Saraiva da Cunha. “O próximo inverno vai ser decisivo”

Saraiva da Cunha. “O próximo inverno vai ser decisivo”


Médicos portugueses reúnem-se hoje no Congresso Pandemias na Era da Globalização. É a nona edição, mas a covid-19 surpreendeu até os mais experientes e ainda não acabou, alerta Saraiva da Cunha, presidente do encontro e diretor do serviço de doenças infecciosas do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.


O diretor do Serviço de Doenças Infecciosas do Centro Hospitalar de Coimbra preside hoje e amanhã ao 9º Congresso Pandemias da Era da Globalização, um encontro promovido desde 2004 pela Associação para o Desenvolvimento da Infecciologia. É online, mas nunca teve tantos inscritos: 250 médicos e investigadores de todo o país e PALOP.

O último encontro foi em 2019, antes da pandemia de covid-19 virar o mundo do avesso. “Não será seguramente a última”, diz José Saraiva da Cunha, que acredita que os desenvolvimentos terapêuticos em torno do SARS-CoV-2 podem vir a beneficiar outras doenças como VIH, inclusive a acelerar a vacina que se espera há 30 anos.

Defende que as máscaras deviam continuar a ser usadas no inverno, pelo menos nos hospitais. Refreia o otimismo em torno da vacinação como solução imediata para a pandemia e coloca a prova dos nove no próximo inverno. Sem certezas, não descarta que voltem a necessários confinamentos a uma escala regional.

A última vez que organizaram este congresso foi em 2019. Na altura já havia a preocupação em torno de uma pandemia de grande escala como tem sido esta?
Há sempre essa preocupação. Mesmo agora continua a existir porque esta não será seguramente a última. Na altura, as preocupações eram sobretudo a gripe das aves e começava-se a falar do risco de disseminação do coronavírus do Médio Oriente, do MERS, ligado aos dromedários e com uma casuística reduzida na transmissão entre pessoas. Desde que começámos em 2004 estes congressos, de dois em dois anos, invariavelmente havia alguma coisa nova em cima da mesa. Felizmente a maior parte abortaram, mas outras não.

Do que discutiam, a comunidade médica estava suficientemente ciente do risco? Havia preparação?
Da gripe A em 2009 ficaram algumas planos de ação. Muitas das coisas que se fizeram foram buscar as bases a esse trabalho. Mas julgo que ninguém estaria preparado para imaginar uma pandemia com uma escala desta grandeza. A última pandemia que tivemos com uma escala semelhante a esta foi a epidemia de VIH e não ocorreu num espaço de tempo tão curto, foi acumulando-se ao longo dos anos. Num espaço de tempo tão curto, eu que já não sou assim tão novo, nunca tinha assistido a uma pandemia com estes números a nível global.

Tem havido uma grande polarização entre essa leitura e quem acha que houve um exagero para o que é a letalidade desde vírus. Focando neste inverno, até que ponto foi mais exigente num hospital do que um ano de gripe normal?
As pessoas que perfilham essas ideias lucrariam muito em visitar serviços que tiveram que lidar com a covid-19 e ouvir as pessoas que lá trabalham. No Centro Hospitalar Universitário de Coimbra chegámos a ter perto de 500 doentes internados só com covid-19, 18 enfermarias dedicadas exclusivamente a estes doentes. É uma dimensão nunca vista. Numa época de inverno típica, em que sabemos que nos meses de janeiro e fevereiro temos doentes com gripe, agudização das doenças respiratórias, habitualmente temos camas no nosso serviço de infecciologia alocadas à gripe e fora do nosso serviço temos mais uma enfermaria com 30 camas e, em anos muito maus, 70 camas, é o máximo que já tivemos. Desta vez chegámos a perto de 500, não tem nada a ver.

