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António Osório. A árvore dos afectos

António Osório. A árvore dos afectos

José Manuel de Vasconcelos 23/11/2021 17:12

Lembrando o poeta desaparecido no passado dia 18 deste mês, publicamos um ensaio sobre a sua poesia do amigo e colega de ofício não apenas no que concerne às palavras como ao exercício da advocacia José Manuel Vasconcelos.

Em 1972, ano da publicação de Raiz Afectuosa, primeiro livro de António Osório, o panorama da poesia portuguesa era bastante diversificado, indo desde algumas tardias manifestações de neo-realismo, à reanimação de um surrealismo, acabado já como movimento, passando pelas diversas presenças da poesia concreta e visual e pela maturação de uma expressão própria e cada vez mais autónoma relativamente à origem comum, dos poetas do que fora a “Poesia 61” e ainda, pela sua independência e singularidade, de poetas já então consagrados, como Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, António Ramos Rosa, João Rui de Sousa, Ruy Belo e Jorge de Sena. 1972 é o ano da publicação das Novas Cartas Portuguesas e da triste e significativa celeuma que o livro levantou. É ainda o da publicação em Lourenço Marques de um importantíssimo livro, hoje infelizmente bastante esquecido, Quybyrycas, de Frey Ioannes Garabatus (aliás João Pedro Grabato Dias, o, também pintor, António Quadros) e, ainda, também em Moçambique, a ano em que a PIDE proíbe a revista Caliban, revista moçambicana, de que saíram 4 números em 1971, e na qual colaboraram alguns dos mais importantes poetas de Moçambique e da então chamada metrópole.  

Raiz Afectuosa aparece discretamente, em edição de autor, num volume de pequeno formato, capa cinzento claro, apenas com o título a verde e o nome do autor a negro. Grafismo sóbrio, de excelente gosto, que, como hoje se pode comprovar, resistiu ao tempo. O livro é dedicado ao pai do autor e apresenta como epígrafe um verso do poeta italiano Salvatore Quasimodo: «forse il cuore ci resta, forse il cuore...» («talvez nos reste o coração, talvez o coração...» Título e epígrafe emblemáticos. De facto, a temática dos afectos atravessa toda a obra de António Osório, desde este livro inicial, até ao último publicado, A Felicidade da Luz.

Por outro lado, o poema inicial, que dá o título ao livro, confere-lhe o que viria a ser o tom dominante de toda uma obra poética, não obstante a sua invulgar riqueza e variedade. O poema, breve, lapidar, certeiro, vai como uma seta atravessar as águas do coração, que serão sempre as águas do poeta, denotando ainda a concisão e o rigor aforístico, de recorte quase oriental, que formal e estruturalmente, caracterizarão a expressão poética de António Osório:

Com os anos
a pouco e pouco
a raiz afectuosa
penetrou
no fundo da terra
até chegar
ao mais pequeno
e mais antigo
veio de lágrimas. 

Apesar de ser tardia a publicação do seu primeiro livro (tinha o poeta então 39 anos) António Osório há muito se vinha dedicando a actividades literárias, quer escrevendo poemas que ficaram em estágio de apuramento, quer co-dirigindo a revista Anteu, de que saíram apenas dois números, e na qual, para além de alguns poemas, publicou o ensaio “Natureza e Missão da Poesia”, com o qual se demarcava de movimentos literários organizados e de objectivos programáticos, como o neo-realismo, o psicologismo de fonte presencista e o surrealismo, que considerava sempre imperfeitos e redutores face ao mistério da “condição humana”, e defendia a “exclusão de toda a exclusão”. Este texto, com motivações nas filosofias da existência (Osório, então com 21 anos, era aluno de Direito, e grande leitor de Sartre e de Camus) preconizava a “consciência da própria condição, da individual efemeridade e da evanescência de todas as coisas humanas” e concluía apelando à “defesa de uma radical solidariedade, de uma grande obra de colaboração e de mútuo esclarecimento”, para que se abrissem “as portas a todos os jovens que, em qualquer ramo da cultura, se proponham ver, com independência, algo de novo”. Independência viria a ser, de facto, o traço essencial na personalidade poética (e cívica) de António Osório, patente logo no seu livro de estreia, o que não é vulgar acontecer.

