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António Galamba 14/06/2021
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

Bandalheira.com

Bandalheira – Situação de grande desordem ou de desrespeito de regras, leis, princípios ou ordens.

A realidade e a perceção de bandalheira são os maiores catalisadores do desencanto, populismo e do desgaste do compromisso popular com os pilares da Democracia. Por ação ou por omissão há demasiados contributos da política para o avassalador avanço da erosão do sistema democrático, expressa numa sondagem em que 37% dos inquiridos não rejeitam uma liderança da nação, sem legitimidade democrática e fiscalização parlamentar. É uma espécie de triunfo do “rouba, mas faz” pela mão de atores políticos comprometidos com a filosofia de que os “fins justificam todos os meios”, num contexto de crença ilimitada no amorfismo social, na impunidade e na desculpabilização política, judicial e popular.

O “vale tudo” tem pilares sólidos na sociedade portuguesa, nos protagonistas, nos mecanismos de funcionamento, nos equilíbrios, nas cartas marcadas e até no sistema de alegado contrabalanço constitucional assente nos direitos, liberdades e garantias. Por agora, apesar da voragem, volatilidade e acidez das redes sociais e dos comentários de rodapé das notícias online, espelhos maiores do nível de desenvolvimento civilizacional e do uso sensato da liberdade de expressão, o excesso de garantias do exercício político está a ser gerador de novas erosões dos pilares democráticos. E não há perspetiva tribal, de compromisso coletivo à esquerda ou à direita que seja convocável para atenuar os desmandos objetivos do exercício político e partidário. Não é sustentável ter sido implacável na crítica à governação da direita e anuir em relação ao exercício da solução governativa anterior, suportada pela esquerda em bloco, ou por diversas das expressões atuais partilhadas por alguns dos parceiros da anterior jornada. Não há nada nem ninguém que se sobreponha à desordem e desrespeito de regras, leis, princípios e ordens.

Todos sabemos que o tempo é pré-eleitoral, a ação política é avassaladora, a oposição é medíocre e o escrutínio cívico muito frágil, mas é inaceitável tanta geometria variável nos valores, nos processos e na narrativa política e partidária. Não é possível exaltar a personalidade de Jorge Coelho a partir do exemplo de assunção da responsabilidade política na queda da ponte de Entre-os-Rios e depois entrar em variações selvagens de recriação do conceito de “responsabilidade política”, projetando-a para o pedido de desculpas ou para a correção das situações anómalas. E fazê-lo com tons de irresponsabilidade que beneficiam os infratores e divergem do interesse nacional, na linha da implosão da Junta Autónoma das Estradas quando se detetou corrupção e foi extinta, impossibilitando a verificação dos esquemas, ou do desmantelamento do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras em curso, na sequência de casos concretos, árvores nefastas de uma floresta muito relevante para a segurança nacional do país durante anos a fio.

Por mais criativa e conivente que a República possa ser com os seus, há mínimos que não têm sido assegurados no exercício partidário, político e comunitário.

É impensável entregar dados pessoais de manifestantes aos visados pela expressão cívica de um protesto contra a violação de direitos, liberdades e garantias reconhecidas pela Humanidade.

É inaceitável que a situação tenha sido denunciada há meses a jornalistas e ao governo sem que tenha existido uma expressão pública do caso.

É indecoroso que partidários (do partido) de quem promoveu a aprovação da Carta dos Direitos Digitais impulsionem ações de desinformação nas redes sociais para tentar desgraduar a gravidade da delação, no nosso quadro constitucional e no exterior.

O momento pré-eleitoral não é a mãe de todos os desmandos públicos e mediáticos. Com tanta falta de compromisso com os valores, os princípios e uma ação política inteligível, lógica e sustentável, com a crescente redução da margem de tolerância popular em relação ao exercício político, apesar das sondagens, e o cansaço resultante do contexto pandémico, persistir na bandalheira, na ação sem senso e na explicação insultuosa do inexplicável é alimentar um caldo de cultura para o disparate de circunstância e os impactos estruturais no Estado de Direito Democrático.

A realidade é complexa, não precisa que a compliquem ainda mais, montados em pretensas garantias de que a soma das insuficiências gerais é que baste para a manutenção do poder. O problema, adensado pelo contexto pandémico e pelas dificuldades que medram por aí, é que quando a insatisfação tiver maior expressão já será tarde para reagir e intervir sobre o essencial. Até lá prosseguirá o exercício e a multiplicidade de expectativas. Uns que a bazuca chegue aos seus quintais, outros que os apoios à atividade cheguem às suas geolocalizações e alguns à espera que o poder lhes caia nas mãos de podridão.

A bandalheira, para além da falta de liderança e do deslaçar institucional, evidencia o cansaço popular com a pandemia e um ambiente de fim de festa do exercício político. Ambos são péssimos sinais para o interesse geral. Mas, isso pouco importa.

NOTAS FINAIS

ESTÃO A MATAR A PROXIMIDADE. A proximidade é uma das vítimas do contexto pandémico. Estamos a assistir a graduais reduções das respostas de proximidade a partir da mitigação dos impactos negativos da pandemia nas atividades económicas. Para além de não podermos estar tão próximos uns dos outros como estávamos, os bens e serviços estão a afastar-se das pessoas. No tempo e no espaço. O anúncio de que mais 2500 trabalhadores poderão deixar a banca, significará inevitavelmente serviços mais digitais e mais afastados fisicamente das pessoas nos territórios, com uma crescente população envelhecida, ainda que cada vez mais comprometida com as tecnologias.

LET’S LOOK AT THE TRAILER. A República e a Democracia são pilares importantes da Nação. Houve muita polémica a propósito da nomeação de um Comissário para os 50 anos do 25 de Abril, do seu estatuto remuneratório e dos recursos ao dispor para as comemorações da gesta da Democracia. Pois não houve uma alminha que comparasse este impulso com a Comissão de Comemoração do Centenário da Implantação da República, em que os dirigentes recebiam apenas senhas de presença pela função.

Ó INFORMAÇÃO DRAMÁTICA! Para um partido no governo, as autárquicas são, no subconsciente, umas eleições menores. Nada, a consciência ou a inconsciência, justificam o espetáculo deplorável que a liderança do PS está a dar no Município do Porto. Todos eram candidatos, nenhum é candidato. Uns tinham cadastro por terem feito opções políticas internas em disputas de liderança, outros só currículos. Só resta ao Eurodeputado do Porto renunciar ao mandato e dedicar-se de corpo e alma à candidatura de resgate da Câmara. Sem cadastro, só pelo currículo.

Escreve à segunda-feira

 


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