20/05/2022
 
 
Eduardo Baptista Correia. "Pitch at the Beach é o melhor evento de negócios"

Eduardo Baptista Correia. "Pitch at the Beach é o melhor evento de negócios"

Bruno Gonçalves Sónia Peres Pinto 03/05/2022 11:36

Oeiras conseguiu captar o evento: imagem internacional do país que é amigo das tecnologias e que está a apostar  em startups, aliada ao conceito do Oeiras Valley, ajudou na decisão.

Oeiras vai receber, entre 2 e 4 de julho, o Pitch at the Beach, considerado “o evento de investimentos mais importante e disruptivo da América”. Será a primeira edição na Europa e Portugal foi o local escolhido. Neste evento 30 startups vão ter oportunidade de apresentar os seus projetos a um grupo de business angels, venture capitalists, family offices e investidores privados. O encontro será organizado pelo Taguspark, Município de Oeiras, Altice Portugal, Huawei e os fundadores do Pitch at the Beach, que viram em Portugal uma oportunidade como ponto de atração e acesso à Europa e à América Latina. Eduardo Baptista Correia desvenda o que vai acontecer nestes dias e aproveita para apontar o dedo à falta de estratégia de Portugal para desenvolver o nosso ecossistema empresarial e torná-lo mais dinâmico. Quanto aos candidatos presentes no evento, afirma: “Não há nenhum pré-compromisso, nem nenhuma pré-garantia, o que há é a capacidade de apresentar a quem participa um conjunto vastíssimo de oportunidades”.

Estamos a cerca de dois meses do evento Pitch at the Beach... O que nos pode revelar?

É um evento que junta um conjunto variado de pessoas, provenientes de diversas partes do mundo, de diferentes idades e em diferentes fases da vida empresarial. Por um lado, traz empreendedores que são donos de startups na área do desenvolvimento de tecnologias ao serviço dos mercados, por outro lado, apresenta uma lista, por norma muito interessante, de oradores especializados em vários matérias e com histórias muito interessantes. Portanto vamos contar com gestores homens e mulheres – vai contar com uma grande participação de mulheres – com histórias e percursos muito interessantes para contarem e que vêm num estilo muito TEDx. Por outro lado, conta ainda um conjunto de investidores que procuram oportunidades interessantes para poderem captar negócios no que às startups diz respeito. Tudo isto desenvolve-se num ambiente muito descontraído, muito informal, durante três dias, daí ser denominado Pitch at the Beach, onde há uma regra muito engraçada que é a suposta obrigatoriedade de toda a gente no final do evento ter falado com toda a gente. É um evento exclusivo, não é um evento de milhares de pessoas. Cada dia serão apresentadas 10 startups, ou seja, há 10 pitchs por dia, intercalados por oradores, com intervalos de networking, com eventos – de manhã há um conjunto de eventos associados a atividades de lazer, como o surf, o ioga, as experiências gastronómicas – a parte mais empresarial será à tarde, que começa depois do almoço e vai até à hora do jantar. Tudo num ambiente de praia, na Marina de Oeiras. No conjunto dos três dias vamos contar com a apresentação de 30 pitchs – 10 em cada dia – e diariamente haverá um júri que irá eleger as três melhores do dia e, no último dia, as nove eleitas estarão numa final, onde serão escolhidas as três primeiras. Mas isso não significa que um conjunto de investidores presentes – business angels, venture capital – não estejam a fazer networking e investir em algumas das outras startups que não tenham sido premiadas.

Há sempre possibilidade de investimento?