Os poemas contidos neste livro, apareciam com efeito naquele já longínquo ano de 1972, como algo de profundamente diferente no panorama da poesia portuguesa. Desde logo as referências (o que se torna ainda mais claro no livro de poemas seguinte A Ignorância da Morte, de 1978) eram essencialmente as literaturas clássicas e italiana. E, embora a epígrafe, de um autor italiano, não seja de modo algum suficiente para fundamentar o que acabo de dizer, não deixa de ser significativa, não tanto por ser de Quasimodo, (que era um poeta de nome conhecido entre nós, facto a que não terá sido alheia a atribuição do prémio Nobel, em 1959 e que podia ter sido citado em outros contextos, por outros autores),  mas pelo que tem de vestibular, dando ao coração o papel de possível porta de salvação para um mundo aniquilado e desértico em que o homem se vê despojado de toda a esperança. É assim o papel conferido à afectividade no plano temático, e sobretudo a sobriedade desta linguagem poética, eivada mesmo de uma certa secura, mas em que se diz por vezes «o inominável de forma brutal», trabalhada por imperativos de rigor e de justa medida, características que, em conjunto, não eram propriamente vulgares na poesia portuguesa daquela época, dividida entre a proximidade dos autores franceses, particularmente dos surrealistas e do que se lhes seguiu, e a forte expressividade neo-barroca que caracterizou alguma poesia espanhola e hispano-americana, ou atreita a jogos construtivos e a cirurgias vocabulares cuja principal preocupação era a estrutura e o facto de encararem o trabalho formal de modo predominante ou absoluto Pelo contrário, para António Osório, não há poesia fora do humano. Escrever é procurar recuperar o que de mais intrínseco pode haver no homem, é tingir a escrita de emoção, é transcorrer na (e pela) afectividade. 

São, como já disse, os autores e lugares clássicos (gregos, latinos e portugueses) e a cultura italiana que, principalmente espreitam a todo o momento nos poemas deste primeiro livro, e ainda mais nos que se lhe hão de suceder. É Homero e as personagens da Ilíada e da Odisseia (Heitor, o herói vencido, Aquiles, Ulisses) a mesma estirpe espiritual, a reflexão sobre a dignidade, a perseverança, a traição e a vingança, vistas a uma luz pessoal. Os motivos das epopeias homéricas perpassam pela obra de António Osório como retornos percutivos, como uma pontuação ética inevitável; é Virgílio e as principais figuras da Eneida, é Dante, sempre invocado, presença fortemente tutelar, é Camões, sobretudo o lírico, o amoroso, e são, finalmente os grandes poetas italianos do século XX, particularmente, Ungaretti, Quasimodo, Montale e Saba. E espreitam e surgem e enredam-se na voz que vai tecendo estes poemas com a persistência e a paciência dos calceteiros, evocados num dos poemas de A Ignorância da Morte. Também esses poetas transalpinos, tantas vezes convidados de António Osório para a mesa da sua poesia, pertencem à categoria dos seus especiais afectos. São assim as referências, sobretudo as italianas, tão pouco vulgares na poesia portuguesa, e a tonalidade pessoal, em grande parte delas subsidiária, que dão a A Raiz Afectuosa, e à maioria dos livros subsequentes, um lugar ímpar na história da poesia portuguesa mais recente. António Osório, por diversas vezes, em entrevistas que concedeu à imprensa e à televisão, e também em sessões públicas em que participou, esclareceu as causas destas influências clássicas e italiana. E mais: do fascínio que o liga a Itália, particularmente à Toscana. Filho de pai português e de mãe oriunda dessa região italiana, desde cedo aprendeu, pela via materna, o melhor que essa cultura deu ao mundo (a mãe lia-lhe Dante e os clássicos greco-latinos, em italiano), o pai, para contrabalançar, dava-lhe a conhecer os clássicos portugueses (Camões, Sá de Miranda, Fernão Mendes Pinto). Educado num equilibrado bilinguismo, o poeta, desde cedo aprendeu a respirar na língua de Petrarca, mas nunca deixando de conviver com o que de melhor a literatura portuguesa produziu. António Osório, que nasceu em Setúbal, aí passou a infância e parte da adolescência, nesse ambiente luminoso e aberto, dividido entre a cidade, o Sado e a presença vigilante da Arrábida. Cidade entre o rural e o marítimo, a Setúbal daqueles anos quarenta e começos de cinquenta, que são os da infância e da adolescência de António Osório, foi captada com mão de mestre pelo pai do poeta, excelente fotógrafo amador que nos deu panorâmicas e pormenores da cidade e seus arredores (os moinhos, os barcos, o porto, a pesca e o sal), hoje desaparecidos, e que para além de serem belíssimas fotografias, são documentos registando um passado que, de outra forma, se perderia.

