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Joana Mortágua 14/07/2022 09:17
Joana Mortágua
Cronista

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"Vendemos uma mentira às pessoas", a Uber no seu melhor

 O Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação voltou a fazer estrago no país de maravilhas em que vivem as grandes multinacionais e os seus poderosos líderes. No passado domingo, o The Guardian e o CIJI revelaram como uma gigante digital Uber “ganhou acesso a líderes internacionais, enganou investigadores e explorou a violência contra os seus motoristas numa batalha pelo domínio global”.

Os Uber Files incluem mais de 124 mil documentos e cerca de mil outros ficheiros cuja principal fonte é Mark MacGann, um dos principais lobistas da Uber entre 2014 e 2016, responsável pela comunicação em mais de 40 países da região da Europa, África e Médio Oriente. Segundo a investigação, “na altura um dos grandes desafios era tentar expandir o negócio da Uber em zonas onde o conceito da empresa entrava em conflito com leis locais”.

Os ficheiros demonstram que, durante quatro anos, o Presidente Executivo da Uber, Travis Kalanick, montou uma teia de influência que incluía presidentes, ministros, magnatas de meios de comunicação e oligarcas, incluindo Emmanuel Macron, Joe Biden, Olaf Scholz (Chanceler da Alemanha) e Neelie Kroes (ex-Comissária Europeia). Em relação à última, as comunicações indicam que terá violado o “período de nojo” imposto aos altos cargos da União Europeia para promover contactos em benefício da Uber a troco de 200 mil dólares por ano.

Mas a investigação não fica por aqui. Está em causa um lóbi de 90 milhões de dólares por ano que incluía um sistema para contornar a justiça nos países onde a operação da Uber ainda não era legal. O "killer switch" para bloquear o acesso das autoridades aos dados e impedir que fossem reunidas provas durante investigações judiciais. Segundo o The Guardian, este mecanismo foi utilizado 12 vezes durante rusgas levadas a cabo em França, Países Baixos, Bélgica, Índia, Hungria e Roménia.

Uma das revelações mais chocantes de MacGann foi sobre as estratégias da Uber para manipular a opinião pública contra os motoristas de táxi. Todos nos lembramos da entrada ilgal e desregulada das startups no mercado de transporte de passageiros em Portugal e noutros países da Europa, e da tensão que isso gerou entre os motoristas das aplicações e os taxistas. De acordo com este ex-responsável, a própria Uber “aconselhava os motoristas a fazerem frente à violência dos taxistas, mesmo apesar do risco de serem agredidos fisicamente, aconselhando a que se mantivesse “a narrativa da violência””.

A investigação, que é extensa, chega a Portugal. O The Washington Post revelou, e os meios de comunicação portugueses reproduziram que Rui Bento, à altura gestor da Uber em Portugal, “aparece citado num e-mail a colegas a dizer que a empresa estava “a ponderar” apresentar a informação dos ataques e dos ferimentos aos meios de comunicação locais e “criar uma ligação direta entre as declarações públicas de violência do presidente da ANTRAL (Florêncio Almeida) e estas ações, para degradar a sua imagem pública”.

“Estou enojado e envergonhado por ter participado na banalização de tal violência”, afirmou Mark MacGann, lembrando que também prometeu que, com a legalização da empresa, os motoristas da empresa teriam melhores condições de trabalho.

Como é evidente não foi isso que aconteceu, e em Portugal muito menos. Aliás, ao contrário do que aconteceu noutros países, o Governo português insiste em não considerar que os motoristas trabalham para as plataformas e aceita intermediários para escusar a gigante californiana das suas obrigações patronais.

Ruiu mais um castelo de cartas liberal. Afinal, a Uber não era a personificação do incrível mundo das startups, do empreendorismo e da modernidade capitalista, era apenas mais uma multinacional disposta a abusar do poder, fugir à lei e enganar meio mundo para enriquecer os seus accionistas. Mark macGann não pdoeria ter sido mais claro: “vendemos às pessoas uma mentira”.

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