Excepção feita ao seu pai, conhece mais alguém com bigode? É como encontrar agulha em palheiro. Nem vale a pena tentar, esses tempos já lá vão. Aqui, em Portugal, e também no resto do mundo. Já lá vai o tempo de “levar um bigode”, expressão muito própria dos anos 60 e 70, atribuída a qualquer adversário que visitasse o Benfica no Estádio da Luz. Agora, é raro, raríssimo, alguém levar um bigode.
Na teoria (porque joga-se na retranca como se o futebol tivesse recuado no tempo). E na prática (porque, pura e simplesmente, não há bigodes nos relvados). Perde-se o costume. Vem esta estranha temática a propósito de Jorge Gonçalves, o célebre bigodes.
Nesta situação, vemo-nos obrigados a pensar na relação, que não a de causa-efeito mas tão-só a de casualidade, dos bigodes da história. E basta a nossa. A História de Portugal. D. Afonso Henriques, por exemplo, não só expulsa a mãe, D. Teresa de Leão, com a vitória na batalha de São Mamede (um bigode à intransigência espanhola) como ainda se torna o primeiro rei de Portucale (com bigode, pois claro!).
No futebol, os casos amontoam-se. Por cada momento futebolístico, sublime ou não, mas certamente único, há um bigode ligado a ele. Em 1966, quem é o seleccionador de Portugal no Mundial de Inglaterra? O brasileiro Otto Glória. No Europeu-84, em França, quem é o português eleito para a equipa ideal? Chalana, mais conhecido por Cyra no Bergerac, pelo proeminente nariz e aquele bigode inconfundível, visto a quilómetros de distância.
Na qualificação para o Mundial-86, é preciso ganharmos em Estugarda, à então imbatível RFA. No meio-campo, arranca irresistível a locomotiva do Barreiro. Quem? CarlosManuel. E é golo. Na baliza, quem? Schumacher, outro bigodeiro. No México-86, quem é o porta-voz da indignação nacional? Bento. Ao seu lado, outro bigode (Ribeiro, do Boavista). Está bonito está.
Em 1987, quem é o treinador português a levar o FC Porto à inédita conquista da Taça dos Campeões? Artur Jorge. No ano seguido, quem falha o único penálti da final da Taça dos Campeões entre Benfica e PSV? Veloso, com aquela bigodaça ruiva. Não tiramos o pé do acelerador em termos de finais europeias, ai isso é que não. Em 1990, quem é o ex-sportinguista convicto a decidir o Milan-Benfica? Frank Rijkaard. Esse mesmo, o contratado por Jorge Gonçalves. Uyyy, já demos a volta, qual boomerang.
Em 1989 (Riade) e 1991 (Lisboa), quem é o mister das gerações de ouro? Carlos Queiroz, sem ponta aparada, o que fazia dele um português com aspecto de mexicano dos livros do Lucky Luke. O adjunto é Nelo Vingada – este sim, português de gema. Qual é a selecção portuguesa mais entusiasmante pós-Magriços? A do Euro-2000, de Humberto Coelho, ainda com bigode. Qual é a selecção mais errática de sempre? A do Mundial-2002, treinada por António Oliveira, de bigode apoiado nas muletas. Para cortar com o sinistro passado, a federação aposta em que treinador? Scolari. Que chama Murtosa para adjunto. Juntos, estes dois bigodes aninam Portugal (vice-campeão europeu em 2004 e quarto no Mundial-2006).
O Benfica ideal dos bigodes inclui Bento; Pietra, António Bastos Lopes, Alberto Bastos Lopes e Álvaro; Veloso, Carlos Manuel e Shéu; Chalana, João Alves e César. Ou o Sporting de Meszaros; Gabriel, Virgílio, Barão e Festas; Zezinho, Nogueira, Esmoriz e Romeu; Freire e Oliveira. Ou então o Porto de Mlynarczyk; Gabriel, Teixeira, Simões e Eduardo Luís; Frasco, Murça, Rodolfo e Costa; Seninho e Oliveira. Há para todos os gostos e feitios.
Editor de Desporto
Escreve à sexta e ao sábado