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Televisão. A paranoia como entretenimento

Televisão. A paranoia como entretenimento

Diogo Vaz Pinto 17/08/2021 10:22

Cada vez mais filmes, séries e documentários respondem à ânsia do público por investigações e fantasias paranoicas que dizem desmontar as mentiras do poder.

 

Nos nossos dias, há uma categoria cada vez mais difícil de negligenciar que é a daqueles que se sentem rejeitados por este tempo. Um conjunto cada vez mais expressivo de pessoas que não são capazes de aguentar o ritmo das tensões inflacionistas a que estamos sujeitos, neste sistema de produção e crescimento alucinante, em que até mesmo o esforço de andar a par das coisas, das notícias, do debate público, causa vertigens, tonturas, faz com que um número cada vez maior de pessoas se sintam diminuídas. Em tempos, os vagabundos inscreviam a giz nos alpendres e telheiros umas marcas secretas só decifráveis por outros vagabundos, e estas marcas viriam a ser designadas como “criptogramas rústicos”. Era uma espécie de mapa que inscrevia na própria tessitura da realidade um desvio, uma percepção que detinha em si mesma a virtualidade de um submundo. E se, hoje, uma boa parte de nós nutre sentimentos de inadequação em relação ao resto da sociedade, estes desdobram-se não apenas numa certa repulsa mas também em atitudes de suspeita. E, em resposta a este sentimento generalizado, parece estar a ser urdida uma teia de criptogramas por toda a cidade, uma era que assume um distanciamento mais irónico ou cínico e que encara o mundo com uma crescente dose de desconfiança. Esta rede de explicações, tantas delas absurdamente fantasistas, tece-se através de uma série de produções televisivas e cinematográficas, tomando liberdades maiores ou menores, apresentando-se como documentários ou recriações, de modo a confrontar ou desmentir a versão oficial dos factos. O El País fez uma espécie de catálogo com estas séries ou filmes documentais, começando por destacar Assassins, de Ryan White, e The Mole: Undercover in North Korea, de Mads Brügger, o primeiro sobre o assassínio, em 2017, na Malásia, de Kim Jong-nam, irmão de Kim Jong-un, membro da família no poder que vivia exilado e era uma das vozes mais duras nas críticas ao regime norte-coreano, sendo o segundo uma mini-série que foi para o ar no Filmin, e que condensa as gravações feitas com recurso a uma câmara escondida por um chef dinamarquês ao longo de uma década que passou infiltrado servindo a elite daquele regime, expondo a teia e as aranhas que beneficiam de uma tenebrosa ditadura que dura há quase seis décadas. Também no Filmin, estreou recentemente The Dissident, o projecto mais recente de Bryan Fogel, que ganhou em 2018 o Óscar para melhor documentário com Ícaro. Desta vez, Fogel disseca o assassínio do jornalista Jamal Kashoggi no consulado da Arábia Saudita, em Istambul, e como o regime saudita conseguiu instalar o programa de espionagem Pegasus no telemóvel de Jeff Bezos, o patrão da Amazon. Segue-se uma outra minissérie, desta vez da HBO, assinada por Cullen Hoback. Q: Into the Storm explica a origem e o funcionamento do QAnon, movimento populista que nasceu na internet, como um destrambelhado romance de espionagem escrito de forma coletiva em fóruns de conversação, superando largamente os cenários traçados por qualquer ficção distópica ou pela mais cáustica das sátiras políticas, traçando o quadro do que podemos esperar quando o fervor e idiotice da multidão tem rédea solta para se alimentar a si mesmo e difundir absurdas teorias da conspiração, num fenómeno que, manipulado pela administração Trump, teve consequências dramáticas, culminando no assalto ao Capitólio. Outra produção que também se foca no ambiente de polarização e desinformação que transformou a democracia norte-americana numa paródia selvagem, de forma a que os regimes autocráticos possam apontar o dedo às democracias liberais do Ocidente e rir à gargalhada, é Agents of Chaos, de Alex Gibney, outra minissérie exibida também pela HBO, que esquadrinha as manobras russas para influenciar as eleições que ajudaram Donald Trump a chegar à Casa Branca.

