29/06/2022
 
 
"Só percebemos o valor da água depois que a fonte seca"

"Só percebemos o valor da água depois que a fonte seca"

António Miguel Pina 20/05/2022 09:35

A falta de água enfraquece quase toda a atividade económica, principalmente, das zonas rurais, acelerando o processo de desertificação demográfica e de estagnação.

Apesar da consciência de que, sem água não se sobrevive, todos nós, consumidores domésticos, autarquias locais, empresários nas áreas da agricultura e da indústria, temos vindo, ao longo dos anos, a desvalorizar esta questão gravíssima: a falta, ou escassez, de água!

Os períodos de seca prolongada, as alterações climáticas e um aumento exponencial do consumo, têm provocado um enorme impacto nos recursos hídricos superficiais e subterrâneos! As disponibilidades de água não são, definitivamente, um facto adquirido, pelo que deverá ser uma preocupação dos políticos de hoje, olhando para o futuro, e para as gerações vindouras!

A falta de água enfraquece quase toda a atividade económica, principalmente, das zonas rurais, acelerando o processo de desertificação demográfica e de estagnação. Muito se fala na informação, sensibilização e educação, importantes é verdade, porém, urge atuar com firmeza para mitigar este grave problema.

É insustentável mantermos os elevados consumos de água, até porque assim, rapidamente deixará de haver! No Algarve, a agricultura volta, felizmente, a ter um papel importante na economia, porém, há que ter a lucidez de olhar para que tipo de cultivos e aferir os gastos de água versus produção para o consumo regional, nacional ou exportação. 
É que o negócio da agricultura para exportação deverá ser olhado de igual modo ao negócio do golfe (importação de turistas), este com alta rentabilidade económica, direta e indireta, e já em processo de adaptação, tratando as águas residuais, na rega dos campos.

Falamos de atividades económicas, rentabilidade empresarial, metros cúbicos em consumo de recursos hídricos, nem todos eles bem regulados, e criação de riqueza.

Este é um dos grandes problemas que se coloca: a gestão empresarial, a gestão e proteção dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos – captações ilícitas e/ou sem qualquer controle do caudal –, de modo que exista equidade e sustentabilidade. Num futuro próximo, toda a água (superficiais e subterrânea) deverá ser toda pública e gerida de forma justa e igualitária.

Noutros setores da economia, como por exemplo no das pescas, foram criadas cotas. Com grande oposição aquando da sua implementação, hoje, todos temos consciência que somente assim foi possível uma sustentabilidade e equilíbrio no setor.

No que respeita à gestão da água vamos ter que seguir um caminho idêntico, de modo que as cotas de consumo (m3 água x m2 de terreno) seja justo e igual pata todos.

Para além destas questões, há que lembrar a relação difícil que temos com os nossos vizinhos espanhóis e o desrespeito pelas regras impostas nas convenções internacionais, a insuficiência dos nossos reservatórios artificiais, a grande maioria deles de pequena dimensão (o Alqueva pode não ser futuro e não chega ao Algarve) e a inexistência de uma cultura de poupança de água e os maus hábitos adquiridos nas últimas décadas.

Deixo para último a questão da construção da central de dessalinização do Algarve. Este é, sem dúvida, um importante passo no sentido da gestão hídrica, todavia, é necessário mais, porque a dessalinização não é a solução para combater a escassez de água, mas sim, uma opção para encurtar o défice entre a oferta e procura. 

Presidente da Câmara Municipal de Olhão e presidente da AMAL

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