Há umas que são premiadas no concurso – todos os dias das 10 serão premiadas três e ao final dos três dias serão nove – pelo júri. Mas o júri não é venture capital, nem investidor. Não significa que os investidores não estejam interessados nos projetos que não foram premiados pelo júri. É um evento muito engraçado, no final do dia junta pessoas de idades variadas. Vamos ter a neta de Nelson Mandela, vamos ter um dos co-fundadores do Starbucks, ou seja, vamos ter um conjunto de pessoas muito interessantes, pessoas ligadas às artes que vão falar dos NFT [tokens não-fungíveis, em português] nas artes, na música, nas novas tecnologias, nas novas moedas, nas novas formas de criar valor no planeta, num ambiente muito descontraído, muito informal, onde todos falam com todos. E onde todos de algum modo partilham estes três dias num ambiente muito engraçado, de festa, de boa disposição, mas de alta disciplina. No final, quando há speakers, todos estão sentados a ouvir. Já tive a oportunidade de participar em dois eventos no México e para mim é indiscutivelmente o melhor evento empresarial, de negócios, em que alguma vez participei no mundo inteiro. E já participei nos diferentes continentes, em dezenas de eventos.

É uma espécie de Web Summit mais pequeno?

Se quiser comparar com esse evento é um mini Web Summit, muito exclusivo, onde as pessoas estão todas juntas. Olho para o Web Summit como uma forma de Lisboa promover o turismo à volta dos negócios, em que as pessoas passam pelo Web Summit. No Pitch at the Beach estamos juntos o dia inteiro, em ambiente e em locais muito descontraídos. No México foi sempre organizado na praia, aqui será na marina. Mas em termos de resultado final de networking é incomparavelmente mais eficaz, em termos de proximidade entre as pessoas.

Estes 30 projetos que vão ser apresentados durante os três dias são resultado de uma escolha de mais de mil startups..

No caso dos projetos mexicanos há uma larga de centenas de empresas a concorrer e depois é feita uma pré-seleção.

Mas também haverá projetos portugueses?

Certamente teremos empresas portuguesas e outras provenientes de outras latitudes.

As edições anteriores foram em Cancún, Tulum e na Ilha Pasión, em Cozumel, México. É a primeira vez que se vai realizar na Europa?

É a primeira vez que sai das Américas e é feito na Europa.

Como é que Portugal conseguiu atrair este evento?

Primeiro com as pessoas certas a tomar conta do tema e segundo com esta magnifica localização. Diria que Portugal é o ‘The Best of the West’ em termos europeus. Somos o país mais ocidental da Europa, com melhor clima e com uma imagem internacional de país que é amigo das tecnologias, que está a apostar em startups, com uma marca associada que é Oeiras Valley. Uma marca muito conotada com o desenvolvimento, a inovação, a tecnologia e com um Taguspark que é no fundo um centro de conhecimento de empresas, de ciência, de tecnologia, de universidade, de investigação, uma incubadora que já produziu coisas muito interessantes no que diz respeito às startups. É a mistura destes condimentos que torna possível e atrativo fazer pela primeira vez na Europa este evento e em Oeiras.

E é um evento que se poderá repetir?

Depende do balanço. Estaremos preparados para analisar no final da primeira semana de julho a vontade que nós – como promotores locais – e os donos do Pitch at the Beach – os organizadores – a possibilidade de se vir a repetir. O que sei é que depois deste anúncio de Portugal há várias localizações na Europa, nomeadamente os nossos vizinhos espanhóis, os de sul de França e os italianos que já se estão a dirigir ao Pitch at the Beach no sentido também eles terem uma edição do evento. É um evento muito interessante e quem participa quer participar outra vez.

E em termos de impacto?

Diria que é um local muito natural, Oeiras. Oeiras representa em Portugal a maior concentração de ciência e tecnologia, seja na investigação, seja na concentração empresarial. Está muito próximo do mar e da praia. É um casamento natural.

O evento é considerado como uma oportunidade como ponto de atração e acesso à Europa e à América Latina...

