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Barack Obama. Baladas melancólicas de uma estrela rock (segunda parte)

Barack Obama. Baladas melancólicas de uma estrela rock (segunda parte)

Pedro Miranda 19/10/2021 17:18

Sem deixar de ser, também, a defesa de um legado, a biografia de Barack Obama, "Uma Terra Prometida", contém a exposição de feridas e pecadilhos, do homem na ars política, que tornam esta auto-biografia com (sedutor) potencial de «verdade», recusando, ademais, aborrecidos panegíricos, auto-satisfeitos, com que, em não raras ocasiões do género, somos confrontados. O politólogo Fareed Zakaria, que leu todas as memórias de presidentes norte-americanos, considera estas as mais bem conseguidas de todas.

4. Complexidade, empatia e a imagem que Obama guardou dos principais líderes internacionais. 
Angela Merkel era de “aparência fleumática, mas com sensibilidade analítica” (p.383), uma personalidade com quem Obama se dará bem e na qual confiará; diversamente, Sarkozy tem “explosões emocionais e retórica empolada”, sendo “impelido pelas manchetes ou por oportunismo político”; o Presidente francês, na caracterização feita por Obama, é alguém com “arrojo, charme e energia frenética”, um demagogo que queria estar no centro das atenções e não era fiável (p.383).

De resto, Merkel olhava para Sarkozy como uma mãe olha para um filho traquinas (p.392). Quanto a Lula da Silva, “impressionou-me”; “fez reformas pragmáticas que fizeram disparar a taxa de crescimento do Brasil”, mas, por outro lado, “alegadamente, tinha os escrúpulos de um líder do Tammany Hall e corriam rumores sobre favorecimentos do Governo, acordos injustos e subornos” (p.385). 

Os retratos mais interessantes de alguns dos principais líderes mundiais, a nosso ver, contudo, situam-se no modo como o antigo Presidente norte-americano desenha os contornos dos então Primeiro-Ministro e Presidente russos, Medvedev e Putin, respetivamente. Colocando-se na pele de ambos, Obama situa-os numa Rússia de tradições autoritárias, em que mãos de ferro eram, muitas vezes, respaldadas popularmente.

Ademais, inscrevendo Medvedev‎, sempre, sob a tutela de Putin, escreve: “eu e Medvedev tínhamos imensas coisas em comum: ambos estudáramos e fôramos professores de Direito, casáramos e constituíramos família alguns anos mais tarde, dedicáramo-nos vagamente à política e fôramos ajudados por políticos mais velhos e ardilosos. Isso fez-me questionar em que medida as diferenças entre nós poderiam ser explicadas pelas respectivas personalidades e disposições, e o quanto era apenas resultado das diferentes circunstâncias. Ao contrário dele, eu tivera a sorte de nascer numa nação onde o sucesso político não me obrigara a fechar os olhos a subornos de milhares de milhões de dólares ou à chantagem de adversários políticos” (p.521).

Depois de historiar todo o percurso de Putin, suas origens e passagem pelo KGB, assinala: “como um chefe de armazém, mas com armas nucleares e poder de veto no Conselho de Segurança da ONU (…) Putin lembrava-me aquele tipo de homem que gerira a máquina de Chicago ou o Tammany Hall – homens duros, com a inteligência das ruas, sem sentimentalismo, que sabiam aquilo que sabiam, que nunca saíam do seu ambiente e que encaravam o mecenato, o suborno, a extorsão, a fraude e a violência ocasional como ferramentas legítimas da sua área de negócios.

Para eles, tal como para Putin, a vida era um jogo em que a vitória de um significava necessariamente a derrota de outro; podiam fazer negócios com pessoas exteriores à sua tribo, mas, no final, não podiam confiar nelas. Primeiro, zelavam pelos próprios interesses e só depois pelos dos outros. Num mundo assim, a falta de escrúpulos e o desprezo por aspirações nobres que não se traduzissem em acumular poder, não eram defeitos. Eram uma vantagem” (p.525). 

Relativamente à relação de suma importância com a China, dir-se-ia que o principal apontamento é o seguinte: “uma China pobre e caótica era um risco maior do que uma China próspera, mas, de facto, cresceu à custa dos EUA” (p.535).

