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Isabel Martins da Silva. "Há a ideia de imaginarmos as pessoas refugiadas como vítimas que têm de manter esse estatuto"
Isabel Martins da Silva

Isabel Martins da Silva. "Há a ideia de imaginarmos as pessoas refugiadas como vítimas que têm de manter esse estatuto"

Maria Moreira Rato 05/11/2021 13:15

Aos 25 anos, a fundadora da organização MEERU I Abrir Caminho trabalha com pessoas refugiadas há cinco, lutando pela integração de quem mais necessita.  

Iniciou o seu percurso académico na área da Medicina, mas mudou para Direito. Já sentia vontade de ajudar o próximo e, mais especificamente, as pessoas refugiadas?

Nem se pode considerar que estudei Medicina porque apercebi-me no imediato que não era esse o curso que queria. Foi uma decisão muito pouco ponderada. Então, enveredei pelo Direito. No entanto, não foi no meio académico que descobri o meu desassossego perante o desafio complexo das migrações. Descobri-o na minha freguesia, em Carapeços, Barcelos, quando, em 2016, foi acolhida uma família de pessoas refugiadas sírias. Na altura, por fazer parte do grupos de jovens da paróquia, envolvi-me no acolhimento dessa família desde o primeiro momento.

Como é que se processou a integração desta família?

Eu e os restantes jovens não fazíamos a integração formal da família, mas de forma muito espontânea e natural conhecemos os membros, tornámo-nos amigos, começámos a convidá-los para encontros das nossas próprias famílias. Não precisavam só de uma casa e aprender a língua, mas também de amigos. Não nos podemos esquecer de que é uma freguesia rural onde não vivem pessoas próximas culturalmente deles. Os Daher – a Safaa, o Mahmood, o Rafif e o Omar – continuam, hoje, em Portugal e a fazer parte das nossas vidas. Os meninos tinham meses e agora têm cinco anos! O pai começou a trabalhar, logo no primeiro ano, numa empresa local e a mãe trabalha connosco na MEERU I Abrir Caminho e com a Delegação de Braga da Cruz Vermelha Portuguesa. Investiu muito na aprendizagem da língua e trabalha como mediadora cultural e tradutora.

Neste contexto, como surgiu a MEERU | Abrir Caminho?

Depois do meu primeiro acolhimento, na altura, acabei por me candidatar ao programa de voluntariado e fiz duas missões, em 2017 e em 2018, num campo de pessoas refugiadas de Lesbos e noutro em Atenas. E foi no regresso dessas missões que acabei por me cruzar com outros voluntários da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR), como o Pedro, o Nicolau e a Ana. E quisemos saber como poderíamos acolher e ajudar estas pessoas. A partir da minha expriência em  2016, percebemos que o que tinhamos vivido com a família Daher tinha um grante pontencial de impacto na vida de outras pessoas acolhidas em Portugal.  E foi a partir daí que começámos a estrutura um program que, mais que uma entidade com responsabilidades técnicas de acolhimento, tivesse pessoas concretas que façam com que as pessoas refugiadas sintam-se incluídas. E, por isso, surgiu a MEERU.

Quantas famílias ajudam atualmente?

Trabalhamos com dez famílias, vamos avançar com mais três este mês: nestas comunidades, onde os migrantes vivem, recrutamos voluntários locais, conversamos, selecionamos os mesmos e passam por um programa de capacitação de variadas vertentes como o autoconhecimento, a hospitalidade ou a empatia. E, depois, integram equipas de proximidade e cada uma tem o compromisso de criar as relações de amizade com uma família. Ao mesmo tempo, as famílias decidem se querem participar no programa. Não queremos que seja uma obrigação, mas sim uma escolha porque já passaram por coisas sobre as quais não tiveram controlo. E, durante oito meses, voluntários e equipas comprometem-se a realizar encontros de proximidade – com um número estipulado de passeios, visitas, etc. – e, quando estes terminam, o programa termina formalmente, mas estas pessoas, já despidas do papel de voluntários, são amigos. É uma espécie de rampa de lançamento.

Com quantos voluntários contam?

Temos 37 voluntários e estamos na fase de capacitação de mais quatro equipas e, posteriormente, seremos cerca de 50. Tendemos a associar o voluntariado a pessoas jovens, mas só há dois requisitos na MEERU: não aceitamos jovens menores de 18 anos e têm de ter disponibilidade. Tanto pode ser alguém de 20 anos como de 60. Temos voluntários com idades compreendidas entre os 18 e os 70 anos. Isto faz sentido porque as famílias têm membros de todas as faixas etárias. Começámos o projeto no terreno em 2020, em plena pandemia, foi um desafio muito grande. Iniciámos o primeiro recrutamento 15 dias antes do confinamento ser implementado. Esperámos até junho para arrancar. A meta é chegarmos às 25 famílias e 100 voluntários até ao final de 2022.

Alguma vez uma família recusou a vossa ajuda?