O Pitch at the Beach tem raízes muito interessantes, assentes num conjunto de países e de empresas sul-americanas, nomeadamente na sua ligação ao ecossistema chileno, da Costa Rica e mexicano. Há um network muito forte associado ao evento, além de empresas que vêm dos Estados Unidos. Da última vez que estivemos no Pitch at the Beach em Cozumel havia empresas europeias. Evidentemente olham para Portugal como um país mais fácil, mais não seja pela história e pelo idioma, de entrar na Europa e com um cliente mais próximo, com um idioma mais próximo, com uma cultura latina mais próxima. E são estas as vantagens de um mundo global, cada vez mais pequeno e mais próximo, e ao fazermos o evento em Oeiras podemos e devemos aproveitar estas vantagens. E há que destacar a facilidade com que se faz network neste evento e é o que o torna altamente diferenciado de todos os outros eventos, porque estamos todos juntos, todos os dias, permitindo que as pessoas se conheçam e que contem com uma grande festa no final. Vai ser feita a bordo de uma embarcação que nos levará da marina de Oeiras à Rocha Conde de Óbidos, onde à chegada teremos fado. É também uma oportunidade para mostrar as vantagens e proximidade entre Oeiras, o rio, o mar e esta nova ligação aos fatores da portugalidade.

E dará sempre um empurrão para a internacionalização dos projetos portugueses?

O mundo hoje é um mundo muito pequeno e são as pessoas que fazem movimentar o mundo. Costumo dizer são as pessoas que fazem as circunstâncias e não são as circunstâncias que fazem as pessoas. O que este grupo de pessoas vier a desenvolver, fruto do conhecimento que ali vão travar, será o resultado. Como vamos ter pessoas provenientes da Europa, da América do Norte e do Sul e também da Ásia será muito fruto das compatibilidades pessoais e empresariais que ali vão ser criadas. Não há nenhum pré-compromisso, nem nenhuma pré-garantia, o que há é a capacidade de apresentar a quem participa um conjunto vastíssimo de oportunidades.

A par dos fundadores do Pitch at the Beach, o evento será organizado pelo Taguspark, Município de Oeiras, Altice Portugal, Huawei. Nomes de peso...

Os nossos parceiros são marcas muito fortes no desenvolvimento e no uso das tecnologias. Quem são os pilares deste evento em Portugal? Taguspark, Altice, Huawei e Oeiras Valley.

E quais serão os oradores?

A escolha ainda não está totalmente fechada, mas é extremamente cuidadosa. Os dias vão estar divididos por temáticas. Há um dia ligado às tecnologias, outro mais ao tema das artes e um outro à liderança. Temos duas coisas distintas. Uma é o público que compra o bilhete e pode assistir e outra são as starturps que vão apresentar os seus projetos. Em relação aos investidores, uns são convidados, outros entram no público.

E qual é a expectativa?

Temos a expectativa de termos cerca de 300 pessoas por dia. E é a lotação máxima. Não é um evento para milhares de pessoas porque é um evento onde toda a gente se vai conhecer e vai falar uns com os outros (ver página 19).

Acaba por ser uma espécie de balão de oxigénio para as startups?

No que diz respeito a Portugal, precisamos de muita coisa para tornarmos o nosso ecossistema empresarial mais dinâmico. Precisaríamos de políticas macroeconómicas mais sensatas, de mudar as regras das ciências do trabalho e da empresa, de mudar a fiscalidade e, acima de tudo, precisaríamos de ter um horizonte estratégico de 10/15/20/30 anos para o desenvolvimento do país, onde centros de investigação, ensino universitário, pré-universitário, profissional e investidores e empresários pudessem se entender e participar em conjunto, enquanto estas peças das ciências de trabalho e empresa, fiscalidade e estratégia não estiverem perfeitamente encaixadas e definidas – e não estão há demasiado tempo, daí o nosso atraso contínuo em termos de posição competitiva na Europa – será muito difícil aos portugueses, tanto aos trabalhadores como aos empresários, como aos investigadores e professores portugueses contribuírem de uma forma sensata e em equipa para o desenvolvimento do país. Padecemos deste problema e não se antevê, além da política semestral, nada de novo.

E a fábrica de unicórnios anunciada para Lisboa não poderá ajudar?