Em nenhum momento são citados políticos portugueses nestas Memórias, sendo que Portugal é mencionado, em três páginas (pp.590, 593 e 596; a estas, pode somar-se, ainda, a referência às origens portuguesas do fotógrafo oficial da Presidência, Pete Souza, autor de fotografias que podemos, pois, encontrar nesta auto-biografia política, à qual Obama não deixa de conferir certo cuidado e recorte literário), a propósito da crise das dívidas soberanas (no pós-2008), em conjunto com países que passaram por dificuldades e programas de recuperação (com acordos com instituições internacionais que monitorizam, apertadamente, como se sabe, os rumos/resultados das políticas seguidas).

Obama é um crítico das políticas de austeridade (vide austeridade vs keynesianismo, p.588) e das meias-verdades ditas a propósito do caso grego (em que os resgastes eram, também, aspecto como que obscurecido, da banca alemã, nomeadamente) e do sentido punitivo de Wolfgang Schauble. 

Para os padrões norte-americanos, os governos europeus, no que asseguravam de Estado-Providência, “eram liberais [de esquerda]” (p.591] apesar da grande maioria se situar (e se auto-compreender em âmbito europeu) de centro-direita; no entanto, no conservadorismo fiscal – em uma altura em que tal posicionamento, na perspectiva de Obama, agravava a crise europeia – prevalecente em tais governos (já) desaparecia essa tendência “liberal” (no sentido norte-americano do termo).

O Presidente norte-americano entre 2009-2017 impor-se-á uma disciplina que o retire de qualquer bolha: todos os dias, lê 10 cartas de eleitores. Nelas, entre múltiplos exemplos, poderá confrontar-se com uma interrogação que, com as devidas adaptações, não nos seria estranha: “por que é que o Ministério da Justiça não mandou para a cadeia nenhum daqueles bandidos de Wall Street?” (pp.310-311).

Mas seria, provavelmente, na carta de condolências que decidia, com grande conhecimento de causa da história de vida de cada militar (que ia indagar/estudar), enviar, em papel cuidado, a cada família cujo filho perecera em combate que a capacidade empática de Obama é mais sublinhada (vide pp.485-486; diga-se que quando Obama chegou à presidência, havia 180 mil soldados norte-americanos colocados no Iraque e Afeganistão).

Obama, muito consciente de ter sido “investido da autoridade de rebentar com o mundo” (p.265), compreendeu, desde a primeira hora, que aos EUA “seria necessário, não um salvador solitário, mas um Congresso cooperante” (p.231), sendo que o seu olhar complexo sobre a vida política, longe, pois, de um providencialismo de um homem só (e atento à formação de uma “inteligência colectiva” institucional), se manifestava, também, na noção de que “a política consiste menos em acertar em todas as políticas do que em gerar confiança” (p.589), e esta não é, de modo algum, uma questão de «sim» e «não» mas de um aturado sopesar de razões (fortes) que concorrem, com frequência, a quando de uma decisão definitiva, como, exemplificando por antonomásia, a de enviar mais alguns milhares de tropas para os teatros de guerra no Médio Oriente (ou assim se podendo evocar o custo de oportunidade que cada decisão, mormente política, mesmo a melhor, implica, como Isaiah Berlin notava): “a nossa missão tinha de ser definida não apenas pela necessidade de garantir que o país não ficava na miséria ao fazê-lo; que questões sobre gastar centenas de milhares de milhões de dólares em mísseis e bases de operações avançadas, e não em escolas ou cuidados de saúde para as crianças, não eram periféricas à segurança nacional, mas sim fulcrais para ela; que o sentido de dever tão intenso que tinha em relação às tropas já no terreno, o seu genuíno e admirável desejo de que tivessem todas as hipóteses de serem bem-sucedidas, poderia ter um adversário à altura na paixão e no patriotismo daqueles que estavam interessados em limitar o número de jovens americanos postos no caminho do perigo” (p.493). 

A recusa dos simplismos pode, ademais, vislumbrar-se no registo, que varre fáceis a priori ideológicos, de que a legalização de imigrantes presentes já nos EUA (mas em situação irregular), no momento em que acede à Presidência, pode demorar 10 anos e que precisamente no país a que preside são os sindicalistas que se opõem, à época, aos imigrantes ilegais e os empresários republicanos que saúdam a sua chegada a solo estado-unidense. 

