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Luís Mira. "Diabolizar a agricultura são discursos ideológicos dos partidos para ganharem votos"

Luís Mira. "Diabolizar a agricultura são discursos ideológicos dos partidos para ganharem votos"

Miguel Silva Sónia Peres Pinto 28/05/2021 14:27

Para o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), muitos dos problemas que o setor enfrenta não são reais ou científicos, mas ideológicos e até religiosos.

Até que ponto a pandemia afetou o setor?
A pandemia afetou imediatamente alguns setores agrícolas, como as flores, os queijos, os leitões e outros, onde houve uma quebra de vendas, mas é um facto que em 2020 o setor agroalimentar acabou por aumentar as vendas. Aqueles que estavam ligados aos supermercados – vinhos e hortícolas – aumentaram o seu negócio. Há alguns casos em que não foi assim, dentro do setor do vinho quem fornecia a restauração e o Canal Horeca registou quebras grandes. Já quem fornecia os supermercados apresentou uma subida de vendas, há casos de aumentos de 15 e 20% porque as pessoas consumiram mais.

Os portugueses não iam aos restaurantes, mas iam aos supermercados. Temos de comer todos os dias, pelo menos duas vezes, e a crise veio demonstrar isso. Ou seja, mostrou que podemos deixar de viajar, de ir ao cinema, deixar de fazer muitas coisas, mas não podemos deixar de comer. Acho que isso foi muito importante para os setores não agrícolas entenderem do ponto de vista económico a capacidade de resistência e de resiliência deste setor, que não só resistiu à crise financeira de 2008, como agora deu provas claras em todo o mundo de que resistiu à crise pandémica.

Isto quando setores que eram muito mais rentáveis e em grande crescimento – como é o caso da aviação – de um momento para o outro colapsaram. O mesmo aconteceu com os hotéis e com inúmeras outras atividades. O setor agrícola, que para muitos ocupava um lugar de parceiro pobre, acabou por mostrar que afinal tinha uma característica que se desconhecia e que advém da necessidade dos seres humanos de comer. 

E deu resposta a este aumento da procura...
Houve uma crise enorme à escala mundial e não houve falta de alimentos. No princípio as pessoas correram para os supermercados, como acontece sempre quando há estas situações, mas não havia necessidade nenhuma. Foi o que aconteceu com os enlatados e com o papel higiénico, não consigo perceber porquê. Correram para as prateleiras e depois ficaram com os produtos em casa. O sistema de alimentos na Europa funcionou bem. Criaram-se corredores verdes para a sua circulação e não houve nenhum problema.

Convém lembrar que o setor agrícola europeu está muito limitado à evolução tecnológica, nomeadamente na questão de manipulação genética, mas agora vieram as vacinas manipuladas geneticamente e todos fazem fila e até querem passar à frente para serem vacinados. Os consumidores têm de ser coerentes. Se são contra a manipulação genética têm de ser sempre, não é só quando lhes dá jeito e é um jeito que não tem nenhuma base científica. É uma questão de ideologia e hoje muitos dos problemas que o setor agrícola enfrenta não são problemas reais ou científicos, são problemas ideológicos, diria até religiosos.

Hoje as pessoas não estão nada preocupadas com a agricultura, mas estão preocupadas com a alimentação, com a saúde e com as alterações climáticas, mas depois querem opções que são contraditórias. Algumas pessoas são contra o plástico, querem substituí-lo pelo papel – aliás, a União Europeia já tomou decisões nesse sentido –, mas depois são contra os eucaliptos. E esquecemo-nos que o plástico já veio substituir o vidro. 

Mas durante o confinamento com vendas take-away e ao postigo esta “guerra” ao plástico ficou um pouco esquecida....
Porque não convinha. É a tal incoerência. Mas posso dar mais exemplos. As pessoas são contra as produções em estufa, em Odemira, porque acham que causa um grande problema na paisagem, mas só é visível se andarem de helicóptero porque a maioria das estufas não se vê de lado, só se vê de cima. As imagens que vê na televisão são de drones. Mas depois querem comer tomate cherry e saladas. Tanto as saladas como os tomates cherry surgem daquele tipo de produção. Afinal o que queremos? Queremos ter uma alimentação com esses parâmetros? É aí que são produzidos.