A cidade e a infância interpenetram-se. Na obra de António Osório várias são as marcas dessa primeira descoberta, desse outro afecto. A presença da cidade e da sua região está de forma, por vezes de discreta, por vezes bem evidente, disseminada pela obra do poeta. 

Esta importância dos afectos na poesia de António Osório, presente desde o seu primeiro livro, assume particular relevância no tratamento dado pelo poeta à família, aspecto que me parece ímpar na poesia portuguesa contemporânea. Desde logo, os pais. O pai, a quem é dedicado o primeiro livro, e a mãe, a quem é dedicada a segunda parte de A Ignorância da Morte, intitulada “Matéria Volátil”, e que constitui por assim dizer um livro autónomo. A dedicatória, simples, diz apenas, em italiano: «Per te, Mamma», mas a ausência da mãe, leva o poeta a escrever alguns dos seus mais belos poemas, numa secção do livro chamada “Ponte Velha”, em homenagem à cidade de sua mãe, berço da língua e da cultura que o poeta tanto ama. A morte da mãe é evocada num poema em que o luto é sublimado em pungentes interrogações que aproximam a questão da morte, enquanto questão essencial do homem, das perguntas ingénuas e indefesas próprias do mundo infantil e das suas visões, transformando este poema, na sua perfeição inultrapassável, numa espécie de luminoso e belo cristal de dor, em que o alfa e o ómega da existência humana se encontram na imagem do ventre gerador e no ventre da terra que a anula: «Mãe que levei à terra/como me trouxeste no ventre, /que farei destas tuas artérias?/Que medula, placenta,/que lágrimas unem aos teus/estes ossos? Em que difere/a minha da tua carne?// Mãe que levei à terra/como me acompanhaste à escola,/que herdei de ti/além de móveis, pó, detritos/da tua e outras casas extintas?/Porque guardavas/o sopro de teus avós?//Mãe que levei à terra/como me trouxeste no ventre,/vejo os teus retratos,/seguro nos teus dezanove anos,/eu não existia, meu Pai já te amava./Que fizeste do teu sangue,/como foi possível, onde estás?» O poema, todo construído por interrogações, parece assim dar da morte tudo aquilo que cognoscitivamente nos é permitido acerca dela. O resto, é o sentido forte da traditio, “o sopro dos (...) avós”, os laços, biológicos e afectivos que unem as pessoas entre si. Os pais aliás estão sempre juntos na visão de António Osório («E eu sou fiel da vossa balança.», diz de si próprio, concluindo o poema que começa com a pergunta: «De qual gostava mais, de ti,/do Pai?(...)») Também esse aspecto o distingue de outros poetas que trataram o tema, quase sempre fixados em apenas um dos progenitores. A epígrafe desta secção, uma frase de Conrad Aiken, cedo nos dá conta dessa união indissolúvel: «Father and mother, who gave Life, love, and now the grave, What is that I can be?» E note-se que, no poema citado, inteiramente dedicado à morte da mãe, o pai não deixa de aparecer («eu não existia, meu Pai já te amava»), formando a unidade que permite o aparecimento do filho. Toda a “Matéria Volátil” é dedicada à mãe, revisitando o poeta as cartas de amor de seus pais, lugares florentinos e outros, a língua, leituras, recordações, as pequenas grandes coisas da infância, alguns familiares, os próprios defeitos: « Amo os teus defeitos, e tantos/eram, as tuas faltas para comigo/e as minhas; essa ênfase/ de rechaçar por timidez; solidão/de fazer trepadeiras, agasalhos/para velhos, depois para netos;/indulgência de plantar e ver/o crescimento da oliveira do paraíso,/carregada de flores persistentemente/ caducas; essa autoridade, irremediável/desafio; e a astúcia/de termos ambos quase a mesma cara. “Matéria Volátil” divide-se em duas secções, “Ponte Velha” e “Os Cavalos de Tróia”, alusões a lugares e a leituras (foi a Mãe, como disse, que deu a conhecer ao poeta as vicissitudes da epopeia homérica: «A meu lado, doente, lias/a guerra de Tróia.») que tanto o marcaram, como várias vezes confessou, e que aparecem recorrentemente ao longo da sua obra, num regresso persistente à mítica Grécia formadora de visões e sonhos, como sucede de forma predominante, em Libertação da Peste, de 2002. Mas não poderão entender-se também «Os cavalos de Tróia» como uma alusão à presença de sua Mãe, uma italiana em terra estranha, presença sempre irradiando um suave desenraizamento aquiescente, dividida entre dois mundos, cativa doce das suas recordações, e instilando no filho, pouco a pouco, as sementes de um sonho longínquo?

