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Inês Sousa Real, a líder que trabalha muito e não dispensa Amy Winehouse

Inês Sousa Real, a líder que trabalha muito e não dispensa Amy Winehouse

Bruno Gonçalves Luís Claro 14/06/2021 21:37

Chegou à liderança do PAN no dia em que completou 41 anos. Nasceu em Lisboa e destacou-se como provedora dos animais. Ganhou protagonismo nos últimos dois anos e é vista como a sucessora natural de André Silva.

Inês Sousa Real foi eleita líder do PAN no dia em que completou 41 anos. Nasceu, no dia 6 de julho de 1980, na Freguesia de Alcântara, em Lisboa, e orgulha-se de ser uma das poucas mulheres a chegar à liderança de um partido desde o 25 de Abril. «A eleição de hoje é, por isso, também uma conquista para todas as mulheres e meninas no nosso país!», escreveu, na sua página do Facebook.

A nova líder do PAN nasceu e cresceu em Lisboa e desde cedo que abraçou a causa da defesa dos animais. O primeiro cargo que ocupou foi justamente Provedora dos Animais de Lisboa com apenas 34 anos.

Apesar de garantir que «foi uma das missões mais gratificantes» que desempenhou, a agora deputada demitiu-se com críticas à câmara de Lisboa, liderada nessa altura por António Costa, por não lhe terem dado os «recursos básicos» para exercer a função. «Não correu bem porque o executivo não sabe lidar com as provedorias e com a necessidade de dar meios humanos para o seu funcionamento. Não fui a primeira provedora a bater com a porta e a câmara municipal tem de perceber que o provedor não é uma ameaça», disse, numa entrevista ao SOL, há menos de um ano.

Não voltou a exercer o cargo, mas viu o seu trabalho reconhecido quando lhe foi atribuído um louvor pela Assembleia Municipal de Lisboa com elogios à «dedicação, competência e espírito de missão exemplares no desempenho das suas funções».

Nessa altura já tinha ligações ao PAN. Está no partido praticamente desde o início e assumiu maior protagonismo a partir de 2017 com a candidatura à câmara de Lisboa depois de ter sido deputada municipal. No lançamento da candidatura, André Silva destacou «o rigor e a dedicação da Inês em prol das causas e dos valores» que o partido defende. Não conseguiu ser eleita vereadora, mas o partido cresceu com cerca de 3% dos votos.

Foi quando chegou a deputada que se tornou mais conhecida. Nas últimas eleições legislativas, em 2019, o PAN, que tinha apenas um deputado, elegeu quatro parlamentares. Inês Sousa Real foi uma das eleitas e assumiu a liderança do grupo parlamentar. Foi nesse cargo que enfrentou a maior crise interna do partido com a saída da deputada Cristina Rodrigues e do eurodeputado Francisco Guerreiro. «São pessoas que optaram por seguir uma agenda individual e projetos políticos pessoais ao invés de trabalharem em coletivo, defraudando, assim, até mesmo, aquilo que foi a confiança dos eleitores que elegeram quatro deputados e um eurodeputado», disse, numa entrevista ao Notícias ao Minuto.

O protagonismo que ganhou nos últimos anos tornou-a uma das hipóteses mais fortes para a liderança. Uma semana depois de André Silva ter anunciado que ia deixar a política ativa, Inês Sousa Real avançou para corresponder ao «desafio que muitos filiados e muitos apoiantes também externos do partido colocaram».

Trabalhadora e exigente

Os mais próximos descrevem a nova porta-voz como «muita trabalhadora» e totalmente empenhada nas causas que defende e no crescimento do partido. «É uma pessoa que trabalha muito e é muito exigente com o trabalho que faz», diz Paula Pérez à Luz.

A chefe de gabinete do grupo parlamentar descreve Inês Sousa Real como «uma pessoa calma que consegue gerir momentos de stress com alguma tranquilidade».

É vista dentro do PAN como a sucessora natural de André Silva por ter mostrado desde cedo características de liderança e uma capacidade de trabalho acima da média. «Tem essas características porque tem uma grande capacidade de trabalho. Tenta sempre encontrar consensos», acrescenta Paula Pérez.

 Quando anunciou, nas redes sociais, a candidatura à liderança recebeu dezenas de comentários com elogios ao «espírito de entrega e sacrifício», «empenho» e «capacidade de trabalho».

A luta contra as touradas

Acabar com as touradas em Portugal é uma das principais causas de Inês Sousa Real. Não perde nenhuma oportunidade para entrar num debate sobre a polémica à volta da tauromaquia e acredita que a maioria dos portugueses já não tolera esta atividade. Numa entrevista ao SOL, em outubro do ano passado, garantiu que nunca estaria disponível para assistir a uma tourada. «Não, não aceitaria. Há uma questão de sensibilidade e de compaixão com os animais que não podemos deixar de ter».

