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Da pós-história à história

Da pós-história à história

Ricardo António Alves 19/07/2021 20:21

Milhares de anos hão de passar até os raios solares penetrarem a atmosfera, a natureza retomar os seus direitos e os grupos de sapiens se permitirem enfrentar as planícies.

31 de dezembro de 999: na Abadia de Cluny, reino de França, o monge copista Armen da Cilícia lida com as suas iluminuras do Livro de Apocalipse, quando vê com horror cumprir-se a profecia milenarista ali contida: do céu em fogo despenha-se sobre a terra uma chuva de meteoritos incandescentes, destruindo quase toda a vida existente.

Os poucos humanos sobreviventes acolhem-se em grandes grutas, único abrigo que permitirá à espécie uma sobrevivência precária, durante um longo período que ficará conhecido como a Era da Escuridão. Milhares de anos hão de passar até os raios solares penetrarem a atmosfera, a natureza retomar os seus direitos e os grupos de sapiens se permitirem enfrentar as planícies. Estamos, pois, no Futuro, as espécies mudaram, porém o figurino humano é similar ao da Idade dos Metais e às tribos celtas. É a idade perdida, a pós-história. 

Na terceira cena deste primeiro tomo de Les Âges Perdus, um grupo de guerreiros, batedores do seu clã, liderado por Primus de Moòr, vagueia na planície da Ânglia. O desconhecimento da agricultura impõe o nomadismo, os homens sempre no encalço das manadas e dos despojos dos monstruosos “esfoladores”, uma derivação de ursos com agilidade de grandes símios, predadores a que se juntam matilhas de lobos dentes-de-sabre, bovídeos descomunais ou aves de rapina em regressão saurópode... O único refúgio nos planaltos corridos pelas manadas resume-se agora a umas fortificações precárias adstritas a cada clã, e cuja utilização por outro grupo obedece a um protocolo, cuja não observância é entendida como ultrajante.

Acompanhado da filha, Elaine, Primus tem uma notícia a dar, após observação continua e experiências de cultivo nas últimas vinte estações: existem grãos dum cereal (o trigo), que podem lançar-se à terra e periodicamente colher-se, transformando-o em alimento.

Há muito que transporta pergaminhos cujos sinais não consegue compreender, mas as imagens do quotidiano, dos trabalhos dos campos, fragmentos de um livro de horas medieval, são vestígios da sociedade humana antes da Era da Escuridão, e uma evidência de que já se vivera de outro modo, sem a condenação de correr eternamente atrás da caça, à mercê das feras e dos caprichos do clima. A sedentarização era possível, e Primus pretende partilhar o saber com os clãs.

A história entra de novo, timidamente, na narrativa com estas iluminuras, e o guerreiro intui que estes signos foram produzidos ainda antes daquele tempo obscuro, e será possível talvez encontrar algo nas ruínas desses edifícios que informe de como era então a vida.

Mas há quem não aceite essa interferência nos pelouros dos deuses, e não leve a bem encontrar o fortim que lhe pertencente ocupado por outra tribo, uma ofensa que terá de ser lavada com sangue. A história acabará mal, A Elaine e dois guerreiros, sem futuro na região, resta ir para Sul, atravessar o Canal, cumprindo o desejo do pai. 

O entrosamento de texto e desenho é bastante conseguido. Jérôme Le Gris e Didier Poli são autores experimentados, também no cinema, animação e jogos de vídeo. 

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