Todos os agricultores, em primeiro lugar, pretendem ter uma agricultura o mais sustentável possível, caso contrário não conseguem passar a exploração ao seu descendente. Uma estufa com hidroponia talvez seja um exemplo de sustentabilidade plena: é um sistema fechado, os ingredientes que coloco na água voltam a entrar no ciclo, não perco nada. Nem sequer uso terra, as plantas estão colocadas num sítio, onde recebem a água e os alimentos que necessitam.

Não sei qual é a solução que os cidadãos têm para alimentar o mundo. Não nos podemos esquecer que em 2050 prevê-se que haja 10 mil milhões de habitantes com mais poder de compra do que tiveram no passado, isso vai obrigar a produzirmos mais 70% dos alimentos que produzimos hoje. Ora, a terra não se fabrica mais e não vamos começar a destruir parques naturais para pôr culturas.

A única forma de alimentar estas pessoas é termos uma agricultura baseada em conhecimento cientifico e em tecnologia que consiga produzir mais na mesma área. A área de superfície agrícola do globo é de 3,5% e não se fabrica mais terra. Então temos de produzir mais, causando menos danos possíveis e aí o conhecimento científico tem evoluído muito. Há 20 anos quem falava em carbono? Ninguém.

De certeza que a ciência vai encontrar soluções para alterar a alimentação das vacas e vamos assistir a isso nos próximos 10/15 anos. A tecnologia já existe, não está é ainda aplicada em toda a sua plenitude. Temos um grande desafio pela frente que é a digitalização no setor.

O que é que isso vai provocar?
Vou ter sensores, meios de deteção, quer seja através de um drone, quer seja através de um satélite, que me vão dar dão informações sobre um campo. Imagine um campo de futebol multiplicado por 100, em que consigo tratar dentro de um campo de futebol metro quadrado por metro quadrado. Hoje não tenho tecnologia para isso. Tenho máquinas, semeadores, mas são mecânicos, não são digitais. Não conseguem alterar a sua forma de agir sobre o terreno metro quadrado por metro quadrado porque não têm informação para isso.

Preciso de ter uma gestão de dados que são fornecidos pelos satélites, pelos sensores, etc., um equipamento que traduza essas informações e que as coloque no campo. Em termos de tratamento é como se recuássemos 100 anos quando se trabalhava com muita gente no campo e se tratava das plantas com uma enxada pé por pé. Vai ser mais ou menos assim, mas com muito mais informação. 

Vamos assistir a uma verdadeira revolução?
Exatamente. Vou poder, por exemplo, determinar a condutibilidade elétrica de um campo, o que é fundamental para a absorção dos nutrientes das plantas e, com isso, consigo gerir o adubo que lá vou pôr de uma forma como nunca consegui.

Um exemplo prático, um agricultor com quem falei há dois ou três meses disse que na sua exploração que está muito evoluída – nem todos são assim, infelizmente – os tratoristas deixaram de preencher folhas. Todos têm um smartphone, em que colocam os litros de gasóleo que utilizam, o que fizeram naquele dia e essa informação vai parar a um escritório para ser recolhida. Tinha um tratorista que não se adaptou, não conseguiu pegar num smartphone e importar um ficheiro e foi-se embora.

Garantiu-me que todas as pessoas que lá trabalham têm de saber, pelo menos, exportar um ficheiro porque se há uma rutura num tubo, isso é marcado no WhatsApp com um alfinete e a pessoa que faz a reparação não precisa de falar com o tratorista, já sabe onde é que vai ter de ir fazer a reparação. E sabe-se à hora que ele comunicou a rutura e à hora que o outro foi recuperá-la.

Nem todos os trabalhadores poderão estar preparados para isso...
Mas veja a poupança que isso dá em termos de custos. Deixo de ter folhas para saber quanto tempo gastei naquela parcela, quanto adubo gastei, etc. Há aqui uma verdadeira revolução e os próximos anos vão ainda trazer mais. O 5G vai trazer uma quantidade de soluções que não existiam até hoje porque a tecnologia não permitia isso, mas para isso é preciso investir.