As reflexões de Obama sobre as limitações da política e de uma Presidência norte-americana, incluem ainda a constatação de que “estava a aprender outra difícil lição sobre a presidência: que o meu coração estava agora agrilhoado a considerações estratégicas e análises tácticas, as minhas convicções sujeitas a argumentos contra-intuitivos; que, no cargo com mais poder do planeta, eu tinha menos liberdade de dizer o que me ia na alma e de agir de acordo com o que pensava do que quando era senador – ou apenas um cidadão comum, perturbado ao ver uma jovem ser alvejada pelo próprio Governo” (p.513); a relação do político com o tempo – “a presidência muda os nossos horizontes temporais. Raramente os nossos esforços dão frutos no imediato: o âmbito dos problemas que nos caem na secretária é demasiado vasto para isso; os factores em jogo, demasiado variados.

Aprendemos a medir os progressos em passos menores – cada um dos quais pode demorar meses a concretizar, nenhum dos quais merecedor de muita atenção do público – e a reconciliar-nos com a ideia de que atingir a nossa derradeira meta, se alguma vez for atingida, pode demorar um ou dois anos ou até mesmo um mandato inteiro” (p.543) e, de outra sorte, o modo como, podendo a política seguida estar certa, mas sem a necessária visibilidade e percepção pública, e com os ciclos eleitorais a marcarem todos os agentes políticos, a correr o risco de ser posta de parte: “isso não me impediu de interrogar durante quanto tempo poderíamos continuar a defender políticas que tinham resultados a longo prazo, mas que, de algum modo, eram criticadas” (p.554), complexidade de elaboração manifesta também na rejeição do maniqueísmo na consideração dos políticos – quando Obama se candidata à Presidência e viaja, sucessivamente, em angariação de fundos, transmite a ideia a seus putativos apoiantes no financiamento de campanha que lhes irá aumentar os impostos e uns quantos abandonam-no em consequência desse anúncio (p.116); sim, é verdade que na política norte-americana há lobistas a embrulharem os interesses na aparência de princípios relevantes (p.79) e é possível que alguém que olhe aquela realidade se exaspere.

E, contudo, esta não é a verdade completa: “não é difícil encontrar pessoas que odeiam o Congresso, eleitores que estão convencidos de que o Capitólio está cheio de pretensiosos e cobardes que a maioria dos seus representantes eleitos está nas mãos de lobistas e grandes financiadores e que tem como motivação a ganância de poder. Quando ouço tais críticas, geralmente concordo com a cabeça e reconheço que muitos encaixam nesse estereótipo. Admito que assistir ao rebuliço diário que acontece na Câmara ou no Senado pode exaurir até o espírito mais resistente. Mas também falo das palavras que Tom Perrielo me disse [“há coisas mais importantes do que ser reeleito”, afirmou este senador que fora eleito num círculo de maioria republicana e que acabaria por votar favoravelmente a lei de cuidados de saúde apresentada por Obama] antes da votação da lei da saúde. (…) Quantos de nós somos testados dessa maneira, sendo-nos pedido para, ao serviço de um bem maior, por mos em risco carreiras com as quais sonhávamos há muito? Essas pessoas podem ser encontradas em Washington. E isso também é política” (p.479). 

Da pena de Obama surge, adicionalmente, uma interrogação clássica: que influência pode ter/tem um (dado) indivíduo (um líder) sobre a história? “Penso na velha questão de em que medida é que as características dos líderes individuais têm influência sobre o curso da História – se aqueles de nós que sobem ao poder somos canais para as profundas e implacáveis correntes dos tempos ou se somos, pelo menos em parte, autores do que está para vir. Questiono-me se as nossas inseguranças e esperanças, os nossos traumas de infância ou memórias de uma bondade inesperada têm tanta influência como qualquer mudança tecnológica ou tendência socioeconómica” (p.709).