Quem cresceu junto de pais felizes, raramente perde a luz dessa felicidade mesmo em momentos difíceis da vida. Banhados por uma dominada nostalgia, estes poemas são dos mais belos que já se escreveram na nossa língua sobre as marcas indestrutíveis que os pais deixam nas nossas vidas. Quando nos poemas de António Osório o discurso tem como destinatário um dos progenitores, fala-se a este sempre também no outro, no que está ausente, constituindo-se assim, através desta espécie de “profundidade de campo” uma figuração triádica exemplar enquanto símbolo da família e da sua unidade. Num dos poemas mais invulgares de “Matéria Volátil”, de uma beleza ímpar, o poeta lembra mesmo um momento de amor entre seus pais, do qual se apercebeu e se recorda, e ao qual de certo modo se associa espiritualmente, em recordação da aprendizagem do desejo, da vontade de “ser grande”: «No quarto ao lado/um dia ouvi, amavas./O Pai abriu a luz,/breve dormiam./Outras coisas entendi,/os cães, as suas procissões, o beijo com fúria recebido/na escola, ao canto da escada./E quis ser grande.». Como se vê, o assunto é tratado com delicada sobriedade, com poucas palavras, as necessárias, com a pureza de quem cedo aprendeu a entender os segredos do mundo. E associa-se sempre, com júbilo, ao amor de seus pais, sua razão, razão da vida, que tanto ama, nas suas diversas formas: «Aqui em Siena fui gerado/por dois seres que um no outro se perfumavam,/um no outro bebiam,/é minha a sua volúpia,/sou água e vinho,/isso que buscavam/como crianças dando os primeiros passos,/pertencem-me as amantes, tímidas/carícias que fecundaram o meu rosto./E guardo com pudor tudo o que ignoravam.» Só uma enorme grandeza de alma e uma delicada sageza permitem que se escreva tão sublimemente. A árvore dos afectos que é a poesia de António Osório, atinge um dos seus cimos naquele que é, na minha opinião, um dos mais belos poemas em língua portuguesa, e impecavelmente digno de figurar em qualquer antologia da melhor poesia universal. Não quero deixar de o citar na totalidade, pelo seu carácter exemplar, pelo sublime que transporta, por revelar esta simples verdade: a poesia precisa de alma para ser grande, de dor, de lágrimas às vezes, de verdadeiro riso ou de funda felicidade. Sem isso, poderá ser interessante, mas morre como nós. Neste poema, mãe e cidade confundem-se, Florença agiganta-se e ocupa todo o rosto imenso, infinito, da mãe amada e procurada e o filho apequena-se, como sempre acontece quando nos poemas de António Osório, o filho se dirige aos pais. Aqui porém há uma força interior tão funda que gera até uma metamorfose (tudo vale para realizar um desejo) e perante nós Florença abre-se, vista do céu, chega até nós trazida pela magia do voo e da levitação (como num quadro de Chagall) até essa poderosa imagem da mão, que surgiria da persiana que se abre, e tudo redime.

Poema de concepção “cinematográfica”, pela força e exuberância das imagens, passando do “plano geral” ao “plano próximo” e ao “grande plano”, transpondo todas as barreiras numa extraordinária panorâmica e num travelling onírico, até chegar ao grande plano simples e misterioso da mão reconfortante e saciadora:

Como um pombo do Piazzale Michelangelo
voo, rua a rua, no céu de Florença.
Procuro chegar ao telhado,
à destruída casa de teus pais.
Ficou no ar um pouco, que sorvo.
de amor e angústia. Bebo no Arno
a tua última lágrima, igual
à matéria do rio. Chego ao ponto
mais alto do Campanile de Giotto e ouço
os sinos que percorrem Fiesole, as colinas
e casas colónicas. Leonardo
comprava no Mercato di San Lorenzo
aves para lhes dar, de novo, asas.
Agora sou eu quem voa amando por ti
e por mim a sua triste e orgulhosa
alma, pouso no Battistero
porque sei que Dante foi ali baptizado
e conspurco em Orsanmichele a cabeça de San Giorgio
tocando no bronze que teve a mão de Donatello.
Ó coisas ocres, de açafrão, enegrecidas,
sobre as quais voo buscando pedaços de pão
que transeuntes dadivosos oferecem.
E à espera que uma persiana se abra
e encontre, Mãe, um rosto que lembre o teu
e onde nessa mão eu chegue e coma.