Tenho muito respeito por Carlos Moedas, mas tenho sempre muito cuidado com as palavras. O que significa unicórnio? São startups que atingem um valor de mil milhões de dólares. Temos em Portugal duas ou três, uma delas fabricada no Taguspark. É muito difícil, daí dizer que devemos ter algum cuidado. Mais importante que o objetivo é o trajeto. E nós em conjunto, enquanto nação em face de uma ambição de crescimento económico, porque estamos muito necessitados de crescimento económico e de sucesso empresarial a nível internacional, temos de definir as tais estratégias, caso contrário fica muito difícil aos empreendedores isoladamente, e por muitas boas intenções que tenham, criar os tais unicórnios. E para criar unicórnios necessitamos de ter condições de base muito bem estruturadas. Não basta um edifício, não basta a nossa boa vontade, é preciso muito mais. É preciso que um Governo tenha uma política nacional para este país tão pequenino com 10 milhões de pessoas e deveria ser obrigatório que o nosso pensamento, que a nossa visão estratégica sejam muito bem definidos para podermos então ter esse tipo de ambições. No Taguspark temos uma incubadora que tem uma história muito interessante e que já deu provas de fazer bem feito, temos uma taxa de insucesso de startups que entram quase nula. Mas temos muito cuidado na utilização da palavra unicórnio. Claro que esse é o objetivo máximo de uma startup, mas estamos mais preocupados com a montagem das condições do que propriamente falar em fábrica de unicórnios. Mas desejo toda a boa sorte ao presidente da Câmara de Lisboa nesse seu desígnio, porque precisamos de ambição em Portugal.

Acha que as startups são maltratadas? Ou porque não conseguem investimento ou porque o seu modelo de negócio não vinga...

Portugal é um ecossistema difícil porque não tem muita prática do venture capital, nem do business angels, apesar de haver um movimento que, de algum modo, tem vindo devagarinho a alterar essas condições. Seria mais fácil a proliferação de negócios de startups se tivéssemos definido uma estratégia para o país. Por exemplo, se o país perceber que tem na sua zona económica exclusiva marítima uma oportunidade de desenvolver um conjunto de áreas económicas de produtos que vão desde a pesquisa de moléculas à pesca em alto mar, ao aproveitamento das marés e das ondas, às correntes na transformação de energia e ao poder português na armada portuguesa, no contexto NATO ou de força futura militar conjunta europeia. Temos todo um conjunto de oportunidades para explorar. Se alinhássemos centros de investigação, ensino universitário e incubadoras seria muito mais fácil o objetivo de Carlos Moedas e seria muito mais fácil o objetivo do Taguspark, o parque mais cívico da Europa com as melhores startups da Europa. Padecemos de um mal comum ao nosso ecossistema português, que é esta indefinição. Ninguém percebe o que é que Portugal quer ser. Ninguém percebe como é que vamos resolver o problema dos baixos salários ou o da baixa produtividade.

E o problema da falta de produtividade já está há muito diagnosticado...

Mas estes Governos insistem em não rever as matérias macroeconómicas: lei do trabalho, modelo de trabalho, o modelo de funcionamento da administração pública, o modelo fiscal que está cada vez mais sufocante. A falta de horizontes estratégicos, o modelo de ensino. Portugal precisa mesmo de regenerar e não vale a pena estarmos sempre a queixar dos mesmos problemas à espera que a mesma fórmula os resolva. É mais do que evidente que a fórmula dos últimos 30 anos não serve.

Temos agora o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)...

O PRR serve se for distribuído por cada português de forma igual e todos os dias durante um ano, dá 4,5 euros por cada. O que é o PRR? Oeiras produz quase dois PRR por ano. O PRR é para inglês ver, como se diz em Portugal. Como as pessoas não fazem contas, 16 mil milhões aos olhos de um português parece uma coisa extraordinária. Como é que 16 mil milhões, que corresponde a 4,5 euros por português, durante um ano, pode resolver os problemas da economia portuguesa? É mentira. Uma vez mais, os nossos governantes gostam do ilusionismo económico. Não serve, mas as pessoas continuam a acreditar.

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