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Imobiliário de luxo. "Resistente à pandemia pode ser exagerado, mas está a mostrar uma resiliência particular"

Imobiliário de luxo. "Resistente à pandemia pode ser exagerado, mas está a mostrar uma resiliência particular"

Dreamstime Daniela Soares Ferreira 09/08/2021 22:12

A pandemia passou de raspão ao lado do mercado do imobiliário de luxo e os mínimos ‘estragos’ feitos já estão a recuperar. Em Portugal o setor continua a crescer. Os maiores investidores continuam a ser estrangeiros mas os portugueses também começam a mostrar interesse. E Portugal tem tudo o que este mercado precisa, explica ao i Nuno Garcia, diretor geral da GesConsult.

A crise gerada pela pandemia de covid-19 afetou muitos mas não afetou todos. No caso do mercado imobiliário de luxo, a crise passou praticamente ao lado. É isso que mostram, por exemplo, os números da Remax Collection, que teve o melhor primeiro semestre de sempre, com um total de volume de preços na ordem dos 615 milhões de euros, mais 43% que no mesmo período do ano passado. E para o futuro as perspetivas são as melhores: “Para a segunda metade do ano, a imobiliária [...] prevê a continuidade do cenário de recuperação do mercado, já bastante notório neste primeiro semestre”, refere a empresa.

Números que vão de encontro aos da Engel & Völkers, mediadora alemã de imóveis de luxo cujo volume de negócios subiu 31,5% entre os primeiros seis meses de 2021 e o período homólogo, atingindo os 53,9 milhões de euros.

Mas por que razão é este mercado tão resistente a crises? Nuno Garcia, diretor-geral da GesConsult, explica: “O segmento de luxo tem-se consolidado de forma bastante notória, numa altura em que existe a expectativa de retoma da fileira nacional, com mais abertura dos mercados e a chegada dos apoios do Plano de Recuperação e Resiliência”, começa por dizer ao i, acrescentando que “para alguns compradores, luxo significa um apartamento no centro da cidade, para outros, uma habitação mais espaçosa, na periferia”.

E é exatamente esta “abrangência de perfis compradores” que também “faz com que a oferta atual cumpra as expectativas de um maior número de pessoas. Além disto, e ao contrário do que se previa inicialmente, os preços do imobiliário premium estabilizaram com a pandemia e tem vindo a haver um aumento da curiosidade neste mercado”, acrescenta o responsável.

E Portugal – pode dizer-se – está num bom lugar de topo no que a este segmento diz respeito. A justificação é simples: “Portugal é um país bastante atrativo para os investidores, devido a características como a tranquilidade, a segurança e a privacidade – exigências que, atualmente, estão cada vez mais assentes”, acrescenta Nuno Garcia.

No entanto, avisa: “Resistente à pandemia pode ser exagerado, mas o imobiliário de luxo está a mostrar uma resiliência particular”. A pandemia até limitou o número de negócios neste mercado, “principalmente no início do ano passado, e funcionou como um travão ao mercado”. O diretor-geral da GesConsult explica ao i que “a partir do momento em que as fronteiras fecharam e os investidores deixaram de conseguir viajar, os mercados ficaram um pouco em suspenso e à espera de ver o que ia acontecer a seguir. Mas muitos dos projetos que ficaram on-hold nessa altura já estão a retomar, por isso, a curva volta a ser positiva”.

Questionado sobre o facto de este mercado ser resistente à crise, Nuno Garcia avança que “é menos volátil e apresenta uma estabilidade característica. Quem adquire bens de luxo dificilmente pára de o fazer em momentos de crise, porque são pessoas que têm um grande poder de compra”. Apesar de a pandemia ter trazido “alguns constrangimento ao fecho de negócios” neste mercado, começa a recuperar-se o tempo perdido.

A dinâmica do setor O responsável explica que o mercado continua a crescer apesar de existirem problemas que travam a dinâmica do setor, como é o caso da escassez de materiais ou da subida de preços. “Penso que existem três fatores que, em contraciclo aos ‘travões’ referidos, ajudam a justificar o crescimento da fileira”, diz Nuno Garcia, detalhando as transformações no retalho, o crescimento do segmento de luxo e o impulso à reabilitação urbana.