Na doença, o que o surpreendeu mais?
Há várias surpresas que esta doença nos provoca no dia-a-dia. A gripe é uma patologia que envolve basicamente o sistema respiratório. Claro que pode complicar-se uma vez ou outra com patologias fora do sistema respiratório, mas não com a frequência e com a dimensão com que acontece nesta doença. Embora o coronavírus seja considerado um vírus respiratório na prática é um vírus que provoca uma doença sistémica que envolve praticamente todos os órgãos e sistemas. É fácil encontrar descrições de envolvimento pulmonar, renal, cardíaco, ocular, sistema nervoso, tudo o que se queira. 

E mais sequelas.
Sim. Na gripe pode haver sequelas pulmonares mas sequelas noutros órgãos como temos visto nestes doentes não estávamos habituados a ver.

O congresso abre com uma palestra sobre as pandemias na história da humanidade. Nesta pandemia voltaram medidas de há cem anos como cercas sanitárias, confinamentos. Olhando para trás, havia alternativa?
Quando não temos tratamento nem nenhuma forma eficaz de prevenção, como aconteceu desta vez, não há outras medidas de saúde pública que não sejam essas: distanciamento, cercas, regras de higiene, confinamento. Se tivéssemos uma boa alternativa em termos terapêuticos, provavelmente não teríamos de ter medidas de controlo sanitário com a intensidade como tivemos, mas assim não vejo como porque ainda assim teve o impacto que teve. 

A questão que por vezes se coloca é se se foi longe de mais.
Se se foi longe de mais não estou a ver os resultados desse longe de mais porque continuamos preocupados e isto continua, não está resolvido.

As posições dividem-se entre o pior já passou e que a pandemia acaba no verão quando a maioria dos adultos ficam vacinados e quem esteja mais cauteloso de que só no próximo inverno é que vamos perceber. Que visão tem?
Sim, acho que antes de passar o próximo inverno é muito arriscado fazer previsões muito otimistas em relação ao futuro. O próximo inverno vai ser decisivo para percebermos o que vai acontecer. Há um conjunto de ‘ses’ sobre as vacinas que ninguém sabe responder: se protege, protege por quanto tempo, protege de novas variantes. 

Assiste-se a um aumento de infeções em Lisboa, sobretudo entre jovens. É menos preocupante por isso?
Vamos ter provavelmente formas de doença mais benignas e não vamos ter uma pressão grande sobre os internamentos como tivemos mas até que ponto isto circulando entre gente mais jovem tem capacidade de expandir na comunidade e começar a atingir gente mais velha e com outras patologias é sempre uma caixinha de surpresas. 

Mesmo estando os mais vulneráveis vacinados?
Mesmo estando vacinados. A vacina é uma medida de prevenção mas não temos ainda certezas sobre qual é o real valor da vacina.

Parece-lhe que tem havido excesso de confiança? 
Temos de nos agarrar a qualquer coisa e dar esperança às pessoas. Neste momento a única forma de dar esperança é incentivar as pessoas a serem vacinadas. Se começamos já a colocar ses, as pessoas que estão na dúvida acabam por não se vacinar e neste momento isso também não é uma boa opção, porque não havendo nada melhor para oferecer, é o que temos à nossa disposição.

Uma terceira dose no próxima no inverno parece certa?
É uma possibilidade, assim como virem a ser precisas doses de reforço anual. Não sabemos ainda.

Todos os invernos, pela gripe e pelo frio, somos dos países com maior excesso de mortalidade. Medidas como as máscaras vieram para ficar?
Se não ficarem na comunidade, e é muito difícil que fiquem porque há uma grande pressão para deixar de usar, espero que pelo menos se consiga finalmente fazer da máscara um objeto hospitalar.

Sempre que vamos a um hospital utilizar uma máscara?
Sim e os próprios profissionais de saúde usarem no seu dia-a-dia esta forma de proteção, até para prevenção de infeções hospitalares.

Mas medidas como o confinamento, foi o último que tivemos nesta pandemia?
Não acredito que seja o último. Era bom que fosse e que eu me enganasse. Um confinamento de todo o país poderá não voltar a suceder agora confinamentos regionais, em locais específicos, acho que é muito difícil que não volte a suceder.