A CAP tem estado a sensibilizar os poderes públicos para a necessidade de pôr o 5G nas zonas rurais, caso contrário não consigo usar essa tecnologia. Porquê? Porque não é rentável para as operadoras porque nessas zonas têm pouco tráfego, mas se não for assim, o interior fica cada vez menos desenvolvido face às grandes cidades porque aí há muitos clientes para o 5G. A tecnologia vai mudar profundamente o setor. Nos últimos 30 anos assistimos à mecanização na agricultura e foi por isso que se assistiu à grande alteração do olival em Portugal. Agora há uma máquina que apanha a azeitona, se não tínhamos de ter milhares e milhares de pessoas para apanhar aquelas áreas do olival.

Esse sistema conseguiu-se implementar porque também houve um sistema de rega que permite que as árvores cresçam, produzam mais, em que a poda é feita com umas facas que cortam a eito. No futuro, mesmo para as situações que temos necessidade de mão-de-obra de imigrantes existirão robots. Há equipamentos que ainda hoje não estão mecanizados porque obriga a um certo direcionamento para apanhar as framboesas e os mirtilos, que são frutas muito sensíveis. Por isso, nos próximos anos vamos precisar de muita gente da robótica, de gestão de base de dados.

Outra tecnologia que já existe e que estará ao serviço da agricultura nos próximos anos é a chamada realidade aumentada. Entro numa vinha ou num pomar com uns óculos de realidade aumentada e diz-me quais são as doenças que a vinha tem, quais as carências de nutrientes que tem. No fundo fazem-me um aconselhamento técnico porque passa a existir a ligação dessa tecnologia a uma base de dados que tem todas as doenças catalogadas. Nenhum técnico consegue fazer isso. Estamos a um passo de a aplicar.

Mas parte dessa tecnologia ainda não é usada por falta de informação ou por falta de capacidade de investimento?
Vai começar pelos empresários que têm maior capacidade de fazer isso. Conheço um agricultor que comprou um semeador que distribui a semente e o adubo consoante a informação de metro quadrado por metro quadrado. Viu essa técnica a ser aplicada em França, comprou a máquina porque tinha um representante em Portugal, mas quando quis começar a trabalhar com aquilo ninguém em Portugal sabia, teve de vir um técnico de Espanha para pôr a máquina a funcionar.

Este é um processo que vai evoluir nos próximos anos. Os países que conseguirem ir à frente nesta revolução digital serão aqueles que serão mais competitivos e que irão ganhar. Portugal é muito avançado na banca e nos serviços bancários, mas isso não é só necessário nesse setor. É necessário em toda a economia. O problema é que Portugal não tem uma estratégia em termos económicos. Um dia falamos no turismo, no dia a seguir falamos no têxtil, a seguir é o mar, para depois falarmos no hidrogénio. Pergunto: qual é a estratégia que o país tem? Em que é que nos vamos especializar? Onde é que vamos ser bons? Se calhar é só para produzir futebolistas porque temos escolas de formação.

Mas se calhar nas outras áreas seria importante haver uma estratégia nacional e depois aparece um programa como o PRR [Plano de Recuperação e Resiliência], em que a agricultura está esquecida. Mas não só, toda a economia está esquecida porque Portugal não tem uma estratégia, e não é um problema deste Governo. É deste e de outros Governos. Andamos a executar projetos da década de 50.

O Alqueva é da década de 50, a proposta que foi feita no PRR para a barragem é de 57, o novo aeroporto está previsto desde o final de 60 ou 70 e ainda não se fez. Estamos em 2021 e ainda não sabemos onde é que o vamos fazer. Esta ligação de Sines que vai agora avançar estava prevista há 50 anos. Estamos atrasados 70 anos face aquilo que eram os planos de há 70 anos e o que constato é que não há nenhuma estratégia. 

A ausência da agricultura no PRR foi esquecimento ou falta de estratégia? 
A agricultura não é importante para os Governos. O único período de exceção, em que a agricultura teve alguma notoriedade foi quando o CDS foi Governo e o vice-primeiro-ministro falava na lavoura. Há quantos anos não ouve um líder do PSD ou do PS na Assembleia da República a fazerem um discurso sobre agricultura? Não estou a falar dos deputados, também era o que faltava. E porque é que não falam? Não falam porque rende poucos votos. Se existisse um método em que os votos não se perdessem e fossem contados no ciclo nacional, garanto-lhe que a agricultura arranjaria um partido político.

