Mais do mesmo, na rentrée


Ficamos com a sensação de que os problemas se repetem e se agravam de ano para ano.


1. O Presidente Marcelo vetou a lei da Habitação devolvendo-a ao Parlamento. O passo seguinte será o PS voltar a aprovar a lei  exatamente nos mesmos termos. O assunto vai ser tema por uns dias, até que sature a bolha político-mediática. A verdade é que é absolutamente indiferente a decisão do Presidente ter sido esta ou o contrário. O problema da habitação é gravíssimo em Portugal. Nunca estivemos tão mal, seja para alugar ou comprar, independentemente de se ser inquilino, proprietário ou investidor. Também não há memória de uma ministra tão incapaz e inábil. Nem mesmo Cristas, o que é difícil. Tudo o que tem sido feito agrava a situação. A decisão política presidencial é inócua, sem que ele tenha culpa. Quando muito chateia o Governo. Para Costa será mais uma “chicuelina” que dará aos jornalistas quando o confrontarem.

 

2. É prodigiosa a notícia de que a Santa Casa de Misericórdia anda aflita de dinheiro. Nem essa instituição centenária aguentou nas mãos da gestão socialista. Há anos que se antecipavam problemas sérios, iniciados na inenarrável tutela do ministro Vieira da Silva. Isto, apesar de alguns alertas dados neste e muitos outros espaços. Ao longo de anos, sucederam-se más opções, apostas (é caso para dizer) erradas e tachos sem conta para boys e girls da cor. Houve incompetência de gestão óbvia. A isso se junta a sistemática degradação social e o empobrecimento da população portuguesa, que António Costa e quejandos persistem em negar. Ora, isso implica esforços redobrados da Santa Casa, que é na prática a Segurança Social em Lisboa. A situação é tão complicada que nem a ministra da tutela, Ana Mendes Godinho, valida as contas. A Santa Casa é um exemplo vivo da destruição de valor que o PS trouxe nos vinte dois anos que governou desde 1995.

 

3. O leilão da baixa de impostos está em curso, trazido pelos partidos todos e pelo governo. Montenegro foi o mais veemente e a atitude pode valer-lhe mais simpatias, coisa de que o PSD bem precisa. Em Portugal, a carga fiscal é brutal para uns e muito leve para outros que acumulam (e bem) subsídios de toda a espécie. Era, todavia, desejável que ninguém ficasse isento de receber uma informação anual com os apoios que auferiu, quando for o caso. Seria um IRS ao contrário e muito pedagógico. Há um largo grupo de pagantes que são chamados a todos os esforços. São pobres, mas insistem em chamá-los classe média. Isto, num país com mais de 740 mil funcionários públicos, fora os das empresas do Estado paradas e sem futuro (como a Transtejo, Soflusa e a CP) e algumas atividades privadas que prestam serviços e consultorias diversas, além de institutos de todo o género. Feitas as contas, trabalham para o Estado mais de 900 mil cidadãos. E, no entanto, não há médicos, enfermeiros, militares, oficiais de justiça, juízes, professores, bombeiros sapadores, polícias, guardas, assistentes sociais, etc.. Até as repartições de finanças deixaram de trabalhar de porta aberta, como se estivéssemos ainda em pandemia. Bem vistas as coisas, seria talvez melhor manter os impostos e conseguir organizarmo-nos minimamente para não sermos uma sociedade em vias de colapsar. Pagar menos e continuar sem contrapartidas dignas é não mudar nada. É cosmética. E para isso os portugueses já deram… e muito.

 

4. Na Parpública (o enorme grupo que gere cerca de meia centena de empresas do Estado) houve mudanças no conselho de administração na semana passada. Foi, na prática, uma troca de cadeiras entre socialistas que atingiu ainda outros lugares dependentes do ministério das finanças. Não interessa tanto saber quem substituiu quem, porque é tudo farinha do mesmo saco. Mesmo assim é estranho mexer-se na administração de um grupo que está incumbido de liderar a privatização da TAP e da Efacec, dois dos problemas mais bicudos e mais complexos da economia nacional. E pelo que se viu na CPI à gestão da TAP, não é propriamente a tutela de Galamba que percebe alguma coisa do assunto. Ele próprio o reconheceu explicitamente, sempre que foi questionado sobre aspetos menos genéricos.

 

5. É no mínimo surrealista o tempo que o CES (Centro de Estudos Sociais) está a levar para cumprir a obrigação de investigar as práticas de assédio do seu fundador, Boaventura Sousa Santos. Este, aliás, já as admitiu e até as justificou por razões culturais da sua geração dos anos quarenta do século passado. Resumindo, a comissão de inquérito levou quatro meses para ser constituída, tomou posse a 1 de agosto e deu como limite para as denúncias o dia 30 de setembro. Malandrice (!), como dizia nos seus sketches Raul Solnado. 

