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Heróis portugueses

Heróis portugueses

Ricardo António Alves 06/12/2021 22:25

“A ideia é interessante, o desenho cumpre, a sequência prancha a prancha é conseguida, mas precisa arriscar no humor, evitar o lugar-comum, a piada inofensiva”.

O livro de hoje, Macho-Alfa, primeiro de quatro volumes sobre as desventuras de um super-herói português, de Filipe Duarte Pires e Osvaldo Medina, suscita-nos duas micro reflexões, a primeira das quais tem que ver com a ausência de personagens da BD portuguesa no nosso imaginário coletivo.

É verdade que elas não são muitas e, na sua maioria, inconsistentes; mas, quanto a nós, o que determina esse vazio é a inexistência de uma indústria editorial, a exemplo do que sucede nos Estados Unidos, no universo franco-belga, em Itália e no Brasil. Por cá, são os pequenos editores que arriscam e não se lhes pode exigir milagres.

Por outro lado, a imprensa, também ela em dificuldades, não ajuda; exemplos como o Bartoon (1993), de Luís Afonso, nunca foram muitos. Mas sempre somos dez milhões, que diabo, e os poucos mas bons que temos, fosse a BD portuguesa outra realidade que não um quase passatempo de nicho, e a história poderia ser diferente; acresce, para o bem e para o mal, que todos estes heróis de papel desaparecem quando os autores se retiram.

Alguns deles bem poderiam continuar por aí, no espaço público, fôssemos nós outra coisa: Quim e Manecas (Stuart Carvalhais, 1915); Zé Pacóvio e Grilinho (Cardoso Lopes, 1924); Tomahawk Tom (Vítor Péon e Roussado Pinto, 1950); O Guarda Ricardo (Sam, 1971), O Espião Acácio (Fernando Relvas, 1978), Jim del Mónaco (Louro & Simões, 1985) e Porto Bonvento (José Ruy, 1988), sem falar nos que ainda mexem: Pitanga (Arlindo Fagundes, 1985), O Corvo (Luís Louro, 2005), Super Pig (Mário Freitas e Carlos Pedro, 2006) Dog Mendonça (Filipe Melo e Juan Cavia, 2010), Homem Voador (2011, Álvaro e José Pinto Carneiro).

Macho-Alfa tem a particularidade de ser português e o único super-herói do (seu) universo. Desajeitado e mortífero, também despacha inocentes, sem querer. David Ferreira – nome de batismo – é pois um super-herói no desemprego que se aluga a um reality show como modo de vida, para desespero do pai, António Martins, comissário de polícia, e da namorada, Raquel Bastos, jornalista e blogger. A ideia é interessante, o desenho cumpre, a sequência prancha a prancha é conseguida, mas precisa arriscar no humor, evitar o lugar-comum, a piada inofensiva (dizer palavrões não é especialmente ousado).

Jim del Mónaco, de Luís Louro e ToZé Simões é hoje impublicável por qualquer editor que queira evitar problemas com os novos inquisidores da cultura do cancelamento. (Quem se lembra as copiosa Gina e do negro Tião?) Se há coisa que os fanáticos desconhecem é a ironia, e têm em demasia a acrimónia, tanto quanto lhe falece o sentido de humor. Fazer humor fino e não malicioso é difícil por estes dias.

E vem-nos sempre à memória um texto do grande José Régio (1901-1969), um dos espírito mais livres do século XX, o poeta de Cântico Negro (“não vou por aí”), que num ensaio escreveu algo como isto: não me contento em criticar o meu tempo, mas em ser contra o meu tempo – um tempo de totalitarismo, entenda-se. Segunda micro reflexão: o humor ou ousa ou é inofensivo, e como tal, irrelevante. Aguardemos os álbuns seguintes.

 

Macho-Alfa, vol. 1
Texto: Filipe Duarte Pina Desenho: Osvaldo Medina

 

 

 

 

 

BDteca

ABECEDÁRIO

R, de Recruta Zero / Beetle Bailey (Mort Walker, 1950). É uma espécie de Gaston Lagaffe dos comics. As histórias decorrem no aquartelamento de Camp Swampy, e todo o regimento é protagonista, do Sargento Tainha e seu cão Otto, ao Tenente Mironga, militar negro com simpatias pelo black power. Uma vasta galeria de uma das melhores séries humorísticas norte-americanas, em que pontifica um soldado raso, desleixado e mandrião, cujo lema é: “Não deixes para amanhã o que podes fazer depois de amanhã.”

 

LIVROS

1984 – O Romance Gráfico, por Xavier Coste. Adaptação em BD do célebre romance distópico de George Orwell (1903-1950), uma denúncia do totalitarismo que consagrou expressões como big brother ou novilíngua. (Relógio d’Água)

 

 

 

L’Inferno di Dante, ilustrações de Paolo Barbieri. “Deixai toda a esperança, vós que aqui entrais”, poderia estar à entrada dum campo de concentração nazi, nenhuma diferença, exceto a poesia, relativamente à primeira parte da Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), cujo sétimo centenário da morte esta edição assinala (Sergio Bonelli Editore).

 

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