Agora assim não faz sentido, as pessoas que estão no mundo rural por mais votos que se tenha não conseguem eleger um deputado porque esses votos são perdidos através do método Hondt, mas se for um partido urbano com 130 mil votos já conseguem eleger um deputado. E isso reflete-se no modo de vida urbana que é imposto aqueles que têm um modo de vida rural e não conseguem no sistema democrático existente uma forma de serem representados.

Essa imposição vê-se com a polémica em torno do consumo da carne de vaca e na ideia de criar uma taxa extra para este consumo?
Isso são as tais religiões. Vamos admitir por absurdo que não existiriam vacas para comer o pasto em Portugal. Há mais de um milhão de hectares de pastagens em Portugal. O que é que aconteceria a essas áreas? As pessoas pensam em deixar de comer carne, mas isso faz parte de um ecossistema.

É evidente que não pode haver uma exploração excessiva, mas Portugal isso não existe. Hoje fala-se, porque foi o nome que assim foi definido, do olival super intensivo, mas do ponto de vista cientifico e técnico é o que consegue ser mais sustentável e eficiente do ponto de vista produtivo. Alguns ignorantes dizem ‘esta cultura gasta muita água’, mas não consigo produzir um quilo de alimento sem ter 800 gramas de água porque esse alimento é constituído em 80%, tal como o nosso corpo, por água.

E algumas pessoas que dizem isso depois criticam Portugal por não produzir e por importar?
As pessoas criticam tudo. Quando andei na universidade fiz um trabalho sobre o eucaliptal na serra de Monchique e só faltou dizer que os eucaliptos tinham radioatividade porque secavam a água, estragavam o solo, etc. Mas ao longo da minha vida profissional já vi arrancarem eucaliptais e a colocarem lá hortícolas, vinha e produz exatamente igual aos outros solos, isso é uma ideologia que não tem nenhuma razão de ser. É verdade que quando há um eucaliptal depois por baixo não crescem muitas coisas porque está à sombra, mas não é verdade que o solo fique esterilizado, isso é mentira.

O que se diz hoje dos olivais também é mentira. Gastou-se em dinheiro público 2500 milhões de euros para fazer o Alqueva. Foi feito para quê? Para pôr lá peixes? Não. Foi para termos uma reserva de água. Aquilo sim é um exemplo de coesão territorial. Não conheço nenhum projeto na Europa que tenha tanta coesão territorial como aquele: trouxe pessoas, fixou populações jovens porque precisa de técnicos e pouco trabalho braçal e trouxe uma riqueza que não existia naquela zona. Se não existisse aquele lago era como ir a Barrancos e ver aquele semi-deserto. Parece a Namíbia.

Não consigo perceber porque é que as pessoas criticam esse projeto. Então fez-se um investimento público e qual era a cultura mais adaptada àquelas circunstâncias a não ser o olival, que é uma cultura mediterrânica e vai ao encontro das nossas características de solo e de clima? Acho que é mais um complexo da esquerda que vê no olival um projeto ligado ao grande capital, vê espanhóis, vê empresas a ganharem dinheiro e entende que esse é um foco a abater.

Há outra coisa que não consigo entender: o país só pode combater as suas desigualdades sociais e ter um nível de vida melhor se houver empresas que criem riqueza, não é aumentar impostos, aumentar impostos porque se não ninguém paga. Temos de ter empresas que gerem riqueza, temos que utilizar os nossos recursos naturais de uma forma sustentável. Ninguém é mais sustentável do que os agricultores.

Não me venham dar lições de sustentabilidade e não vamos partir para o absurdo do ‘não quero isto e a consequência de não querer isto não é nenhuma’. Se não tiver o Alqueva tenho de ter lá outra coisa qualquer. E tudo tem um impacto, uns de uma forma, outros de outra. Agora diabolizar a agricultura e diabolizar este tipo de exploração só porque se chamou de super intensiva porque produz muito, isso é um desconhecimento total do ponto de vista técnico, científico e da realidade do trabalho que se realiza naquelas zonas. São tudo discursos ideológicos e os partidos para ganharem votos dizem tudo. 

