A Universidade Tecnológica de Eindhoven (TU Eindhoven) recebeu 2.9 milhões de euros para desenvolver um útero artificial. O protótipo pretende assemelhar-se o máximo possível a um útero, não só no que diz respeito às condições envolventes como também ao funcionamento. Para além de o objetivo passar por o bebé ficar rodeado de fluidos, o objetivo também é receber oxigénio e nutrientes através do cordão umbilical.
Esta tentativa de aproximação prende-se com o facto de os bebés prematuros receberem oxigénio diretamente para os pulmões quando estão em incubadoras. A ideia desenvolvida pela universidade holandesa pretende assim criar um ambiente onde o bebé possa receber aquilo de que precisa, sem danificar o crescimento dos órgãos, que é o que muitas vezes acaba por acontecer. O facto de certos órgãos, como os pulmões e os intestinos, ainda não estarem suficientemente desenvolvidos ao mesmo tempo que estão a receber nutrientes, pode danificar o funcionamento dos mesmos.
Quando um bebé nasce com menos de 22 semanas, as hipóteses de sobrevivência são quase nulas. Entre as 22 e as 24 semanas, as hipóteses rondam os 10%. Porém, a partir das 24 semanas, as hipóteses de os bebés prematuros sobreviverem aumenta para os 60%. A nível mundial, um milhão de bebés morrem devido à prematuridade, enquanto que os que sobrevivem ficam em risco de desenvolver problemas de saúde.
Guid Oei explica que este novo modelo, que os investigadores esperam estar nas clínicas nos próximos cinco anos, vai provocar uma mudança de paradigma. “Quando colocamos os pulmões de novo debaixo de água eles podem desenvolver, amadurecer, mas o bebé vai receber o oxigénio pelo cordão umbilical, tal como num útero natural”, explica o também ginecologista.
Esta ideia de útero artificial já foi também estudada e testada em animais pelo Hospital Pediátrico de Filadélfia. Em 2017 os investigadores apresentaram o chamado “biobag”, onde uma ovelha nascida com o equivalente a 23 semanas de gravidez humana foi mantida. O animal continuou a desenvolver-se, não apresentando qualquer tipo de problema. Guid Odei destacou a importância deste projeto, que conseguiu estudar o animal durante quatro semanas, e que permitiu assim “mostrar que é de facto possível manter um animal vivo nesse ambiente durante quatro semanas”.
O investigador esclarece ainda que a inovação está no facto de ir ser utilizada uma impressora 3D para criar o útero, não sendo apenas construída através do plástico, tal como o “biobag”. Assim, segundo Oei, os bebés poderão “sentir, ver, cheirar e ouvirem os mesmos sons do que quando estão no útero da mãe”.
Elizabeth Chloe Romanis, advogada na Universidade de Manchester, avisa, no entanto, que este tipo de tecnologia não vai deixar de levantar questões, e que estas devem ser discutidas antes de o útero artificial se tornar real. “A lei trata os fetos e os bebés de maneira muito diferente, então como é que esta questão dos úteros artificiais vai encaixar?”, questiona-se, acerca da forma como o período de gestação vai ser visto pela sociedade – e se esta se tornará uma alternativa à gravidez “natural”.