Até agora, ninguém disse que não queria fazer parte do programa. Já tivemos famílias que conheceram os voluntários e tiveram dúvidas, pois não sabiam se resultaria. Há o compromisso dos encontros e a MEERU acompanha todos. Estamos quase a incubar relações, por isso, é normal que haja desconforto nos primeiros tempos. De forma genérica, todas as pessoas estão recetivas e, como com os nossos amigos, a vida partilhada aproxima-nos e compromete-nos. Para isto, o trabalho das entidades de acolhimento é essencial. Trabalhamos em articulação permanente para que não se confundam os papeis e para que as pessoas saibam que têm pessoas que se preocupam com questões técnicas e têm pessoas que se preocupam com os momentos de partilha, de lazer e convívio.

Quais são os vossos principais parceiros?

Nascemos em 2019 e estamos incubados estamos incubados na Incubadora Social Ubuntu, promovida pelo Instituto Padre António Vieira (IPAV), um dos nossos principais parceiros. No trabalho que fazemos com o projeto MEERU APROXIMA, financiado pela iniciativa ‘Portugal Inovação Social’, o IPAV e a Universidade Católica são os nossos parceiros.

Qual é a proposta diferenciadora do MEERU APROXIMA?

A grande proposta do MEERU APROXIMA olharmos para o acolhimento de pessoas refugiadas não estando apenas presos à urgência do presente, mas entendendo que temos de olhar para o futuro. O acolhimento nãopode ser apenas um programa estatal que dura 18 meses: tem de ser muito para além disto. Isto faz-se com relações verdadeiras e não somente formais. Da experiência que tenho, as relações perduram. Não com a mesma intensidade, mas é natural. É um desafio muito ambicioso e não conseguimos dizer que vai resultar com todas as famílias. Dando um exemplo muito concreto: num sábado, uma das famílias que acompanhamos em Braga, dos Camarões, batizou os filhos mais novos. A madrinha de uma das crianças é uma antiga voluntária nossa. Quando escolhemos uma madrinha, ela será uma das pessoas mais importantes da vida daquela criança. A ideia é que, mesmo quando já não estiverem num momento de fragilidade, para lá de todos os programas formais de acolhimento, as pessoas refugiadas possama ter amigos para a vida.

Conseguem manter a sustentabilidade financeira do projeto?

Através de financiamentos como a iniciativa ‘Portugal Inovação Social”, uma iniciativa de cariz público que aloca fundos do Fundo Social Europeu e do do Orçamento de Estado a projetos de impacto social e de mecenas como o Bancoanco BPI e a Fundação “laCaixa” através do programa ‘La Caixa Rural’. Temos ainda um grupo de empresas que entendem que o acolhimento e inclusão de pessoas migrantes e refugiadas é algo essencial para as nossas comunidades e associam-se como Investidoras Sociais do nosso projeto através de um modelo de apadrinhamento de cada família que acompanhamos. . Procuramos que a missão do MEERU APROXIMA seja partilhada de diversas formas e vamo recebendo muitos contributos generosos em donativos ou serviços que canalizamos diretamente para o trabalho com a nossa comunidade de famílias.. Neste momento o nosso trabalho centra-se essencialmente nono Norte. Num projeto de proximidade, faz-nos sentido estarmos por perto da nossa comunidade.stamos em Viana, Braga, Gondomar, Vila Nova de Gaia, S. João da Madeira e vamos arrancar na Maia e na Trofa.

Existe algum momento que a tenha marcado particularmente?

No ano passado, pelo Natal, era necessário fazer obras na casa de uma família iraquiana para que os senhorios a deixassem permanecer na casa. Os voluntários mobilizaram amigos e familiares, durante um fim de semana, e arranjaram tudo aquilo que era necessário. É um exemplo muito concreto de como os voluntários servem de ponte para outras pessoas. E para outros projetos: temos várias meninas que passaram a fazer parte do movimento das Guias; temos um adolescente, que através de um voluntário, entrou no clube de andebol local. Não queremos que tenham uma relação fechada, que se crie uma bolha, mas que haja mais conexões. E é mesmo bonito ver como a aproximação é sempre diferente. No caso de uma família de Gaia, composta por uma mãe e três crianças, as nossas voluntárias foram extremamente essenciais, por exemplo, durante os confinamentos. Isto porque permitiram que as crianças pudessem ter aulas online, preparando os computadores e ajudando-as. E, tendo em conta que a mãe é uma senhora síria viúva, as voluntárias libertaram-na de algumas tarefas para que conseguisse ter tempo para ela.

O que devemos fazer em Portugal para que quem chega se sinta bem-vindo?

Não temos uma receita única e pronta. Acho que a resposta em relação à recetividade não é ‘preto no branco’: depende das pessoas, das regiões e do trabalho que é feito previamente. Penso que somos acolhedores e, daquilo que ouvimos das nossas famílias, todas estão satisfeitas com o povo português. Há casos isolados, por exemplo, senhoras árabes que usam hijab, e sentem olhares e posturas estranhos, mas é raro. E temos a noção de que se o acolhimento for bem preparado, a maioria deste estigma que ainda existe é desconstruído. A minha avó é tradicional e muito católica. Ou seja, se calhar há uns anos, tinha preconceitos em relação a pessoas muçulmanas, mas desde que conheceu pessoas reais, percebeu que algumas ideias que tinha não eram fundamentadas. Acreditamos que através da sensibilização bem feita e de contarmos narrativas positivas de acolhimento, e como contribuem para as comunidades, conseguimos desconstruir uma série de perspetivas perpetuadas através do ódio e da discriminação.