5. Sarah Palin, uma história do nosso tempo. 

E, de repente, Sarah Palin. Aos 44 anos, mãe de cinco filhos, a governadora do Alasca, membro de uma confissão cristã conservadora, ex jogadora de basquetebol e vencedora de um concerto de beleza numa pequena cidade, que saltara entre 5 faculdades até obter um diploma em jornalismo, antiga apresentadora de programas desportivos, forma ticket com John McCain – um homem, conhecido herói de guerra, apresentado por Obama como probo, mas com considerável maleabilidade tática, mudando de posições, com facilidade bastante, em função do que uma dada maioria momentânea reclama e ainda com a curiosidade de ser proprietário de 8 casas - na corrida às Presidenciais de 2008. De imediato, ajudou a que muitos milhões chegassem aos republicanos. Comportava-se como uma “perturbadora poderosa”, afirmando, sem peias, os maiores dislates, independentemente da verossimilhança dos mesmos.

“As críticas do New York Times a Palin reforçavam-na”, numa altura em que se vislumbrava já que “os velhos guardiões [media] estavam a perder relevância” para as redes sociais, ou os canais de debate nas rádios. Aliás, Palin assentava na perfeição a um “modelo de negócio dependente de provocar raiva e medo nos espectadores” como aquele a que recorria a Fox News (p.460); Sarah Palin era “uma actriz nata (…) [que] não fazia a mínima ideia dos assuntos da governação” (p.201). Só que a ignorância grosseira, a falta de preparação, as frases chocantes, e sem qualquer adesão à realidade, em vez de a tornarem pouco credível aos olhos do eleitorado, tinham o efeito contrário junto de vastos sectores da população (que com ela se identificavam).

Vista a partir de um mundo Trumpiano, Palin “era um sinal do que estava para vir” (p.202). Nos seus comícios, as bancadas enchiam-se com t-shirts que berravam slogans como “Não aos comunistas”, e delas saíam uivos para Obama, o Obama “socialista, negro e muçulmano”, em palavras de ordem como “terrorista”, “matem-no”, “arranquem-lhe a cabeça” (p.228). 

Palin e os seus companheiros de bancada perceberam que, ao contrário do que sucedera durante grande parte do pós-II Guerra Mundial em que as linhas divisórias entre partidos não tinham sido demasiado fortes (p.280), agora “raramente, os americanos premiavam a oposição por cooperar com o partido no poder” (p.299), pelo que o permanente “obstrucionismo republicano” (p.661) – a recusa, sem excepção e sem contemplações, de colaborar com ou aprovar a menor iniciativa legislativa que adviesse do campo democrata - tinha a sua racionalidade – ainda que perversa.

6. A operação Lança de Neptuno e a catarse americana.

É durante a Presidência de Barack Obama que se dá a captura/eliminação de Osama Bin Laden, líder da AlQaeda, a «base» que arquitectara e operacionalizara os atentados de 11 de Setembro de 2001. O nome de código da Operação foi “Lança de Neptuno” (p.772), tendo Bin Laden recebido o nome de código “Geronimo” (p.774). Tratou-se da primeira e única vez em que Obama assistiu em direto, a partir da Casa Branca, a um evento desta índole. Para a concretização do mesmo, foi necessária uma violação territorial de um (país) aliado putativo – o Paquistão – de forma flagrante (p.758). O Presidente paquistanês, contudo, avisado a posteriori, viria a anuir na estratégia norte-americana.

Um software de reconhecimento facial para a CIA viria a comprovar que o alvo fora mesmo o pretendido. Muitos milhares de norte-americanos, a maioria dos quais pouco sabia sobre o Islão (p.408) e que custeava 10 mil milhões de dólares/mês para a guerra no Iraque (quando “nenhuma evidência de armas de destruição maciça” existia, p.189) vieram para as ruas, celebrando o acontecimento.

Os republicanos, críticos acérrimos de uma suposta complacência democrata para com o terrorismo, foram obrigados a saudar Obama e a dar tréguas políticas durante certo tempo. Para o Presidente norte-americano, era claro que “a morte de Bin Laden foi a catarse para o povo americano” (p.778); todavia, e de outro prisma, este interrogava-se retoricamente: “só nos unimos [norte-americanos de todos os quadrantes] com a morte de um terrorista?”…talvez por isso, não sentia a mesma “exuberância” do que aquela que o habitara por ocasião da aprovação da lei dos cuidados de saúde (p.779).