Garante que, mais cedo ou mais tarde, a tauromaquia vai desaparecer, mas antes disso promete bater-se para impedir os menores de assistirem a corridas de toiros ou para acabar com as transmissões na televisão pública. Foi uma das apoiantes de uma iniciativa, lançada há uma semana, para impedir a transmissão de corridas na RTP. «Transmitir tortura animal na televisão pública, paga por todas e todos nós, não devia ser sequer uma questão nos dias de hoje», escreveu, nas redes sociais.

Na Assembleia Municipal de Lisboa, Inês Sousa Real já apresentou uma proposta para acabar com as touradas no Campo Pequeno com o objetivo de que aquele espaço fosse apenas utilizado para atividades que «não promovam o sofrimento animal».

A moção de estratégia, que levou ao congresso, Inês Sousa Real volta a defender a abolição e lembra «já no ano de 1836, Passos Manuel promulgou um decreto proibindo as touradas em todo o país, o qual D. Maria II homologa».

O documento deixa claro que a estratégia do PAN passa pela defesa da «abolição de práticas anacrónicas que persistem, como as touradas, as corridas de cães, a caça ou pesca desportiva, entre muitos outros exemplos».

Desde os tempos de criança que tem uma ligação especial com os animais, garantem os mais próximos. Já teve quatro animais de companhia em casa, mas atualmente são apenas dois. Um gato chamado Micas e uma cadela chamada Luna que o marido acolheu por estar abandonada e maltratada.

O percurso académico não escapou à dedicação pelos animais. É licenciada em Direito e mestre em Direito Animal e Sociedade pela Universidade Autónoma de Barcelona. Pelo meio, foi cofundadora da Jus Animalium - Associação de Direito Animal.

A igualdade de género é outra das principais causas da nova líder do PAN. «Sou feminista e não tenho medo à palavra», disse, numa entrevista ao Diário de Notícias. Foi apoiante da candidatura da socialista Ana Gomes à presidência da República e é defensora de que as mulheres devem ocupar mais cargos de destaque na vida política. Maria de Lurdes Pintasilgo, a única mulher que ocupou o cargo de primeiro-ministro, é uma das suas referências. «Os principais cargos do Estado continuam a ser ocupados por homens. Temos um Presidente, um primeiro-ministro, um presidente da Assembleia da República e podia continuar por aí adiante que continuavam todos a usar calças», desabafa.

A política ocupa-lhe cada vez mais tempo, mas a música e o cinema continuam a fazer parte da sua vida. Cinema Paraíso, do realizador Giuseppe Tornatore, é um dos seus filmes preferidos e confessa que é fã de AmyWinehouse, dos Pearl Jam e do português David Fonseca.

Numa entrevista ao projeto ‘Os 230’, confessou que Siddharta de Hermann Hesse foi um dos livros que mais a marcou. «Gosto sempre de o reler para me relembrar do caminho humilde que temos de fazer ao longo da vida».

 

Os desafios da nova liderança

O grande desafio de Inês Sousa Real é conseguir que o PAN continue a crescer depois de ter passado de 75 mil votos para mais de 174 mil nas últimas eleições legislativas. No discurso de encerramento do congresso do PAN, o mais mediático da história do partido e pela primeira vez totalmente aberto à comunicação social, mostrou-se mais ambiciosa do que André Silva e garantiu que o partido disputa as próximas eleições legislativas «para ser Governo».

O PAN viabilizou quase todos os orçamentos do Governo socialista em troca de algumas medidas em defesa do ambiente e dos animais.

A nova líder prometeu ser exigente nas negociações, que vão começar em breve, do Orçamento do Estado para 2022. «Estamos prontos para lutar pela justiça climática e social, que são indissociáveis, assim como pela justiça interespécies, e deixaremos isso bem claro na discussão do próximo Orçamento do Estado, no qual traçaremos as linhas vermelhas às quais dizemos basta. Basta de financiar indústrias poluentes, de destruir os meios naturais, de financiar a caça e a tauromaquia! Mas não só: basta de deixar quem mais precisa sem apoios sociais, basta de corrupção e basta de borlas fiscais», escreveu, na sua página do Facebook, Inês Sousa Real.

No Congresso, em Tomar, deixou um recado para António Costa: «queremos mais, exigimos mais do Governo». Os próximos tempos dirão se a estratégia da nova liderança vai dar frutos.

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