças. E talvez sejam resultado do seu passado complicado e das provas que teve de dar para ser levada a sério. Mesmo assim, transformou a marca italiana numa referência de luxo e ousadia. Agora, aos 69 anos, deixa o cargo, passando a desempenhar o papel de embaixadora principal com foco nas intervenções filantrópicas da etiqueta, como a Fundação Versace.
A Versace anunciou recentemente que o lugar que até aqui pertenceu a Donattela Versace será ocupado pelo italiano Dario Vitale, antigo criador da Miu Miu, marca de luxo que deixou em janeiro deste ano. Vitale conta com um extenso currículo no mundo da moda, tendo passado por outras grandes casas como a Prada ou a Bottega Veneta e assumirá funções a partir do próximo dia 1 de abril – pela primeira vez em quase 50 anos, a marca deixará de ser desenhada por um Versace. Recorde-se que a Versace é propriedade da Capri Holdings desde 2018, quando a multinacional comprou a empresa por mais de 1,8 mil milhões de euros à família e à Blackstone.
«Apoiar a nova geração de designers sempre foi importante para mim, e estou empolgada em ver a Versace através de um novo olhar», disse a designer em comunicado oficial. «Carregar o legado do meu irmão Gianni tem sido a maior honra da minha vida», acrescentou. Mas afinal, quem é Donatella? De que forma revolucionou o mundo da moda?
A musa de Gianni
Nasceu no dia 2 de maio de 1955, em Reggio, na região de Calábria, no sul de Itália. A mais nova de uma família com quatro filhos, bastante conservadora, há quem diga que cresceu à sombra dos seus irmãos mais velhos, Santo e Gianni.
A mãe, Francesca, era dona de um ateliê de costura. Por isso, desde muito jovem, Donatella teve interesse pela área, assim como o seu irmão mais velho, Gianni, com quem sempre teve uma relação muito próxima. «Eu era a sua boneca e a sua melhor amiga. Ele vestia-me com roupas incríveis, levava-me a discotecas e bares desde que eu tinha 11 anos. Eu adorava. Foi a melhor época da minha vida», partilhou com o The Guardian, em 2017.
Apesar deste ter estudado arquitetura – segundo a revista Elle, pelo fascínio que tinha pelas ruínas gregas que dominavam a paisagem da cidade onde nasceu e que mais tarde apareceriam nas suas criações – Gianni não seguiu essa carreira. Começou a trabalhar como designer aos 22 anos, desenhando coleções como freelancer. Em 1978, abriu a primeira loja da Versace, em Milão, dando início a um império. Em março desse mesmo ano, apresentou a sua primeira coleção feminina com o seu sobrenome na etiqueta; em setembro veio a masculina. E o sucesso da Versace foi «praticamente instantâneo».
Apesar de ter estudado literatura italiana em Florença e desejar seguir a área de relações públicas, Donatella sempre esteve envolvida no negócio, primeiro como musa e confidente do irmão e, mais tarde, como responsável pela linha de pronto-a-vestir – Versus –, criada propositadamente para ela. Donatella aconselhava Gianni sobre como projetar e orquestrar campanhas publicitárias e desfiles de moda da marca.
De acordo com a revista Fashion Network, desempenhou um papel decisivo na formação da estética barroca e sensual da Versace. «Vestida de couro e equilibrando-se em saltos altos, Donatella não era apenas uma força criativa, mas também mestre na criação de imagens. Uma insider de Hollywood antes que isso se tornasse a norma, foi uma das primeiras estilistas a recorrer a celebridades como embaixadoras de marca, contratando Madonna, Prince e Elton John para as suas campanhas», descreve a publicação. Além disso, entendeu muito cedo o poder dos principais fotógrafos (Avedon, Steven Meisel) e da nova geração de supermodelos, contratando Naomi Campbell, Claudia Schiffer e Carla Bruni. «Essas novas modelos mudaram a moda e tornaram-se parte da família Versace», explicou num documentário de Loïc Prigent, citada pela mesma revista.
Em 1993, Gianni foi diagnosticado com um cancro raro no ouvido. Nessa altura, começou a preparar a irmã para ser a sua sucessora no caso de não resistir à doença. Embora tenha conseguido vencê-la, a vida do estilista estava realmente próxima do fim. Na manhã de 15 de julho de 1997, o mundo acordou em choque com a notícia de que este havia sido assassinado pelo serial killer de 27 anos, Andrew Cunanan, à porta da sua casa de South Beach, em Miami, com dois tiros na cabeça.