Com discernimento bastante, Obama decide não exibir o troféu macabro [as fotografias do cadáver de Bin Laden], nomeadamente para não favorecer a extrema-direita. Entre os ficheiros apreendidos na operação Lança de Neptuno, estavam novos planos de ataque aos EUA (note-se que durante a Presidência Obama um terrorista conseguiu entrar num avião com explosivos colados à roupa interior e só o falhanço no detonar daqueles impediu nova catástrofe.

O caso, conhecido como o do “terrorista das cuecas”, não deixa de surpreender, na medida em que toda, desde logo nos aeroportos, a vigilância e securitarismo foram ultrapassados, afinal, com um truque aparentemente simples). No âmbito da luta contra o terrorismo, Obama assinou ordem executiva a proibir a tortura (p.272), mas não conseguiu fechar Guantánamo no tempo que pretendia (com o ex-Presidente a afirmar que um recluso médio de um Estabelecimento Prisional de Alta Segurança dos EUA “comia estes [muitos dos presos em Guantánamo] ao pequeno-almoço”, p.653).  

7. Decência

Obama, tal como Michelle, não foi criado num lar particularmente religioso (p.148), tendo vindo, no entanto, a frequentar uma congregação cristã – espaço de partilha de dúvida -, com presença mensal na eucaristia (mais tarde, mais espaçada). A sua relação com o (amigo) reverendo Wright iria causar-lhe especiais problemas, em uma América muito marcada pelo tema do racismo. Obama tinha a memória de, ainda jovem professor de direito, gravata colocada, assim que se aproximavam (de si), automobilistas havia que fechavam/trancavam as portas do carro – impressiva imagem (p.447).

Em realidade, “a questão dos negros e da polícia era mais polarizada do que qualquer outro tópico da vida americana (p.450). Incluindo-se, já, aqui, a luta por cuidados de saúde universais que remonta, de resto, nos EUA, a 1912 com Roosevelt. Já então médicos e políticos do Sul apresentaram aqueles esforços como sendo uma forma de bolchevismo (p.425). Também Truman, em 1945 e 1949, não conseguiu contornar os lóbis da indústria (p.426). Não admira que os republicanos tivessem apreciado uma derrota da Lei de Cuidados de Saúde como o Waterloo de Obama. E, quando, finalmente, foi aprovado o chamado “Obamacare” os EUA gastavam em Saúde mais 109% per capita do que a França ou mais 117% do que o Japão e com resultados piores ou semelhantes. Havia 43 milhões de pessoas sem seguro de saúde quando Obama chegou ao poder. 

Entre as fracturas no eleitorado norte-americano – e o clima, diga-se, era colocado, pelos eleitores democratas, em último lugar, na lista de prioridades, no início da campanha de Obama para as Presidenciais; as petrolíferas eram dos empregos mais rentáveis do mundo e mesmo assim tinham milhões de benefícios fiscais (p.549 e 553); seja como for, Obama na sua corrida à presidência notara os eleitores, em casa, não estavam atentos e os seus discursos, excessivamente pedagógicos, revelavam-se entediantes para muitas pessoas,  e, “quer eu gostasse ou não, as pessoas eram afectadas pela emoção, não pelos factos” (p.114) - conta-se o problema fiscal: a mobilidade do capital enfraquecia a posição dos trabalhadores e os salários estavam estagnados em 2008. Mesmo a classe média estava em francas dificuldades.

Tais condições recuavam à era Reagan, com cortes fiscais para os mais ricos e leis de negociação colectiva desrespeitadas; para Obama, o objectivo político a pôr em prática durante a sua Presidência era claro: aumentar o salário mínimo, aumentar os impostos para os mais ricos e reforçar os sindicatos (p.209).  Se as pessoas associavam isto a comunismo, Obama ria “às gargalhadas”, mas percebia que a máquina de propaganda – desenterrando, sem o menor cabimento, um papão que de modo algum se colocava como hipótese política - era oleada por homens multimilionários, como os irmãos Koch, que pretendiam manter os seus privilégios e desmantelar o Estado Social (p.302). 

A propósito da questão fiscal sobeja, ainda, uma pergunta decisiva que muitos não deixaram de colocar-se ao longo dos anos (e, de novo e uma vez mais, nomeadamente a quando das duas últimas eleições em que Trump propôs, e colocou em prática, uma reforma fiscal que beneficiou de modo desproporcional os mais ricos): por que é que os eleitores trabalhadores na Pensilvânia votam contra os seus interesses? (económicos, p.172).

