Boa notícia: a consciência coletiva do racismo mudou para melhor. Na sociedade civil do primeiro mundo, hoje há uma noção geral que o tom de pele é indiferente. Má notícia: o racismo não foi extinto e provavelmente nunca será. Mas o mau exemplo costuma vir de cima e piorou na era Trump. O racismo de que se fala é quase sempre, na sua génese, institucional. E perder tempo a ler a caixas de comentários de jornais é viver entre o real de quem abre o coração atrás de um heterónimo digital, ou de quem simplesmente atira pedras sabendo que nenhuma cabeça irá ficar ferida nem levar pontos. Há que saber relativizar o que se diz nestes cafés.
Ainda assim, é claro que da administração Obama para o atual presidente há um retrocesso civilizacional titânico, palpável todos os dias e traduzível numa palavra: medo – a mais poderosa das armas, porque não implica balas nem sangue a jorrar pelo chão. É psicológica e mata por antecipação. Sem dores, só de alma. Acionar o medo é limitar o pensamento e condicionar a ação. Melhor seguro para o conservadorismo não há.
Se há alguém que tem seguido a causa do racismo de câmara na mão é Spike Lee. Mas “BlacKkKlansman – O Infiltrado”, pelo contexto de uma América desconfiada do devir, é particularmente sensível e tem uma responsabilidade acrescida sobretudo para uma comunidade negra, dividida entre o receio de um presidente insano e o poder mediático de ícones culturais, da televisão, ao desporto, cinema ou música.
Há Ron Stallworth, o primeiro polícia negro do departamento policial de Colorado Springs. O filme apoia-se na biografia de 2006 e assemelha-se a uma obra de Blaxploitation dos anos 70. Stallworth infiltra-se no Ku Klux Klax, em dupla com um colega judeu, a quem apela às mesmas questões de justiça e vingança de um povo.
Enquanto Flip Zimmerman, o judeu, se faz passar pelo americano médio que, ao primeiro foco de ameaça, prime o gatilho sem piedade, Stallworth contacta com David Duke, o educado e polido líder da organização. Um defensor da América de nobres ideais que, na sua prosa populista, faz crer aos seus acólitos que a raça branca é superior.
Por contraste com o antecessor na organização, Duke é contra a violência por acreditar que essa não é a melhor forma de disseminar a mensagem. E tem um sonho: chegar à Casa Branca.
Spike Lee há de ir buscar imagens do regresso de David Duke em 2017 para ilustrar que os tempos só mudaram na trova de Bob Dylan. O racismo é real e pede réplica.
Ron Stallworth personifica o polícia negro destituído de vingança que vence pelo bem, até contra o preconceito instalado no departamento policial. “O meu sonho sempre foi ser polícia”, diz, imbuído de boas intenções, mas, subliminarmente, o filme deixa passar a mensagem que os tempos pedem fogo sobre o fogo quando evoca o desmantelamento do Ku Klux Klan para ligar as sirenes.
As chamas reacenderam. Ou sempre estiveram ao lume, defende Spike Lee. “Ainda lutamos pela mesma causa”, defende sobre “BlacKkKlansman – O Infiltrado”. O filme estreia em vésperas das eleições intercalares nos EUA. E não está só no combate. “Fahrenheit 11/9”, de Michael Moore, é um braço armado.
Ambos sabem que este é um momento chave na história da América. E que algumas das conquistas das últimas décadas estão em risco se Trump não for posto em causa.
“BlacKkKlansman – O Infiltrado” observa o tempo como um todo mas fixa-se nos pontos negros para criar uma visão total de algo parcial.