Acha que houve um aproveitamento político do que se passou em Odemira?
O Governo sabia disso. A CAP em 2019, já depois de muitas coisas, fez uma sessão com a atual secretária de Estado da Imigração, de caracterização da situação. A migração não é um problema de Odemira, existe em todo o país. Há no Fundão, no Oeste, no Douro, há em todo o lado. Em Odemira há é um bocadinho mais de gente, pois há mais trabalhadores. O que falhou aqui? Primeiro, o Governo sabia muito bem de tudo isto; segundo, as empresas pediram autorização para construírem casas nas suas propriedades e foi-lhes dito que não porque estavam numa zona protegida.

Mas antes de ser uma zona protegida já existia o Perímetro de Rega do Mira há 50 e tal anos. Ou seja, em cima desse perímetro, o Estado português definiu um parque natural. O perímetro de regra tem previsto regar 12 mil hectares e está a regar sete mil, está longe da sua capacidade máxima. É como a onda da Nazaré que existe há milhares de anos e ninguém a viu. Foi preciso o McNamara descobrir a onda, até aí iam todos para o Havai surfar a maior onda do mundo, quando afinal a maior onda estava na Nazaré.

Os pacóvios dos portugueses nunca viram a onda da Nazaré. Não nos podemos esquecer que o sudoeste alentejano tem as características ideais para produzir frutas hortícolas. As características para a produção de framboesas, de mirtilos e de amoras são fantásticas naquela zona e, por isso, são muito aproveitadas. Não sei se sabe mas a relva do Real Madrid e de Wembley é feita ali.

Não faz sentido estar a produzir cereais naqueles terrenos, até podemos produzir, mas não temos condições naturais para isso. Os produtos hortícolas, a vinha ou o olival já estão a ser produzidos ali há milhares de anos, agora como a tecnologia evoluiu está-se a fazer a produção de uma forma moderna. Qual é o problema? 

Mas há um grande recurso à imigração para a mão-de-obra. Não há portuguesa?
Não há portuguesa e parece que Portugal não foi um país de emigrantes. Como se há 40 ou 50 anos não fomos para França fazer aquilo que os franceses não queriam fazer. O que é que acontece? Um emigrante quando vai trabalhar para um país não quer descansar à sexta, sábado e ao domingo. Quer trabalhar ao máximo porque o foco dele é ganhar o mais que conseguir.

O objetivo do emigrante português era conseguir construir uma casa em Portugal – podia trabalhar em França, na Alemanha uma vida inteira mas vinha morrer em Viseu, onde tinha nascido – mas estes imigrantes são diferentes. Estão a trabalhar em Portugal e o objetivo deles é trazer a família para cá. Não querem fazer a casa no Nepal. E quando vêm para cá trabalhar não vão arrendar uma casa com piscina, querem ter o mínimo de custos. E os militares que estão à guarda do Estado português dormem aonde para fazer as ações de campanha? Não dormem em camaratas? Então as pessoas que vêm para cá trabalhar por seis ou oito meses vão estar a pagar mais custos para viverem um em cada quarto? Só se as pessoas não quiserem entender o que estamos a falar. 

Assistimos a imagens de casas sem condições nenhumas de habitação...
Não estou a dizer que não há casos desses. Mas os casos bons a comunicação social não quis mostrar. Já vi contentores, não são assim em todas as empresas, em que alguns têm ginásio, com duas pessoas por cada contentor e com ar condicionado. Não dormem assim nem no Nepal, nem no Bangladesh. Vá ver as obras que estão a ser feitas na ponte desta nova ferrovia que estão construir e veja os contentores que lá existem, não têm essas condições. Há necessidade de mão-de-obra para realizar essas tarefas e não há cá mão-de-obra para isso.

O que deveria existir era existir um convénio entre Portugal e a Índia, entre Portugal e Nepal, para que não fosse necessário existir esta negociata com os vistos de trabalho e aí quando Portugal dissesse que precisava de 10/15 mil trabalhadores durante x período, o Estado poderia controlar isso, isto se o Estado fizesse alguma coisa de útil para as empresas. Nesse caso, as empresas dirigiam-se ao Estado e diziam: “Precisamos de 15 mil trabalhadores”. E através do convénio as pessoas poderiam candidatar-se, sem terem de estar a pagar comissões a ninguém, nem a porem-se na mão das máfias. 

