26/01/2022
 
 
Will Eisner, um escolhido (2)

Will Eisner, um escolhido (2)

Ricardo António Alves 02/12/2021 17:34

Will Eisner, ao assumir-se como repórter gráfico, oferece uma obra que cala mais fundo em todos quantos pensam que a arte deve ter coisas a dizer.

O melhor realismo, desde Balzac e Dickens, (o primeiro, semideus de Eça de Queirós, o outro, nas palavras do escritor português, deus e semi), foi sempre o que considerou o homem como um amontoado visceral composto por coração, cabeça, estômago e espírito – o espírito que tudo aquilo misteriosamente produz, e que nalguns seres acontece suscitar o que um maravilhoso filósofo um pouco mais antigo qualificou como “necessidade metafísica” – algo que também assiste (ainda mais?…) aos ateus.

Will Eisner, ao assumir-se como repórter gráfico que documenta a angústia da existência e da subsistência, oferece uma obra que cala mais fundo em todos quantos pensam que a arte deve ter coisas a dizer para além de uma auto-referenciação excessiva, narcísica ou comiserada. “Gosto do realismo ou da realidade.” – escreveu Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999), romancista e crítico de convicções fortes, por vezes erradas, e que não era para brincadeiras – “Sabe-me a maçã. Como quatro por dia.” Falar do outro é sempre uma forma de empatia; o que não interessa se despreza, ignora-se. Nesse recanto da Grande Maçã que foi e é o Bronx, Eisner conduz-nos pelas aspirações dos seus bonecos tão reais, sempre com empatia.

Três narrativas seguem-se a Um contrato com Deus, todas esplêndidas. Em O cantor de rua, Eisner mostra como a vida prega partidas a quem fica a vê-la passar. Durante a Grande Depressão, havia homens a cantar árias nos becos dos prédios, esperando que lhes atirassem moedas. Figura perturbadora da infância que sensibilizava o coração romântico das mulheres, enquanto os maridos desconfiavam tratar-se de um qualquer batedor dum bando de larápios, Eddie é um desgraçado marcado pelo álcool e sem emprego, sequer para marido e pai.

Um dia, o acaso cruza-o com uma “diva” decadente e retirada, que crê poder regressar à ribalta apadrinhando aquela bela voz. Mas, para Eddie, mesmo com o acaso a ajudar, os bolsos estão sempre rotos. “O zelador”, figura que representava o senhorio perante os locatários, por isso normalmente malquista, é uma história pungente de miséria moral, das coisas mais sórdidas que já nos foi dado ler, dum zelador alemão num prédio habitado por judeus. E é claro que a sordidez não está apenas num dos lados.

Finalmente Cookalein, uma narrativa autobiográfica ternurenta e melancólica, deliciosa comédia de enganos, fala-nos das férias dos pobres, quando este iam para o campo passar uma semanas em casas particulares – como as dos Waltons (quem se lembra?…) –, cujos quartos eram arrendados por família e a cozinha era de uso comum, onde se faziam conhecimentos, tentava pescar-se noivos ricos e uns quantos adolescentes de sorte viviam a iniciação sexual.
Will Eisner retrata-se com os traços do Spirit – e a idade de ouro dos comics revive nestas páginas. 

 

 

    Um Contrato com Deus

    Texto: Will Eisner Desenho: Will Eisner
    Editora Levoir, Lisboa, 2015

 

 

 

BDteca

    ABECEDÁRIO
    Q, de Quim e Felipe / Quick et Flupke (Hergé, 1930). Dois miúdos de Bruxelas, mais concentrados      nas brincadeiras de rua e nas maquinetas de diversão que engendram que nos estudos, o que            lhes traz por vezes dissabores vindos do mundo dos adultos – pais, professores, polícia de giro –,      sempre postos em situações cómicas, próximas das que Hergé ensaiava nas histórias do repórter,      esse Tintin que Quim e Felipe aguardam junto da multidão, no apoteótico regresso do Congo.


LIVROS 

   Edibar, vols. 3 e 4, de Lucio Oliveira. Edibar da Silva, o nosso javardo preferido dos quadrinhos.         Já estávamos com saudades; dele, e da mulher, Edimunda, da sogra D. Ana Conda, o amigo               dilecto, Zé Manguaça, o cão “Gole”, Edipai, Edimãe e todas as outras inenarráveis personagens         de Vila Xurupita. (Edições Polvo).

 

 

 

  Horácio Completo, vol. 1 – 1963 a 1969, de Maurício de Sousa. O primeiro de quatro volumes            com todas as histórias publicadas em jornais de Horácio, personagem meditabunda, filhote de            tiranossauro-rex, com a particularidade de ser vegetariano. Uma das melhores criações de                  Maurício. (Pipoca & Nanquim). 

 

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