Na fase crítica em janeiro houve expansão enorme dos cuidados intensivos à custa de outras áreas como cirurgia. Ficou algum reforço ou para aumentar a resposta será sempre preciso retrair noutros lados?
A elasticidade continuará a ser a chave disto tudo. Vamos ter de expandir e contrair consoante a procura e necessidades, mas fica sempre algum reforço que é definitivo. Neste momento temos mais capacidade em cuidados intensivos do que tínhamos quando tudo começou.

Mas não temos 1300 camas de cuidados intensivos como chegou a ser necessário para doentes críticos covid-19 mais os não covid.
Evidente, desmobilizámos. Nós em Coimbra chegámos a ter cinco unidades de cuidados intensivos dedicadas à covid-19 e agora temos uma. Não se justifica ter essas camas em permanência, seria uma irracionalidade do ponto de vista da gestão, temos é de estar preparados para conseguir expandir em pouco tempo como tivemos de fazer agora à pressa. E em vez de fazermos à pressa, conseguirmos fazer de forma organizada.

Os doentes não covid ficaram para trás. Parece-lhe possível uma solução diferente?
Se tiver uma onda com a dimensão da última não há volta a dar. Como é possível manter a atividade normal com 500 camas num hospital dedicadas à covid-19? No nosso hospital, que é um grande hospital, foi praticamente um terço das camas ocupadas com doentes covid-19 e depois há os doentes urgentes, não é possível. A alternativa seria construir hospitais covid, mas depois ficam vazios, fechados?

Creio que acima de tudo temos de ter uma grande capacidade de elasticidade para alocar serviços e meios em função das necessidades. Nenhum sistema de saúde pode estar permanentemente preparado para uma epidemia desta dimensão, porque isso seria alocar meios a uma situação imaginária que pode vir a suceder daqui por um, dois, dez ou vinte anos. Não é possível. O que é necessário é que o SNS tenha maleabilidade suficiente para responder e, se for possível, melhor do que desta vez.

Para o próximo inverno, os planos de contingência devem ser reforçados?
Não é ainda possível antever como vai ser o próximo inverno, estamos ainda muito longe. Até lá podemos ter ainda outra onda como tivemos no ano passado, no final do verão, ou podemos passar este verão todo tranquilo e se tudo correr bem podemos estar no próximo inverno com uma boa imunidade que proteja pessoas de uma onda igual a esta. São incógnitas sem resposta.

Podemos tentar adivinhar e é licito as pessoas terem a sua opinião mas acho que é muito difícil ter neste momento certezas do que vai ser o próximo inverno, nem em relação à covid-19 nem em relação à gripe. Mesmo com estas medidas, não é seguro que a situação da gripe no próximo ano seja igual a este. Temos de manter a vigilância, as pessoas não podem ficar com a falsa segurança de que não têm de fazer a vacina da gripe porque já fizeram esta…

Neste congresso além da covid-19 vão falar de VIH e tuberculose. Poderá haver ganhos terapêuticos para outras doenças infecciosas do que se investiu na pandemia?
Acredito que sim. Algumas linhas de investigação, como o caso da vacina da Janssen, já vinham do estudo de uma plataforma de uma vacina para o VIH mas pode acontecer o inverno por exemplo com as vacinas de mRNA da Pfizer e da Moderna, servirem de modelo para adaptar ao VIH e finalmente podermos ter uma vacina. Acho que vai haver algum avanço em algumas patologias que estavam um pouco bloqueadas, quer em termos vacinais quer terapêuticos.  Os avanços terapêuticos na covid-19 têm estado um pouco abafados pelas vacinas mas a investigação continua e vamos ver se têm aplicabilidade para outros vírus.

Vamos para Marte e um vírus vira o mundo do avesso.
E vai continuar a virar. Basta recordarmos que conhecemos uma infinitésima parte da flora microbiana do planeta. Os agentes infecciosos conhecidos são uma pequena parte daqueles que existem. Vamos seguramente continuar a ser surpreendidos.