Estes poemas, que falam de algo fortemente harmonioso, que lamentam em tom elegíaco, contidamente, a passagem de um tempo feliz, irrecuperável, e que assumem por vezes a natureza de trenódias, que muito devem a poéticas clássicas, permitem estabelecer um novo paralelo com alguns autores italianos, pelos quais António Osório tem um confessado apreço, particularmente Saba e Montale. De facto, também no autor do Canzoniere, encontramos vários poemas à mãe, que, pelo seu intimismo e pelo tom coloquial, podem lembrar estes poemas do poeta português, mas que se distanciam dele, sobretudo pela evocação de uma infância difícil, carenciada e torturada, que não tem qualquer paralelo com a do nosso autor, a não ser naquilo que, apesar das diferenças, todas as infâncias têm em comum. Podem lembrar os poemas que tenho vindo a referir, na procura da imagem materna, instância apaziguadora e matriz do amor, embora no poeta italiano, presente e passado se apresentem inquinados por uma impossibilidade do amor associada a uma condição originária de desenraizamento e estranheza que torna a vida insuportável:, 

Mãe, sinto hoje um tédio, uma melancolia
amarga, que retém
todas as vidas, e deixa os sonhos sem
força àquele que o seu mundo no coração prendeu,
Mãe, poderá regressar agora ao teu
amor, quem o amor já não sentia?
Sozinho, e fora da humana
convivência, o teu filho que reclama
a distância, voltará para ti? 

Já com a poesia de Eugenio Montale a sensibilidade de António Osório parece ter maiores afinidades. De Montale, há o pendor coloquial, o gosto de um vocabulário mais recôndito, a utilização frequente do encadeamento, a atenção ao real como ponto de partida do poema, a dignificação da existência, o percurso dos afectos, um certo lirismo crítico, O poeta genovês teve uma infância bem mais tranquila do que o poeta triestino. Melhores condições económicas, outro contexto familiar, com a presença forte de um pai, o que não aconteceu com Saba, para o qual a ausência paterna constituiu um dos principais problemas. O autor de Ossi di seppia dedica à mãe e ao pai, para além de referências mais ou menos explícitas em vários outros poemas, separadamente dois dos seus mais belos e densos poemas, cheios daqueles contornos pouco definidos e até um pouco enigmáticos que caracterizam a sua poesia: “A mia madre” (“A minha mãe”) e o longo poema “Voce giunta con le folaghe”(“Voz que vem com os galeirões”), ambos do livro La Bufera e altro: «(...) eis-te fora das trevas/que te seguravam, pai, voltado para os clarões,/sem xale e sem boné, ao surdo frémito/que anunciava na madrugada/barcaças de mineiros cheias de carga/meio submersas, negras sobre as altas ondas.//A sombra que me acompanha/vigilante à tua campa,/e pousa numa lápide e com um movimento/altivo do rosto, que afasta/do olhar ardente e das duras sobrancelhas,/um caracol infantil,/a sombra não tem pais peso do que a tua/há tanto sepultada, os raios primeiros/do dia penetram nela, borboletas/vivazes atravessam-na, toca-a de leve/a sensitiva e não se retrai.»

Aqui, sem dúvida, aproximam-se os registos: a veneração contida, a atmosfera elegíaca, o propósito de homenagem, numa palavra: a atitude. (também a propósito dos “tu”, que aparecem na poesia osoriana, se poderá estabelecer um paralelo com Eugenio Montale, mas sem exagerarmos, pois António Osório só relativamente tarde na sua vida descobriu o grande poeta italiano, pelo que, a razão de certas coincidências terão de procurar-se mais na formação da base linguística e cultural de ambos os poetas, do que em influências directas. E quanto aos outros grandes poetas italianos, tão mencionados por António Osório? O que há neles de referencial para o nosso poeta? De Quasimodo, terá de pôr-se em destaque a similitude formal, a maneira de construir o poema, com recurso a palavras justapostas como tijolos numa parede, muitas vezes com o predicado ausente, apenas pressentido; uma pontuação clássica, a obsessão pela anástrofe, discurso quase falado, balbuciado. Vejamos um exemplo, um excerto de Quasimodo:

Outra vida me tomou: solitária,
entre desconhecidos: pouco pão recebido.
Em mim perdida toda a forma,
beleza, amor, de quem tirou engano
o jovem e depois, a tristeza.

