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23 de Agosto de 1963. Empresta-me o teu marido (ou a tua mulher, tanto faz)

23 de Agosto de 1963. Empresta-me o teu marido (ou a tua mulher, tanto faz)

Afonso de Melo 23/08/2022 18:52

Um clube noturno de Paris (que se manteve anónimo) resolveu fazer um quizz (também anónimo) para os seus clientes. Uma das perguntas – “É absolutamente fiel ao seu marido (ou mulher)?” Só um homem e uma mulher responderam SIM. Todos os outros olharam-se com uma profunda desconfiança no olhar. Pudera!

De um momento para o outro, a imprensa parisiense começou a falar desbragadamente de sexo. Nada de admirar. Se há cidade onde se respira sexo por toda a parte, à mistura com suor barato e perfumes caros, essa cidade é Paris.

Havia um periódico que levantava a questão: “Já levou um par de chifres?” Ora, tubérculos. Um fulano abordado desta forma vê-se obrigado a pensar um bom bocado. Depois, lá dirá, atrapalhadamente: “Ora, chifres ou cornos, ou lá o que quiserem, não passam de coisas que nos põem na cabeça!” Imagino-o, em seguida, a descer o mais dignamente possível a Rue des Capucins...

Com o primeiro passo dado, o tema tornou-se moda. E há lá outra cidade no mundo onde tudo se torne moda como em Paris?! Um clube privado, formado por sócios de prestígio, colocou à consideração dos seus apaniguados um pequenos questionário que procurava escarafunchar a sua intimidade. Por exemplo, pergunta número um, logo pronta para encostar um (ou uma) infeliz à parede: “Você é absolutamente fiel ao seu Marido (ou mulher) ou ao seu amigo (amiga)?” E, de imediato: “Se não é, as suas infidelidades são frequentes ou ocasionais?”

Os boletins eram do género teste americano, com os quadradinhos onde pôr a resposta através de uma cruz, azuis para os membros do sexo masculino, cor-de-rosa para as mulheres, não assinados, ou seja, completamente anónimos para que todos pudessem responder sem qualquer tipo de constrangimentos, e atirados para a fogueira logo após o momento em que as contas foram concluídas por um grupo de jurados.

Surpresas? Sem dúvida! Já flutuávamos nos anos-60 mas a moral puritana ainda fazia sentir as suas garras bem firmes, recorde-se. Todas as senhoras inquiridas, exceto uma, responderam NÃO à primeira pergunta. Isto é, distribuíam galheiras pelos maridos e companheiros com uma prodigalidade assinalável. Se pensa que os homens também não eram uns enganadores, engana-se.

Também, excetuando um, todos responderam NÃO à pergunta inicial o que deixa bem claro que todos os casais que aceitaram participar no questionário tratavam a infidelidade como algo de corriqueiro. Envoltos em mistério ficaram o homem e a mulher que (partindo do princípio que responderam com a sinceridade exigida) confessaram ser fiéis aos cônjuges. Quase era capaz de apostar que eram casados um com o outro, mas não sou grande fã de meter o meu dinheiro onde ele não é chamado. Sobretudo quando corro sérios riscos de o ver volatilizar-se.

O desvario Tal como explicou o psiquiatra que teve o diacho da ideia de fazer estes quizz no tal clube noturno que preferiu manter-se anónimo, mal revelou os resultados publicamente criou-se um desvario total entre os casais. Como está bem de ver, todos desconfiaram de todos e todos começaram a acusar todos. Afinal, a percentagem de poderem fazer parte daquela dupla de fiéis respeitadores das regras do património era mínima. Logo, entravam diretamente na lista de suspeitos.

Para ajudar à tranquibérnia, um abade de um mundana paróquia de Paris também tornou público – omitindo, obviamente, o nome das pessoas em questão – que a grande maioria das suas “ovelhas fêmeas” (a expressão é dele) que o procuravam para confessar os seus pecados lhe revelavam que o pecado que mais praticavam era o do adultério. Ora pombas! Seria Paris alguma espécie de Sodoma e Gomorra dos novos tempos? Graham Greene não resistiria ao mote, certamente, e dar-nos-ia uma outra versão de Empresta-nos o Seu Marido? e Outras Comédias da Vida Sexual.

Por seu lado, o psicólogo René Alver e a assistente social Yvonne Hay trataram de publicar A Fidelidade em 12 Lições. Não foi propriamente um sucesso. Nem poderia ter sido quando apresentava conclusões como esta: “Quando é perfeita, ou mesmo satisfatória, a mulher nunca é infiel e o homem raras vezes. As infidelidades deste não têm qualquer importância». Como? Importa-se de repetir? Ou melhor, importa-se de ficar calado!?

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