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Alterações climáticas. As regiões de clima mediterrânico estão a mudar

Alterações climáticas. As regiões de clima mediterrânico estão a mudar

Patrícia de Melo Moreira/AFP João Campos Rodrigues 14/07/2021 14:47

Da Califórnia ao Chile, passando pela África do Sul e pelo Mediterrâneo, o clima já mudou. “Estão todos a sofrer do mesmo mal, que é maior frequência de secas, ondas de calor e incêndios florestais”, diz Ricardo Trigo, do Instituído Dom Luiz.

Todos estranhámos a onda de calor deste último fim de semana, com uma súbita quebra das temperaturas máximas na ordem dos dez graus esta segunda-feira, antes de uma nova subida logo no dia seguinte. Aqui ao lado, em Espanha, Murcia até batia nos 44,2 º.C, enquanto nevava nos Picos da Europa, segundo a Agência Estatal de Meteorologia. Mas esta onda de calor “não é nada” comparado com o que nos espera num futuro marcado pelas alterações climáticas, salienta Ricardo Trigo, investigador investigador de Variabilidade e Extremos climáticos no Instituto Dom Luiz e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Por todo o planeta, regiões que associamos ao clima mediterrâneo – do sopé da Sierra Nevada aos vales e costa da Califórnia, passando pelas terras vinícolas nos arredores da Cidade do Cabo, na África do Sul, até aos vale central do Chile, à costa sul da Austrália ou ao próprio Mediterrâneo – estão a ser transformadas pelas alterações climáticas. E já se vê um padrão.

“Estes sítios têm problemas razoavelmente parecidos. Estão todos a sofrer do mesmo mal, que é maior frequência de secas, ondas de calor e incêndios florestais”, resume o investigador do Instituto Dom Luiz, que cujo instituto estuda estes eventos extremos há duas décadas, e não tem mãos a medir. “Já nem damos conta do recado, fazemos artigos para todas as ondas, mas nos últimos cinco anos tem sido uma total loucura”.

É uma espécie de pescadinha de rabo na boca. A seca torna mais prováveis as ondas de calor, que, tudo junto, provoca maiores incêndios florestais, o que por sua vez piora as alterações climáticas, que causam secas mais extensas e maior frequência de ondas de calor. Ou, pior ainda, “super-ondas de calor”, nas palavras de Ricardo Trigo – imagine algo semelhante ao fenómeno que vimos no final de junho no Canadá, onde morreram mais de 500 pessoas devido ao calor. Ou ao que sentimos por cá em junho de 2017, quando o incêndio de Pedrógão Grande causou 64 mortes.

“A probabilidade de ocorrer uma coisa destas sem alterações climáticas seria entre mil a dez mil vezes menos provável”, salienta o investigador. “Dito de outra forma, poderia ocorrer? Podia. Mas a lua também pode cair na Terra, a probabilidade é que é muito muito baixa”.

Seca? Podia-se pensar que as super-ondas de calor são indicadoras de secas, mas geralmente é o contrário. “Os eventos de calor extremo na Califórnia, Chile, Portugal, são muitas vezes são precedidos por grandes períodos de seca”, nota Ricardo Trigo. Por um lado, o facto de o solo estar muito seco facilita estes fenómenos. Por outro, também se podem formar “anticiclones a altitudes muito elevadas, ou anticiclones de bloqueio, onde o ar está muito limpo”, descreve. Que não só aumenta a incidência de raios solares sobre a superfície da terra, sem nuvens para os absorver, como causa descida do ar, maior pressão e logo maior temperatura. “Pense na coisa como quando enche pneus de bicicleta comprimindo uma bomba, e aquilo fica quente”, exemplifica o investigador. “É a mesma coisa com o ar nesses anticiclones”.

Ou seja, uma “super-onda de calor” é a conjugação de diversos fatores. “Quando esses fatores todos se conjugam – e alguns estão a ser ampliados pelas alterações climáticas – a probabilidade de isso ocorrer é maior. Não há dúvida”.

O problema é que o clima mediterrânico, caracterizado por invernos suaves e húmidos, com verões muito quentes e secos, é particularmente vulnerável a secas. “Os invernos e as primaveras, que são as únicas épocas em que chove, se forem mais secos do que o habitual, imediatamente esse ano agrícola, hidrológico, até de energias renováveis, que dependem do vento e da água nas barragens, baixam de rendimento espetacularmente”, salienta o investigador do Instituto Dom Luiz. “Ao contrário do norte da Europa, do Canadá ou do sul da Argentina, essas zonas são mais húmidas e não estão tão dependentes da água”.

Nestas zonas mediterrâneas, incluindo Portugal, mas em particular na Califórnia, “está tudo depauperado, mas não está depauperado deste ano, estão em seca semi-permanente há vinte anos. E a zona habitável do Chile, que incluí Santiago e Vale Paraíso, onde mora imensa gente, está em seca há dez anos”, exemplifica Ricardo Trigo, lembrando também da enorme seca na Austrália. “Foi essencial nos incêndios na Austrália o ano passado, recorda-se?”, questiona o investigador – a verdade é que, num planeta num tal turbilhão de eventos extremos, mesmo uma série de incêndios conhecida como o “Verão Negro” na Austrália, que se estima ter destruído mais de 18,6 milhões de hectares de território, poderia já ter sido esquecida.

Entretanto, cá em Portugal, “o verão está claramente a estender-se”, refere Ricardo Trigo. “A chamada época da praia, ou dos fogos, tem de incluir cada vez mais junho e cada vez mais todo o setembro, senão até parte de outubro”.

“E também é verdade que há um desfasamento da época das chuvas, mas associar diretamente essa componente às alterações climáticas é mais difícil”, continua o investigador. “Mas nas últimas décadas tipicamente tem chovido mais no fim do outono, em outubro, novembro. E muito menos – mas muito menos – no início da primavera, no final de fevereiro e em todo o mês de março, do que há quarenta ou cinquenta anos”.

No entanto, para Trigo, o maior risco é mesmo o aumento da frequência de super-ondas de calor – este verão, já se nota que a água do Mediterrâneo está muito mais quente que o normal, um dos muitos fatores de alerta. “Aquilo que impacta nas pessoas são os fenómenos extremos”, considera o investigador. “As pessoas sabem lá se a temperatura média sobe um grau ou um grau e meio, Isso não diz nada. É ao longo de muitas décadas. Aquilo que as pessoas sentem é se houve uma onda de calor e se houve mais incêndios”.

 

 

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