E  de António Osório:

(...) Palavras prostradas:
absoluto, garganta
do rio, vidente do insolúvel.

E outras cegas palavras:
a intimidade
(orgulhosa) do suplicante.
O resgate ─ ilacerável, imenso.

Por outro lado, de Ungaretti ‒ de todas, a presença talvez menos reconhecida por António Osório ‒, vem esse segredo de fazer grande poesia com poucas palavras, a magreza dos meios, o despojamento vocabular, sensitivo, o esboço aforístico, esse talento difícil de nos fazer ver a outra luz as coisas conhecidas.
Em qualquer caso, creio que não poderemos falar de influências directas, mas de um modo de utilizar as palavras e de construir os versos que é de facto preponderante na poesia italiana, desde a restauração classicizante operada na década de vinte, por poetas como Vincenzo Cardarelli e a revista La Ronda, até aos chamados herméticos, a poetas como Mario Luzi e Giorgio Caproni, para além dos já referidos anteriormente.


O lugar do amor (1981) é, neste campo dos afectos de que tenho vindo a tratar, um marco importantíssimo. O livro é dedicado à mulher e aos filhos do poeta e, traz uma epígrafe de Dante (“E chiaro nella valle il fiume appare”) que, pela imagem de luminosa mobilidade que transporta, parece convidar-nos a uma fértil viagem: a viagem do amor. “A teia dupla”, primeira parte do livro é, de facto, constituída por poemas de amor, num número e intensidade consideráveis; poemas de pequena extensão, quase epigramáticos, de onde a mulher amada vai vagarosamente ganhando contornos, embora nunca muito definidos, de onde ressalta a importância do amor como “lugar”, como campo magnético que leva as pessoas a saírem de si mesmas, a aproximarem-se, e as faz inscrever nos grandes ciclos da vida, numa comunhão com tudo o que existiu e existirá no futuro que pode dulcificar a vida humana: « Sei que não acaba/o teu prazer/nem o meu.// Alguém/ama connosco/ e nos leva/ao sitio exacto/das estações.//Nem o sono/depois nos pertence, quinhão de outros/herdado após amarem.» O amor, para António Osório, não se esgota na relação a dois, antes essa relação é simultaneamente um lugar de chegada e um lugar de partida, uma ponte para a recuperação do passado, e para a configuração do futuro, uma perpetuação de ecos que reciprocamente se encontram e se submetem às grandes forças e leis do mundo. Perpassa estes poemas uma enorme serenidade; não encontramos neles nenhuma “canção desesperada”. O seu erotismo é contido, sóbrio, e desenha-se sempre na moldura de uma natureza mãe de inquestionáveis ciclos e leis, com a necessidade como lição de sapiência: « As horas que se juntam,/exalação da carne/sobre a carne/e o latir, longe, dos cães,/rumor de cigarra,/arquejante chegada/de sangue, chuva e feno// e o rolo do mar/nos corpos quando se amam.»