Tudo isto abriu portas a uma rede ilegal de imigração...
Com certeza. A pessoa está no seu país desesperada, não tem como ganhar a vida e parece lá alguém que lhe diz ‘dá-me 10 mil euros que eu arranjo um contrato de trabalho’. Essas empresas é que têm de ser controladas. Porque é que eu, como empresário agrícola, tenho de saber onde os meus trabalhadores dormem? Não tenho responsabilidade nisso. O Estado que fiscalize.

Aliás, a CAP pediu à ministra do Trabalho que nos desse os dados das fiscalizações de Odemira, onde foram feitas 4600 fiscalizações e foram detetados 135 casos irregulares. A maioria deles sabe do que é que se tratava? Eram casos de medicina de trabalho. Pergunto se o Estado quando contrata alguém para fazer uma tarefa vai à medicina do trabalho primeiro? A montanha pariu um rato. 

Mas a ACT detetou casos de escravatura...
Somos contra esses casos de escravatura. As empresas que trabalham em Odemira exportam para o Reino Unido e para os países do Norte da Europa, a maioria delas tem contratos duríssimos com os fornecedores sobre condições de trabalho e eles vêm cá verificar se isso é verdade ou não. Estou a falar dos associados da CAP, não sei dos outros, mas estes que exportam 200 milhões têm um número de telefone que está espalhado em vários sítios que atendem em inglês para o caso de existir algum maltrato na questão laboral. Isso é condição para acabar o contrato.

A Harrods não quer ver nos tabloides ingleses que vende fruta proveniente de mão-de-obra escrava. As empresas perderam alguns milhões de euros naquele período de cerca sanitária, em que não conseguiram apanhar a fruta e ainda tiveram de enfrentar o perigo de aparecerem outros fornecedores e com isso perderem o contrato. Felizmente isso não aconteceu. Mas em Odemira não preciso de falar da atuação do ministro da Administração Interna, não preciso falar da ausência da ministra da Agricultura. Ainda bem que o primeiro-ministro deitou a mão e resolveu isso. 

Dá cartão vermelho à ministra da tutela?
A ministra aceitou ser ministra perdendo a pasta das florestas, aceitou ser ministra não aparecendo nesta crise de Odemira, em que o setor agrícola era indecentemente atacado e se fica uma imagem que não é a verdadeira. A culpa maior, na minha opinião, é da própria Câmara de Odemira, que não encontrou uma solução. Queixam-se quando são zonas despovoadas, quando têm lá pessoas queixam-se que têm gente a mais e não criam soluções. 

É uma imagem que vai demorar a recuperar?
Vai. Apareceu, por exemplo, o presidente da Câmara do Fundão a dizer que a autarquia tem uma instalação para 200 pessoas que vão apanhar a cereja porque é fundamental para o seu concelho. O presidente de Odemira não teve essa visão, nem teve a capacidade de chamar empresários para construírem casas e, assim, comprometia-se em arranjar pessoas para essas casas, desde que o preço fosse razoável. Essa é que é a função de um autarca. Não podem pôr esse ónus sobre o setor agrícola. Não estou a dizer com isso que a ACT não tenha apanhado casos, mas isso é uma responsabilidade das empresas que fazem esse serviço. Estas pessoas trabalham em Odemira, depois vão para o Algarve, depois para o Oeste, sempre que há período sazonal. Não é precário como diz a CGTP.

Era uma situação que poderia ter sido evitada?
Acho que a situação foi exacerbada e acho que tem de haver um controlo sobre as empresas que prestam esses serviços. Têm de ser encontradas soluções locais para albergar essas pessoas: camaratas dignas. Mas as pessoas que iam apanhar uvas para França tinham casas com piscina? Não, eram camaratas. As pessoas estão em Odemira com um objetivo: ganhar o máximo dinheiro possível. Podem nem trabalhar ao fim de semana para a minha empresa, porque isso nem sequer é legal, mas depois vão para a empresa do lado porque querem ganhar mais dinheiro e, como empresário, não posso impedir.