A MEERU é a única organização portuguesa a integrar a Rede para o Diálogo iniciada pelo KAICIID - Internation Centre for Interreligious and Intercultural Dialogue.

Sim. Pertencemos à Rede para o Diálogo porque nos identificamos com a sua missão: promover a inclsuão de pessoas refugiadas e migrantes na Europa através do Diálogo. Foi neste contexto que participámos no 3º Fórum de Diálogo Político Europeu sobre Refugiados e Migrantes, que decorreu em Lisboa em outubro.

Há quem critique o acolhimento de pessoas refugiadas, sendo muito pouco tolerante para com outras culturas, e até quem não queira sequer estar perto de imigrantes. Daquilo que vemos, efetivamente, há ainda esta conceção de que acolhemos as pessoas mas ter-se-ão de sujeitar aos trabalhos que se calhar não queremos.

Nas conversas que vamos tendo com pessoas das nossas redes, como familiares e amigos, percebemos que há a ideia de imaginarmos as pessosas os refugiadaos como vítimas que têm de manter esse estatuto. Para grande parte da nossa sociedade, é difícil entender que o objetivo é fazer com que, passo a passo, se dispam deste papel, cresçam e prosperem, tomando as rédeas do seu próprio projeto de vida. Há sonhos como o prosseguimento de estudos ou encontrar emprego na área em que se especializaram e, porque há pessoas que eram de classe média-alta, e quererem exercer a sua profissão cá. Nos primeiros tempos, é natural que exista a necessidade de adaptaçãotêm de se adaptar, mas a médio prazo, estas pessoas devem ter a oportunidade des com esforço devem prosperar.

Como é que a MEERU enfrentou a pandemia?

Começámos por reestruturar as equipas de voluntários para reduzir possíveis cadeias de contágio, com máscara, atenção à distância física, redução da duração dos encontros, preferencialmente ao ar livre, e cumprindo o limite de pessoas por ajuntamento para que continuasse a ser possível estarmos próximos. Assim sendo, mantivemo-nos no terreno a viver a Missão. Desde o surgimento do novo coronavírus, mantivemos em mente que não podemos não estar presentes quando e nos lugares onde somos mais necessários. Como é que poderíamos parar e confinarmo-nos à nossa própria segurança, quando há pessoas que precisam de nós fora do conforto das nossas casas?

No contexto do 3º Fórum de Diálogo Político Europeu, qual o papel do diálogo inter-religioso no vosso trabalho?

Como disse anteriormente, em entrevista ao jornal Notícias de Viana, o diálogo inter-religioso tem um papel central na nossa ação do ponto de vista de encontro entre pessoas e do ponto de vista do propósito ou da missão que abraçamos. Sobre o papel da religião no encontro entre pessoas, creio que há um potencial muito grande para explorarmos juntos com pessoas de outros contextos. Ao cultivarmos a diversidade em torno das diferentes religiões e reconhercermos os valores centrais que todas partilham, tornamo-nos mais próximos, mais empáticos, mais compreensiveis e responsáveis uns pelos outros. Quando falamos da religião na nossa missão, creio que as palávras do Cardeal Tolentino Mendonça que resumem de forma simples o papel do trabalho com pessoas em situação de vulnerabilidade: “Onde é que nós vamos ver Deus? Vamos ver Deus tocando a humanidade, servindo a humanidade, ajudando a humanidade uns dos outros. E, sobretudo, ajudando a humanidade mais vulnerável, mais frágil, mais sem esperança, trazendo ao colo, trazendo aos ombros, dizendo uma palavra, acreditando até ao fim, não desistindo nunca. Isso é a nossa oração, isso é a nossa visão!”. Esta mensagem é chave para os nossos dias para crentes ou não-crentes: encarar o nosso propósito como o serviço e o encontro com os mais frágeis é um novo paradigma ou proposta de vida.

“Está a tirar o mestrado em Direitos Humanos na Escola de Direito da Universidade do Minho. Pretende continuar a dedicar-se ao projeto futuramente?

Estou a trabalhar na MEERU a 100%. Não está nos meus objetivos seguir alguma das carreiras tradicionais do Direito, mas estou no mestrado em Direitos Humanos e creio que, no futuro, o meu percurso acabará por juntar o Direito, a área social e a integração dos migrantes.Creio que passará pela área do direito de asilo onde tenho esta oportunidade de contribuir para as inclusão de quem nos procrua em busca de refúgio e encontra desafios tremendos. Se, para alguém nascido em Portugal, o mundo jurídico está cheio de desafios, imaginemos para pessoas de outras nacionalidades.

Adenda: a entrevista que foi publicada na edição impressa contém imprecisões que foram entretanto corrigidas na versão online da mesma

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