A natureza está presente em toda a obra de António Osório, que a interroga e com ela dialoga com a humildade de sentidos de um franciscano e o entendimento de um panteísta que, desvalorizando a proclamada supremacia do homem sobre tudo o mais, entendeu que tal supremacia é fictícia, antes se devendo procurar o sentido da felicidade numa relação de tudo com tudo, de igual para igual, e ainda, que a nossa sabedoria consiste na procura daquilo que nos segura à terra e aos outros, dessa âncoras da existência, os afectos, que podem afinal estabelecer-se com tudo, animado ou inanimado, próximo ou distante, real ou imaginário: « Não ser um místico do nada,/mas planta nascente/num prado/com milhões de raízes”. A natureza, para o autor de O lugar do Amor está longe da tempestuosa dramatização projectiva dos românticos ou da fúria onírica e, por vezes, super-mecanicista dos surrealistas; também não radica no ruralismo de um certo decadentismo finissecular que, por inesperados caminhos alimentaria em parte certas cristalizações neo-realistas, antes se mostra como fruto de uma empatia integradora, de uma prática reflexiva e de uma objectividade poética de quem, homem de lavoura, medita conhecendo de perto os segredos das coisas do campo, os ofícios, e as astúcias, de quem convive como observador privilegiado com as suas personagens (humanas, animais e vegetais), e lhes confere um papel fundamental, enquanto instâncias referenciais que conduzem a deriva do poema, por vezes com deliciosos sobressaltos eróticos, como neste belo verso: “escrevendo maçãs como ancas”.
Desde cedo, uma viva atenção ao mundo vegetal e, sobretudo, animal. Os animais são presença permanente nesta obra, de tal forma que foi possível destacar e recolher num volume autónomo Bestiário, publicado em 1997, com pinturas de Graça Morais, os poemas em que directa ou indirectamente são tema. A visão osoriana dos animais é de quem está (homem observador e animais observados) num mesmo plano. Nem a vulgar projecção das características humanas nos animais, eco simplista dos fabulários do passado e tópico recorrentes das literaturas orais e tradicionais, nem o tratamento condescendente, fruto de uma vulgar crença na supremacia do homem, antes um amplo sentido de comunhão, em que todas as criaturas fazem parte de um todo natural que, mais do que cenário, é um mundo de linguagens que se aprendem. Bestiário é uma obra fundamental na literatura portuguesa sobre os animais, que, na importância, se pode colocar a par, e até, por várias razões sobrelevar, obras paradigmáticas nesse campo como Os Bichos de Miguel Torga, ou  Romance da Raposa de Aquilino Ribeiro, ressalvando sempre o facto de se tratar de obras elaboradas a partir de registos muito diferentes, nas quais a visão dos animais que lhes subjaz, muito pouco tem a ver com a que resulta dos poemas e prosas poéticas que compõem o livro de António Osório.  Outra obra notável no domínio da relação do homem com o animal é Ofício dos Touros, que se pode inserir na tradição ibérica da literatura sobre motivos tauromáquicos, de que é exemplo maior e universal o “Llanto por Ignacio Sanchez Mejas” de Lorca, e que conta outros excelentes exemplos em poetas como Rafael Alberti, prosadores como Camilo José Cela e, sobretudo, pela importância que assumem na sua obra, no poeta e ensaísta José Bergamín. Na literatura portuguesa, como livro inteiramente dedicado ao assunto, e sobretudo pela forma como o faz, é exemplo peregrino, pois, embora vários outros autores tenham boas páginas sobre a tauromaquia, o tratamento é breve, esporádico ou circunstancial, e às vezes mesmo decorativo. Composto em parte por pequenos aforismos e finalizando com textos em prosa poética, misto de crónica e de prosa memorialista com apontamentos narrativos, a que o poeta nos vem habituando desde a primeira parte de Décima Aurora, e que atingiu o seu exemplo mais acabado com Crónica da Fortuna (1977), nos quais a “corrida” e os vários ingredientes da tauromaquia são vistos não apenas na perspectiva do toureiro e demais personagens humanas (das suas grandezas, da sua vaidade, dos seus receios e misérias), mas também “do lado do touro”, acentuando a pureza do seu comportamento animal, os condicionamentos meramente instintivos, a desigualdade das regras na corrida para a qual é lançado cegamente; o “invisível” que constitui para ele a agitação que subitamente o envolve e que, com violência o arranca às suas paisagens naturais. Livro que revela grande pesquisa e informação sobre o assunto, reflexão de um poeta que se apresenta como o contrário de um “aficionado”, ao mesmo tempo imerso e distante dessa fiesta com raízes primitivas, deitando-lhe um olhar não cúmplice, mas compreensivo e benevolente de quem parece dividido entre um sentimento de justiça pelo ser desprotegido e acossado que é o touro (por mais bravo que seja, sempre em pé de desigualdade, mesmo quando mata) e uma atracção pelo perigo, o fascínio das apoteoses e da gala, traduzido por exemplo neste desabafo acerca do traje de luces: «(…)os poetas invejam (se tal neles é possível) o traje de luces: que luzissem as suas palavras como aquela festa do touro desesperado, e merecessem, ao menos, um monumental assobio, isso desejavam.»