6. O recente incêndio que devastou outra vez uma larga zona de Ourique, Aljezur e parte de Monchique merece um inquérito severo. Como foi possível a sua dimensão e propagação? Como foi possível a repetição de tanta descoordenação? Como foi possível voltar a deixar-se pessoas a defender os seus bens sozinhas com mais de 15 carros de bombeiros parados a centenas de metros? Como foi até possível dar-se um corte no abastecimento de água precisamente nessa altura? Para que servem dezenas de máquinas de rasto velhas e paradas? Será só para faturar? Quem ganha com os fogos? E porque é que interessa a tanta gente mandar nas corporações de bombeiros? Será que os aviões e helicópteros são o tão fabuloso negócio de que se fala? Será mesmo verdade que, não havendo fogos, perdiam-se, milhares de milhões de arranjos? O que justifica guerras surdas entre a Proteção Civil e as corporações de bombeiros? Há quem assegure que se deita dinheiro fora em apoios a bombeiros que seria bem mais úteis com investimentos na preservação florestal. E, afinal, para que servem os seguros e as palavras de governantes que vão ao terreno fazer promessas rituais já para amanhã e que nunca chegam? São muitas as questões suscitadas pelas imagens de terror que as televisões nos mostram de Portugal e de outros países. É triste ver um homem durante horas a combater um incêndio sozinho (mais tarde com um pequeno apoio de familiares que acorreram), a perder o que construiu durante anos, conseguindo por milagre e esforço preservar a maior parte da casa. Tudo isto se repete, incluindo as justificações de sempre, como o fogo posto e as alterações climáticas. Também há o abandono do interior. Mas há muito mais coisas ligadas a interesses obscuros. Triste, desolado, queimado, devastado emocionalmente por tudo o que perdeu, esse combatente solitário diz que gostava de tomar um café com Marcelo. Seria sem ninguém por perto para lhe contar o que sabe, o que vê e o que se passa mesmo. E acrescenta: “Ele que não se deixe enganar pelo que lhe dizem”. Nem ligou às queimaduras, nem quis o conforto das autoridades no rescaldo. “Eu precisava dos gajos era na hora. Estavam acolá e não vieram”. Porquê? Curiosamente, um relato semelhante surgiu na RTP pela boca de um viticultor estrangeiro que lá conseguiu juntar gente e preservar as vinhas. Teve mais sorte.

Mais do mesmo, na rentrée


Ficamos com a sensação de que os problemas se repetem e se agravam de ano para ano.


1. O Presidente Marcelo vetou a lei da Habitação devolvendo-a ao Parlamento. O passo seguinte será o PS voltar a aprovar a lei  exatamente nos mesmos termos. O assunto vai ser tema por uns dias, até que sature a bolha político-mediática. A verdade é que é absolutamente indiferente a decisão do Presidente ter sido esta ou o contrário. O problema da habitação é gravíssimo em Portugal. Nunca estivemos tão mal, seja para alugar ou comprar, independentemente de se ser inquilino, proprietário ou investidor. Também não há memória de uma ministra tão incapaz e inábil. Nem mesmo Cristas, o que é difícil. Tudo o que tem sido feito agrava a situação. A decisão política presidencial é inócua, sem que ele tenha culpa. Quando muito chateia o Governo. Para Costa será mais uma “chicuelina” que dará aos jornalistas quando o confrontarem.

 

2. É prodigiosa a notícia de que a Santa Casa de Misericórdia anda aflita de dinheiro. Nem essa instituição centenária aguentou nas mãos da gestão socialista. Há anos que se antecipavam problemas sérios, iniciados na inenarrável tutela do ministro Vieira da Silva. Isto, apesar de alguns alertas dados neste e muitos outros espaços. Ao longo de anos, sucederam-se más opções, apostas (é caso para dizer) erradas e tachos sem conta para boys e girls da cor. Houve incompetência de gestão óbvia. A isso se junta a sistemática degradação social e o empobrecimento da população portuguesa, que António Costa e quejandos persistem em negar. Ora, isso implica esforços redobrados da Santa Casa, que é na prática a Segurança Social em Lisboa. A situação é tão complicada que nem a ministra da tutela, Ana Mendes Godinho, valida as contas. A Santa Casa é um exemplo vivo da destruição de valor que o PS trouxe nos vinte dois anos que governou desde 1995.