Responde Obama, um homem que diz ter procurado seguir “políticas baseadas no raciocínio e nas evidências” (p.662): “esta pergunta já me fora feita mil vezes, sob diversas formas. Normalmente, eu não tinha problema em descrever a amálgama de ansiedade económica, frustração com um Governo federal aparentemente insensível e divergências legítimas sobre questões sociais como o aborto, que empurravam eleitores para as fileiras republicanas. (…) Vamos a algumas dessas pequenas cidades da Pensilvânia e, como em muitas pequenas cidades do Midwest, os empregos já desapareceram vai para vinte e cinco anos e nada veio substituí-los. Isso aconteceu ao longo da administração Clinton e da administração Bush, e cada administração sucessiva tem dito que de alguma maneira, essas comunidades regenerar-se-ão, mas tal não tem acontecido (…) Portanto, não é de surpreender que tenham azedado, que se agarrem às armas, à religião ou à antipatia para com as pessoas que não são como eles, ou ao sentimento anti-imigrantes, ou ao sentimento contra o comércio internacional, como maneira de explicarem as suas frustrações” (p.173; este último período, que Obama pretendia meramente descritivo, e até empático, acerca das comunidades a que se referia, foi visto como uma crítica de um intelectual liberal, desligado das vinculações e identidade mais relevantes para pessoas comuns em alguns destes locais dos EUA).  

Ao contrário de muitos políticos, Obama confessa que sim, sentiu-se, mesmo, magoado com o seu povo, quando teve uma derrota estrondosa nas eleições intercalares, a meio do seu primeiro mandato: “cansaço”, “fúria”, “mágoa”, “vergonha” são as significativas palavras a que recorre para exprimir o que sentiu (ele que quando estava zangado nunca levantava a voz).

Para lá das questões políticas, ideológicas ou de mundividência, Obama, que considera que a Presidência dos EUA não o mudou (p.603) mas que evoluíra, durante anos, em matérias como a do respeito pelos homossexuais (fazendo novo acto de contrição por ter alinhado nas piadas adolescentes atinentes á orientação sexual de cada um e nem sempre ter tido a devida consideração pelo outro), ao longo das quase 800 páginas do I Volume de Memórias, dá-nos conta de um lado pessoal que foi construindo na Casa Branca e que passou por deixar de fumar, realização de exercício matinal, caminhada ao fim da tarde, jogos de basquete ao fim de semana, conhecimento do nome dos vários funcionários da Casa Branca (tentando inteirar-se da sua circunstância), ida aos jogos de basquete de uma das filhas ao fim de semana, incluindo aqui treiná-la (p.605). Dos seus gostos e escolhas pessoais, recuando ao seu tempo em Chicago, diz-nos que ouvia áudio-livros de John Le Carré ou Toni Morrison (p.49) e, mais tarde, escutaria Miles Davis, John Coltrane e Frank Sinatra (p.224), tendo no Ipod também Marvin Gaye, Outkast ou Nina Simone. Devorou os livros de Philip Roth, Saul Bellow e Norman Mailer (p.702). Da formação moral que a mãe lhe dera, fazia parte o Holocausto. A avó materna foi uma permanente inspiração. Gandhi, Lincoln, Luther King (que, por sua vez, tinha influências de Martin Buber) e Nelson Mandela foram líderes em que procurou beber sabedoria.

E o certo é que, definitivamente, esta combinação, também ao nível do assegurar do escrúpulo republicano, parece ter dado resultado: “não tivemos a mais pequena suspeita de escândalo na minha administração” (p.666; e em políticas concretas como a da reforma de Wall Street “só 0,24% dos fundos da Lei de Recuperação tinham sido mal gastos”, p.585).

Os mandatos de Obama, para muitos milhões de norte-americanos e cidadãos de todo o mundo, foram vistos como um tempo em que, de algum modo, as coisas, para variar, tinham melhorado (com uma certa sobriedade, compostura, capacidade de articulação em termos políticos e comportamentais). Talvez por isso, a quando da eleição do seu sucessor, um eleitor tenha explicado assim a mudança: “havia demasiada decência”. 

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