Na nossa infância, mundo exterior e mundo interior não estão distanciados com a nitidez que o tempo se encarrega de desfazer. Os afectos poderão ser vistos como uma das nossas respostas a essa clivagem, uma forma de responder com a unidade ao sentimento de fractura com que a vida nos castiga. As conversas que nos nossos primeiros tempos de vida animam a nossa relação com as coisas, como se elas fossem prolongamentos de nós mesmos, tem o seu equivalente nos afectos, como respostas com que, saindo da nossa esfera egotista, procuramos recuperar a harmonia inicial. A poesia de António Osório é o que se poderia assim chamar uma poesia de saída, querendo com isto dizer que o conflito mental e existencial que resulta da clivagem a que acima me referi não procura a solução num enquistamento subjectivista ou na construção de mundos artificiais, como sucede com tantos outros poetas, e sim numa tentativa existencial de recuperação dessa harmonia ou, pelo menos, do que ainda é possível recuperar, através duma permanente atenção às coisas, ou antes à memória das coisas, como que numa procura dos seus sentidos mais próximos de nós, da nossa visão, mas que preconceitos sociais e outros factores endógenos, foram ocultando e, consequentemente, distanciando. Esta poesia, que se pode inserir naquela tradição literária que, desde Proust, pelo menos, se apresenta como um misto de percepção diluída e de recordação, faz uma apreensão do mundo como ele se conserva na memória, isto é, recupera o tempo, para inscrevê-lo no presente, como uma forma de compensar a perda do passado, mas não deixa de se apresentar como uma saída de si, através da deambulação poética pelas coisas e pelos espaços que prometem o regresso a esse paraíso de que o poeta, num dos seus poemas, se classifica como “emigrante”. Mas esta deambulação carente não pertence à família da poesia sofrida, auto-compungida e patética, de tão grandes tradições no lirismo português. Como acentuou Joaquim Manuel Magalhães no ensaio que serve de posfácio a Décima Aurora, ela «não visa o lamento: antes pretende fixar todos os restos da esperança». De facto, o poeta não se entrega nunca ao vexame da lamentação, não pede comiseração alguma a ninguém, procura sim uma espécie de ascese pelo afecto, e pela reposição ética; procura afinal uma “libertação da peste”. Sabe encarar as privações, as contrariedades, mesmo a dor, com poético estoicismo, com a elegância de que as palavras, devidamente escolhidas e podadas, são capazes. Também não é a ironia o seu mundo (como acontece com alguns, poucos, mas excelentes poetas portugueses). Nele, a ironia “transmuda-se em piedade”, piedade que, evidentemente, não busca o seu fundamento em qualquer legitimação divina (já que este mundo poético passa muito ao lado de Deus, e não será difícil sustentar e demonstrar que a relação do poeta com o sobrenatural não é muito envolvente e não é nada pacífica), mas nas próprias forças interiores de coesão e de sobrevivência, ou seja, numa certa forma de exercer a nossa humanidade; num sentimento, enfim, de gratidão pela vida enquanto única razão e fundamento de si mesma, o que não se pode confundir com optimismos programáticos. De facto, esta poesia não sendo pessimista, também não alinha nos padrões da crença cândida; ela é benevolente com o incompreensível, e procura atenuar os efeitos do iníquo, do torpe, da desarmonia, com essa outra ordem, mais humana, justa e harmónica que é a lógica do coração apurada numa simbólica dos afectos, apresentando-se, por vezes, a poesia, em António Osório, como um acto de re-criação, como se as palavras tivessem, ao serem escritas ou proferidas, o dom de anular o halo comum das coisas, e de as refundar, fazendo-as emergir numa luz genesíaca.

«Há uma delicadeza do coração: ela é parente do afecto. Desta fonte brota a mais fácil delicadeza de maneiras», escreveu Goethe, Os afectos são pois a delicada resposta do coração às suas próprias escolhas; são, nesse sentido, o contrário da paixão. Mas em ambos (afectos e paixão) há a busca de algo longínquo, inacessível, talvez mesmo impossível, essa “fenda luminosa” a que acima já me referi, essa unidade perdida, o “fulgor inicial” a que as palavras, também elas exiladas, aspiram. Por isso, a poesia de António Osório tanto valoriza as raízes, que penetram fundo na terra do tempo para, sob as mais diversas formas da obra que nos deixou, procurarem e talvez alcançarem esse perdido e profundo denominador comum dos afectos, “ o lugar do amor”.

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