 

3. O leilão da baixa de impostos está em curso, trazido pelos partidos todos e pelo governo. Montenegro foi o mais veemente e a atitude pode valer-lhe mais simpatias, coisa de que o PSD bem precisa. Em Portugal, a carga fiscal é brutal para uns e muito leve para outros que acumulam (e bem) subsídios de toda a espécie. Era, todavia, desejável que ninguém ficasse isento de receber uma informação anual com os apoios que auferiu, quando for o caso. Seria um IRS ao contrário e muito pedagógico. Há um largo grupo de pagantes que são chamados a todos os esforços. São pobres, mas insistem em chamá-los classe média. Isto, num país com mais de 740 mil funcionários públicos, fora os das empresas do Estado paradas e sem futuro (como a Transtejo, Soflusa e a CP) e algumas atividades privadas que prestam serviços e consultorias diversas, além de institutos de todo o género. Feitas as contas, trabalham para o Estado mais de 900 mil cidadãos. E, no entanto, não há médicos, enfermeiros, militares, oficiais de justiça, juízes, professores, bombeiros sapadores, polícias, guardas, assistentes sociais, etc.. Até as repartições de finanças deixaram de trabalhar de porta aberta, como se estivéssemos ainda em pandemia. Bem vistas as coisas, seria talvez melhor manter os impostos e conseguir organizarmo-nos minimamente para não sermos uma sociedade em vias de colapsar. Pagar menos e continuar sem contrapartidas dignas é não mudar nada. É cosmética. E para isso os portugueses já deram… e muito.

 

4. Na Parpública (o enorme grupo que gere cerca de meia centena de empresas do Estado) houve mudanças no conselho de administração na semana passada. Foi, na prática, uma troca de cadeiras entre socialistas que atingiu ainda outros lugares dependentes do ministério das finanças. Não interessa tanto saber quem substituiu quem, porque é tudo farinha do mesmo saco. Mesmo assim é estranho mexer-se na administração de um grupo que está incumbido de liderar a privatização da TAP e da Efacec, dois dos problemas mais bicudos e mais complexos da economia nacional. E pelo que se viu na CPI à gestão da TAP, não é propriamente a tutela de Galamba que percebe alguma coisa do assunto. Ele próprio o reconheceu explicitamente, sempre que foi questionado sobre aspetos menos genéricos.

 

5. É no mínimo surrealista o tempo que o CES (Centro de Estudos Sociais) está a levar para cumprir a obrigação de investigar as práticas de assédio do seu fundador, Boaventura Sousa Santos. Este, aliás, já as admitiu e até as justificou por razões culturais da sua geração dos anos quarenta do século passado. Resumindo, a comissão de inquérito levou quatro meses para ser constituída, tomou posse a 1 de agosto e deu como limite para as denúncias o dia 30 de setembro. Malandrice (!), como dizia nos seus sketches Raul Solnado. 

6. O recente incêndio que devastou outra vez uma larga zona de Ourique, Aljezur e parte de Monchique merece um inquérito severo. Como foi possível a sua dimensão e propagação? Como foi possível a repetição de tanta descoordenação? Como foi possível voltar a deixar-se pessoas a defender os seus bens sozinhas com mais de 15 carros de bombeiros parados a centenas de metros? Como foi até possível dar-se um corte no abastecimento de água precisamente nessa altura? Para que servem dezenas de máquinas de rasto velhas e paradas? Será só para faturar? Quem ganha com os fogos? E porque é que interessa a tanta gente mandar nas corporações de bombeiros? Será que os aviões e helicópteros são o tão fabuloso negócio de que se fala? Será mesmo verdade que, não havendo fogos, perdiam-se, milhares de milhões de arranjos? O que justifica guerras surdas entre a Proteção Civil e as corporações de bombeiros? Há quem assegure que se deita dinheiro fora em apoios a bombeiros que seria bem mais úteis com investimentos na preservação florestal. E, afinal, para que servem os seguros e as palavras de governantes que vão ao terreno fazer promessas rituais já para amanhã e que nunca chegam? São muitas as questões suscitadas pelas imagens de terror que as televisões nos mostram de Portugal e de outros países. É triste ver um homem durante horas a combater um incêndio sozinho (mais tarde com um pequeno apoio de familiares que acorreram), a perder o que construiu durante anos, conseguindo por milagre e esforço preservar a maior parte da casa. Tudo isto se repete, incluindo as justificações de sempre, como o fogo posto e as alterações climáticas. Também há o abandono do interior. Mas há muito mais coisas ligadas a interesses obscuros. Triste, desolado, queimado, devastado emocionalmente por tudo o que perdeu, esse combatente solitário diz que gostava de tomar um café com Marcelo. Seria sem ninguém por perto para lhe contar o que sabe, o que vê e o que se passa mesmo. E acrescenta: “Ele que não se deixe enganar pelo que lhe dizem”. Nem ligou às queimaduras, nem quis o conforto das autoridades no rescaldo. “Eu precisava dos gajos era na hora. Estavam acolá e não vieram”. Porquê? Curiosamente, um relato semelhante surgiu na RTP pela boca de um viticultor estrangeiro que lá conseguiu juntar gente e preservar as vinhas. Teve mais sorte.