 

Uma ferida que continua a assombrar a américa O cardápio é extensíssimo e não oferece apenas produções cujo foco se centra na atualidade, incluindo também o novo documentário de Oliver Stone, JFK Revisited: Through the Looking Glass, que estreou há algumas semanas no Festival de Cannes, e mereceu uma longa ovação de pé, com o realizador norte-americano a revisitar o local do crime ao longo de duas horas, revelando novas inconsistências nas conclusões da investigação ao atentado que vitimou o Presidente Kennedy a 22 de Novembro de 1963, isto depois de, em 2017, ter sido levantado o sigilo sobre uma série de ficheiros oficiais. Assim, três décadas depois do seu filme JFK (1991) ter deixado claro que o público estava longe de saber a verdade sobre o que aconteceu naquele dia, Stone prova que esta é uma ferida que continua a assombrar a América. Mas o que há de comum a todas estas produções é a percepção de que a verdade aparece cada vez mais como uma miragem deceptiva, e quando se fala na pós-verdade o que se percebe é que entrámos num regime de suspensão, uma vez que o poder aprendeu um mecanismo bem mais eficiente que a censura como forma de manipulação, servindo-se da informação como de uma arma, criando uma época em que basta o efeito de verdade, em que a suposição pode encantar-nos mais do que os factos, convidando-nos a viver numa época movediça, que apenas acede a si através de ecos, reflexos ou sombras, e se revela incapaz de coincidir consigo mesma. 

Em entrevista ao El País, Noel Ceballos, autor de El pensamiento conspiranoico (Arpa), admite que estejamos a viver numa era dourada da “conspiranoia”. E no seu livro afirma que “nunca uma percentagem tão alta da população esteve exposta, por tanto tempo, a um número tão grande e normalizado de teorias da conspiração como na segunda metade da década passada. As teorias da conspiração estão agora no centro do discurso social, abrem as notícias, e podem levar as pessoas a não se quererem vacinar e a participar em manifestações de negação do covid-19, ou incitar multidões em fúria a invadir o Capitólio”. Ceballos traça um paralelo com o final da década de 60 e a década seguinte, vincando que o assassinato de figuras como John e Robert Kennedy, Malcolm X e Martin Luther King deixaram claro que existem forças que, a partir dos bastidores, não hesitam em eliminar seja quem for que ponha os seus interesses em causa. O que a internet veio introduzir é esse rede de criptogramas que procuram descodificar a urdidura que impede que a verdade se saiba e que haja um impulso transformador no seio das nossas sociedades. Para Ceballos, no final dos anos 60, houve uma mudança de paradigma tecnológico, e o escrutínio exercido sobre o poder aumentou e, com ele, vieram a lume mais escândalos. “Temos cada vez mais ferramentas para vigiar o poder, o que aumenta a desconfiança”. O problema é que o poder não demorou a descobrir uma forma de se defender, passando ao ataque, envenenando o poço, servindo um ambiente de intriga que desenvolveu este ambiente de “desconfiança patológica”.

 

A metafísica dos imbecis Em 399 a.C., levado a julgamento pelos atenienses, Sócrates fez questão de notar a dificuldade que é provar a verdade quando a mentira funciona como uma categoria de razão moral e opera de forma difusa. Se alguma coisa mudou face àqueles dias, é que as velhas calúnias não necessitam já de um processo lento e longo para se difundirem, não precisam de anos, mas conseguem, em poucos dias, enraizar-se, isto por acção dos novos meios de amplificação colossal de que dispõe hoje a mentira para impregnar as consciências: “Os que, usando a inveja e o aviltamento, vos persuadiram, e aqueles que, depois de se deixarem eles mesmos convencer, persuadiram outros, esses são os mais difíceis de confrontar, porque não há forma de os convocar aqui e de os refutar, sendo necessário que eu fale em minha defesa como se lutasse contra sombras e argumentasse sem haver quem me responda”. O nosso é um tempo cheio até às costuras de impurezas inomináveis, e nas suas bainhas esconde obsessões, crenças, labirintos infantis, perversões diversas, memórias não compartilháveis, leituras que são uma manta de retalhos, bastantes estupidezes e quimeras. Esta química complica tudo na hora de apurar a verdade, sendo, pelo contrário, muito mais útil na difusão de teorias da conspiração. Não é, assim, de espantar que os produtos culturais que provam ter mais eficácia e ganhar mais velocidade nestas circunstâncias tenham essas características viscosas e um tanto indefiníveis, adaptando-se e irradiando junto de um público que anseia por participar de uma consciência obscura, que vê aquilo que aos outros escapa, mas que, ao mesmo tempo, não tem tanta paciência assim para se dedicar às perícias detectivescas que são necessárias para alcançar uma perspectiva mais esclarecida. Este público quer as componentes do thriller policial, mas sem o lado aborrecido das tantas horas que se pode ser obrigado a passar à porta de casa de um suspeito. Cumpre assim aos modos do entretenimento e da ficção providenciar esses produtos que forneçam excitantes desta ordem, em que a realidade e o simulacro se confundam, fornecendo aquela matéria esotérica em que as ideias e os factos se combinam de forma rocambolesca, não precisando de verificação para suscitar a adesão de círculos de adeptos. Triunfa, deste modo, o regime das superstições, das verdades ocultas e ocultadas por poderosos complots. O ocultismo, escreveu Adorno num dos fragmentos de Minima Moralia, é a metafísica dos imbecis.

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