Numa pessoa que vai para o estrangeiro e deixa tudo para trás o foco é ganhar o máximo possível. E também é preciso pensar em que condições é que essas pessoas vivem no Nepal. Já foram a casa dele no Nepal? Quantas pessoas lá vivem? Quantas pessoas vivem na mesma casa no Bangladesh? E na Índia? Não estou com isso a dizer que é tudo uma maravilha, mas também não é a miséria que se viu nas imagens que não é a maioria dos casos. É uma minoria que não devia existir, mas os tipos de Odemira também ganharam muito dinheiro com aquilo. Viram rendas que nunca tinham visto antes na vida deles. 

Outra questão diz respeito à mudança da gestão dos animais do ministério da Agricultura para o Ambiente. Como viu essa alteração? 
Isso foi fruto daquele episódio dos animais de companhia que existiu no Norte, um incêndio que matou 73 animais em Santo Tirso. Também gostava que as pessoas pensassem quem é que guarda cento e tal cães juntos. Já vi uma reportagem em que esses animais eram enviados para a Alemanha e que cada um rendia 600 euros. Aquilo tinha ali um negócio qualquer por trás, com a capa dos amigos dos animais.

No entanto, despoletou uma série de reações de partidos a dizerem que não havia competência para fiscalizar aquilo, quando aquele abrigo pertencia a um tipo do PAN. Isso levou a que o primeiro-ministro dissesse que a DGAV ficava sem a tutela dos animais de companhia e criou o chamado provedor do animal. E é aqui que começa a política, inicialmente era só para os animais de companhia, mas como o Governo precisou do PAN para aprovar o Orçamento de Estado acabou por ceder e afinal o provedor é para todos os animais.

É mais uma perda de ação do ministério da Agricultura e é um equívoco desta gente do PAN porque as regras para o bem estar animal de todas as espécies pecuárias estão definidas em regulamentos comunitários, há manuais de bem estar animal obrigatórios, o pagamento das ajudas da PAC está condicionado ao cumprimento dessas regras: identificação, condições de alojamento, etc. Um agricultor para transportar os seus animais tem de frequentar um curso de transporte de animais e tem de ter uma licença para isso, senão não o pode fazer. E, enquanto isso, as pessoas têm os animais de companhia em casa, fechados numa varanda ou numa cozinha enquanto vão trabalhar.

Aqui não há nenhumas regras, nem nenhum manual de boas práticas para os animais de companhia domésticos que vivem nas grandes cidades. Isto sem falar nos movimentos vegan e outros contra o consumo de carne e vai ser mais um outro choque entre o mundo rural e o o mundo urbano. 

E com esta mudança, o Ministério da Agricultura fica cada vez mais vazio...
Se calhar o Ministério da Agricultura já desapareceu e não demos por isso. Daqui a bocado é o que acontece. Agora caberá ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) esta tarefa e com a criação do provedor do animal, quando houver alguma situação destas é reportada ao instituto que também ficará responsável pela fiscalização do bem estar animal. Isto é uma grande confusão. Acho que é uma questão de tempo para ser revertido. A questão do bem estar e da saúde animal está ligada à saúde humana e isso tem de ter técnicos. O ICNF não tem nenhum veterinário e agora ficou com a tutela dos animais. 

E com isso também se apertou o cerco à caça e que piorou com a situação que se viu da Torre Bela? 
Aquilo não é caça nenhuma. Não se caça o que já se está caçado. Se os animais estão fechados dentro de um sítio que tem uma cerca não é caça. Aquilo aconteceu porque queriam implementar lá painéis solares e era preciso fazer desaparecer os bichos todos. Depois tornou-se público porque o organizador é um exibicionista e pôs as fotografias. Não devia ter sido feito assim, não tem nenhum interesse, e digo-o como caçador. Aquilo não é caçar, é atirar. 

Mas pode pôr em causa o resto?
Põe porque mancha a imagem. A caça hoje é uma atividade que tem de ter um triângulo entre o agricultor que alimenta a caça, o ambientalista que faz os censos e define qual é o controlo que tem de ser feito sobre essa espécie e o caçador que faz esse controlo. Este é o futuro sustentável da caça, não há outro. Por exemplo, se não caçarmos os javalis qualquer dia chegam às cidades e se algum miúdo for atacado por um javali vamos ver o que é que vai acontecer.

As pessoas acham sempre que os animais selvagens são de peluche, mas não são. Para se chegar a este ponto de equilíbrio tem de haver uma gestão, não é o caos e o deixar andar que vai resolver. E enquanto isso os javalis continuam a multiplicar-se. Quem é que os controla? Assobia-se para eles se irem embora ou o ambientalista vai lá espantá-los à noite?