“Por um lado, as alterações no retalho fizeram surgir oportunidades relacionadas com a renovação de superfícies comerciais e a construção de novos entrepostos logísticos; por outro, o facto de as expectativas dos compradores terem mudado com a procura e construção de habitações maiores, em zonas periféricas. A reabilitação urbana como resposta à necessidade de habitação acessível nas cidades e como forma de rentabilização do património também tem contribuído positivamente para a dinâmica do setor”, justifica.

Impulsionador do setor Nuno Garcia defende que o segmento de luxo “tem potencial para continuar a ser um bom aliado do crescimento do setor”, opinião que justifica com o facto de “a procura crescente e a oferta de qualidade estarem equilibrados”.

Na sua opinião, os investidores de luxo veem em Portugal um local “com condições privilegiadas, nas quais se destacam a segurança, a qualidade de vida, o clima e a fronteira com a costa do Atlântico. São elementos diferenciadores que muitos outros países da Europa não têm”.

Apesar da procura crescente, “o mercado imobiliário de luxo em Portugal é um nicho” que “soma investimentos avultados, por via do poder financeiro dos compradores”. “Como se viu em 2008, em momentos de incerteza, os investidores confiam no imobiliário e com a pandemia, voltámos a observar esta tendência. Creio que é uma opção segura a longo-prazo, especialmente por existirem incentivos ao crédito, a par de as taxas de juro serem baixas”, lembra Nuno Garcia.

Estrangeiros investem mais Nuno Garcia não tem dúvidas que se vê uma maior representação de investidores estrangeiros em Portugal. Mas avança que a percentagem de portugueses também tem crescido no que diz respeito a este segmento premium. “No geral, quem mais investe neste segmento são casais compostos por pessoas de diferentes nacionalidades e que têm uma visão do mundo muito própria, por serem multiculturais”, começa por explicar. E, claro, o segmento não está ao alcance da carteira de qualquer um. “Falo de pessoas que ascenderam rapidamente nas suas carreiras profissionais, que têm uma grande capacidade de investimento e que procuram, em particular, opções nos arredores da cidade, com espaços exteriores e próximos da praia ou da serra. No fundo, encontram em Portugal tudo aquilo de que precisam”. E começa agora a notar-se outra tendência: “Os millenials começam também a surgir como um público-alvo do luxo. Verifica-se uma movimentação de mercado de compradores jovens, que ascenderam a níveis financeiros bastante confortáveis numa idade mais precoce e que lhes permite investir em imobiliário bastante cedo”, acrescenta o diretor-geral da GesConsult.

No que diz respeito aos estrangeiros, são os brasileiros, os franceses e os chineses que estão a apostar mais neste segmento imobiliário.

Um negócio muito atrativo Os números não enganam e Portugal está a posicionar-se num bom patamar no que diz respeito ao mercado de luxo. Nuno Garcia corrobora essa opinião ao dizer que “durante a última década, Portugal tem vindo a posicionar-se como um local altamente atrativo e estratégico aos olhos dos investidores”. Tudo porque o pequeno país à beira-mar plantado tem tudo o que é preciso para garantir as exigências deste setor: “Estamos a falar de um país que apresenta características ímpares, com bom clima, segurança e qualidade nas suas infraestruturas. No que toca ao imobiliário de luxo, os compradores identificam-se com o que Portugal tem para oferecer. É, por isso, muito normal que investidores estrangeiros procurem cá as suas casas e terrenos para férias, seja para viverem permanentemente ou, simplesmente, para rentabilizarem o património”, defende o responsável.

Lembrando que “o conceito de luxo varia”, Nuno Garcia não tem dúvidas que o nosso país “consegue cumprir os requisitos mais diversificados, ao mesmo tempo que acompanha as tendências, como a fuga para a periferia e as questões de sustentabilidade no imobiliário”.

 

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