De acordo com a imprensa internacional, as investigações da polícia revelaram que Cunanan era um psicopata. Inteligente, extrovertido, mentiroso patológico, sem empatia ou remorsos, cometeu cinco assassinatos de abril a julho de 1997, sendo o de Versace o último.
A ascenso da estilista
Até então Donatella nunca tinha desenhado uma coleção principal. Porém, foi a escolhida para ficar à frente do império. E os primeiros anos não foram nada fáceis. «Durante os primeiros cinco anos, senti-me perdida… cometi muitos erros», confessou ao The Guardian. «Quando o meu irmão foi assassinado, eu tinha o mundo inteiro com os olhos postos em cima de mim e 99% deles achavam que eu não conseguiria. No começo, talvez eu tenha pensado o mesmo […]. O meu irmão era o rei», admitiu.
De acordo com a Fashion Network, sem autoconfiança, acabou por entrar em depressão e os meios de comunicação social não foram meigos, criticando as suas dramáticas transformações plásticas e ações. Além disso, nessa altura, lutava também contra o vício em cocaína, que culminou numa intervenção organizada pelos seus amigos, levando-a a passar por uma temporada na reabilitação em 2004. «Senti que toda a gente me olhava com maus olhos e criava uma máscara que me protegia. Quem é que compra moda a um estilista débil que é viciado em drogas e, portanto, não consegue suportar a pressão?», lembrou na entrevista à SSENSE. «Ninguém! Por isso criei uma segunda Donatella: fria, distante, agressiva e assustadora», continuou.
Na segunda metade da década, escreve o The Guardian, acabou por encontrar a sua voz. «Estava a ouvir toda a gente e a dada altura pensei: ‘Quem era a pessoa que meu irmão ouvia? Eu’. Eu trabalhava com ele todos os dias. Eu era muito mais do que uma musa. Era um diálogo entre nós. Discutíamos tudo», afirmou ao jornal britânico. À medida que sua confiança aumentava, a estilista começou a adotar «a linguagem do empoderamento feminino». Assim, acredita, a sua perspetiva como mulher «acabou por mudar a Versace», tornando-a «mais feminina e mais feminista».
Gian Giacomo Ferraris, o novo diretor-geral, em 2009 também ajudou a marca italiana a dar o salto. Com ele, diversificou-se: abriu hotéis, vendeu relógios, perfumes e expandiu as suas marcas de pronto-a-vestir. Além disso, regressou à passerelle da alta costura com vestidos ousados.
Apesar dos problemas que enfrentou no princípio do cargo, o desfile de primavera/verão 1998, realizado em outubro de 1997, poucos meses depois do homicídio do irmão – em que Donatella se estreou com uma coleção solo, apesar de Gianni ter deixado alguns esboços da coleção antes de morrer –, foi para muitos críticos a prova de que esta honraria o legado do irmão, ao mesmo tempo que mostrava ter uma identidade própria.
Ao longo da sua carreira como estilista, foi a cabeça por trás de grandes campanhas protagonizadas por figuras como Madonna, Beyoncé, Lady Gaga e Gigi Hadid, e criou desfiles que foram considerados verdadeiros acontecimentos.
Uma das suas criações mais icónicas foi o lendário Jungle Dress – um vestido de folhas de palmeira verdes-esmeralda e azuis, com um grande decote até ao umbigo –, que a cantora e atriz Jennifer Lopez usou nos Grammys de 2000. A procura de fotografias da artista com o vestido foi tão grande que ajudou a inventar o Google Image Search, o motor de busca de imagens.
Relativamente à vida amorosa da estilista, foi casada duas vezes. O seu primeiro casamento foi com o ex-modelo Paul Beck, em 1983. Desse casamento resultaram dois filhos: Allegra e Daniel Versace. O relacionamento chegou ao fim em 2000. Quatro anos depois, casou-se novamente, desta vez com o empresário Manuel Dallori. A relação durou apenas um ano. Desde então que se mantém solteira. E, segundo a própria, «muito bem resolvida com o seu status». Diz que «os homens só são necessários para aventuras amorosas e para relações físicas».
Em 2023, o governo italiano reconheceu a sua contribuição para a moda e cultura, concedendo-lhe a Ordem de Mérito da República Italiana, uma das mais altas distinções do país.
«Versace será sempre Versace: luxo, glamour, sensualidade e elegância», assegurou ao jornal francês Libération. «Nunca tive uma alternativa ou pensei num plano B. Tudo na minha vida girou à volta da Versace. Tudo na minha vida girou à volta da moda».