Vimos recentemente javalis na praias em Setúbal...
E não há mais na praia porque uma associação de caçadores da zona, só no ano passado, abateu 320 ou 330, senão a esta altura já havia javalis em todo o lado. É isso que as pessoas não percebem. Para se chegar a este ponto de equilíbrio, a esta sustentabilidade tem que haver gestão. 

O mesmo se aplica às touradas?
É diferente. É uma questão cultural e para se entender as touradas tem de se perceber como é que tudo isso se processa. Antes de ir a uma tourada tem de perceber. As touradas são um tipo de atividade que, apesar de vivermos numa era digital, não tem nenhum dispositivo tecnológico.

Os toureiros não têm nenhuma proteção de lado, não têm nenhum sensor. É um confronto entre o homem e o animal com um bocado de pano pelo meio, não há mais nada. Não sei se sabe, mas se os touros forem toureados uma vez já não podem ir uma segunda vez porque aprenderam e não marram no capote, marram diretamente no toureiro. Os touros não marram no encarnado porque veem a preto e branco, marram no que mexe.

As capas só são encarnadas por causa do sangue do touro, se fossem brancas já viu o espalhafato que era? E se fossem escuras não tinham piada. Há ali um conjunto de situações, de procedimentos, de técnica e de reações. Acabam as touradas, acabam-se os touros, ninguém mais vai querer os ter. Vão para o Jardim Zoológico quatro ou cinco, os outros desaparecem e ninguém quer saber deles. 

Por último, em relação à limpeza das florestas. Chegou a dizer que limpar florestas não é a mesma coisa que limpar cozinhas... 
E mantenho. 

Não se aprendeu nada com os incêndios de Pedrógão?
Pedrógão foi um erro crasso de autoridades, que mandaram as pessoas para um lado quando deviam ter enviado para outro e depois morreram no meio do fogo. Hoje existem faixas de proteção, mas à volta das aldeias, essas limpezas têm de ser pagas pelo desgraçado do protetor florestal que tem essa área. Se limpasse uma vez e ficasse sempre limpo seria bom, mas passado dois ou três anos tem fazer tudo outra vez e não tem rendimento para isso.

Se queremos ter um sistema para proteger uma aldeia então temos todos de pagar. Por exemplo, tenho um terreno que calha na faixa e o seu não, você não tem despesa nenhuma e eu tenho de limpar todos os anos, o que representa uma despesa. Daqui a uns anos vai haver gente que vai oferecer os terrenos ao Estado. 

Caso contrário arriscam-se ao pagamento de multas...
É muito engraçado haver multas, já viu o que seria se cada pessoa tivesse que pagar um polícia à porta de sua casa ou se tivesse de pagar a segurança que é feita nas escolas? Todos pagamos isso, mas aqui, o que se está a pedir é que seja eu a pagar por ter tido o azar de ter a minha floresta à porta da escola. Mas porquê? O sistema não é para defender a comunidade? Então tem de pagar porque quando são as faixas primárias é o Estado que paga, as secundárias não, é o desgraçado que tem de pagar. A sustentabilidade é muito bonita, mas isto não é sustentável. 

Qual seria a solução?
O Estado empurrou isso para as autarquias que fiscalizam, mas isso não é nada. Tem de se encontrar uma solução. São as autarquias que têm essa responsabilidade? São as juntas de freguesia que têm de fazer essa limpeza? Mas também é preciso indemnizar com qualquer coisa porque não posso fazer nada nesse terreno. Então quando se constrói uma estrada, uma barragem não indemnizam porque estão a utilizar esse terreno? Então fazem ali uma ação e fico a ver? Mas porquê? Com que legitimidade é que o Estado me faz isso? Tem de haver um esforço coletivo.

Dizem ‘porque antigamente as coisas estavam limpas’. Nem posso ouvir isso porque as pessoas há 70 anos viviam miseravelmente e no inverno tinham frio de morte e apanhavam tudo o que havia no chão para queimar no fogão, por isso é que não havia nada para arder. Felizmente que o nível de vida subiu e as pessoas não estão nessas condições. 

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