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António Galamba 22/11/2021
António Galamba

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A tragédia da rua do PAN e afins

O Bem Prega Frei Tomás de Inês Sousa Real é uma ninharia no quadro dos turvos negócios gerais da República, mas é um substancial abalo de credibilidade na arrogância de quem quer impor aos outros uma moral, um gosto e uma dinâmica.

As circunstâncias políticas e a pretensa modernidade civilizacional, assentes numa altiva superioridade moral maniqueísta, proibicionista e intolerante perante a diversidade de ideias, gostos e tradições, consagrou uma deriva de ataque à realidade concreta de parte do país, em especial, no que respeita a dinâmicas do Mundo Rural. Os Animais e Natureza assentaram arraiais nas vivências urbanas e nos corredores do poder para proibir e perseguir parte do país, sem indicar alternativa de vida, como se fosse possível reescrever as marcas da identidade das comunidades.

O discurso de intolerância e de ódio em relação a parte do país que pensa e age de forma diferente contou com miserável anuência parlamentar de quem pensa mais na sobrevivência política, na manutenção do poder e nas circunstâncias de ocasião do que na diversidade que sempre pontuou o país, apesar dos tiques centralistas, urbanos e de compromisso com o litoral da densidade demográfica.

A tragédia abateu-se sobre a rua da superioridade moral do PAN. Por esquinas e vielas, na cidade e no campo, em terra e no mar, a líder do PAN verberou um conjunto de narrativas de arremesso contra as dinâmicas do Mundo Rural e da agricultura portuguesa em modo de contradição com a sua esfera privada de compromisso com as estufas, os plásticos para os frutos vermelhos e os truques para camuflar a propriedade de empresas no setor que fustigou durante os últimos anos. O Bem Prega Frei Tomás de Inês Sousa Real é uma ninharia no quadro dos turvos negócios gerais da República, mas é um substancial abalo de credibilidade na arrogância de quem quer impor aos outros uma moral, um gosto e uma dinâmica.

Combatia as estufas em Odemira, mas tinha túneis de estufas no Barreiro na sua empresa, que já foi da sogra e agora será do marido.

Combatia o uso do plástico na agricultura intensiva, mas usa plástico nas embalagens de framboesas.

Uma tragédia de incoerência, depois de umas eleições autárquicas que foram uma desflorestação de votos e na véspera de eleições antecipadas em que o voto útil pode gerar impactos negativos. A tragédia da Rua do PAN, que em poucos anos de vida tem sido fértil em supremacia moral de gosto e em dissidências de protagonistas, tem tudo para ser o resultado de ajustes de conta internos, por parte de quem ainda é do partido ou foi por ele eleito. Na Quinta dos Animais aplicam-se as regras dos mortais. Parece fofinho, mas prevalece a lei da selva e está em curso a decapitação do Rei Leão no poder, induzida por alguém da própria quinta. No reino animal, o espécime aprenderia alguma coisa com o que lhe está a acontecer, erradicava a superioridade moral e aprendia a conviver com tolerância perante os que pensam e agem de forma diversa, mas não deve ser o caso comprometidos que estão com a velha política de dizer uma coisa e fazer o seu contrário. São mais do mesmo. Para alguns foram precisos anos e uma evidência para chegarem à conclusão, para outros nem tanto. A intolerância com a diferença não serve o país. Olé!

Há a tragédia das estufas túneis do PAN e depois há o Chega, outro alfobre de espetáculo e de contradições, ora navegando a realidade, ora contribuindo para os fins políticos de quem dizem combater. Outra tragédia, outras latitudes.

O PSD de Rui Rio embeiçou-se pela realidade eleitoral do Chega. O PSD e o Presidente da República, oriundo e cada vez mais convergente com a casa mãe, anuíram com uma solução do governo dos Açores para a qual convergiram a doutrina de 2015 de António Costa, quem ganha não governa, e o suporte de uma miscelânea parlamentar com PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Chega. A solução de governo regional, apesar dos diversos anticiclones de instabilidade, lá foi andando, assente no cimento do regresso ao poder da direita nos Açores e na distribuição de recursos financeiros num território em que isso conta com particular relevância para a vida das pessoas, as dinâmicas regionais e para a configuração das intenções de voto. O resultado viu-se nas eleições autárquicas, com a consolidação do poder em funções e a não inversão da tendência pelo PS.

Eis quando, o Chega dos embeiços de Rui Rio resolve colocar em causa a solução de governo do PSD e do CDS, ameaçando não votar favoravelmente o orçamento regional. Isto é, o Chega, com o qual Rui Rio admite convergências na República e que já foi excluído dessa vocação por Paulo Rangel, agita a instabilidade na solução governativa regional de direita e anula o efeito da morte da geringonça. O chumbo do orçamento fustigou a fiabilidade da geringonça, a ameaça de chumbo no orçamento nos Açores prejudica a narrativa da sustentabilidade da alternativa de direita e António Costa sorri com esta benesse do Chega. E o povo questiona, para que serve então o Chega?

Estes bailados trágicos da política nacional, num tempo de renovadas incertezas, adensadas pelos novos riscos pandémicos e pelos impactos dos anteriores nas dinâmicas individuais, comunitárias e nacionais, ocorrem num quadro de crescente irritação, turbulência dos estados de alma e descrença das pessoas. Agir na política com o perfil, o tom e a ação de sempre tem tudo para correr mal. Está nas mãos dos protagonistas políticos e das instituições terem em conta os sinais e agirem em conformidade. Se não querem mais surpresas e maior incerteza, no presente e no futuro.

NOTAS FINAIS

A TRAGÉDIA DA GEOMETRIA VARIÁVEL. O Estado que numa década não construiu nenhum hospital novo está a incorporar os que foram construídos em PPP. Depois do de Vila Franca de Xira, o Hospital Beatriz Ângelo, dando expressão a uma inacreditável falta de critério e de senso. O Hospital passa a ter a designação de Loures, cai Beatriz Ângelo, figura cimeira da afirmação dos direitos das mulheres em Portugal, e ninguém pia. Nem feministas, nem republicanos. É certo que o central é que o serviço de saúde prestado seja de qualidade, mas o simbólico revela muito de um país. Uma República poucochinha, também neste caso.

A TRAGÉDIA DO VALE TUDO JUDICIAL. É normal que os jornalistas protejam as fontes. Não é normal as reiteradas violações do segredo de justiça a partir de fontes do sistema. Como não é normal que a fonte proteja os reiterados informadores a coberto da liberdade de imprensa ou do superior interesse informativo. Carlos Alexandre ilibou as fontes e os informadores. O sistema pode prosseguir. O Estado de Direito não.

A TRAGÉDIA DO JÁ VENS TARDE. Quais almas penadas do tempo da geringonça, sucedem-se os arremessos de protagonistas do PS que defendiam diálogo com o PSD e que aconselharam António Costa a manter portas abertas com todos. Quando era importante remeteram-se ao silêncio público e permitiram a escorraça de quem pensava diferente. Agora vêm tarde, só sublinham a sua irrelevância política no que conta.

Escreve à segunda-feira

 


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