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Estórias "para rapazes"

Estórias "para rapazes"

Ricardo António Alves 17/05/2021 20:43

Típica série “para rapazes”, nela não se vê uma figura feminina – muito medo das mulheres tinha a Bélgica católica.

A BD não é só feita de Tintin e Príncipe Valente, Peanuts e Gaston Lagaffe, Corto Maltese ou Calvin & Hobbes. Muito do encanto que determinadas publicações tiveram, e que se mantém, sem nostalgia, décadas após o encerramento, deve-se também a uma quantidade de séries secundárias que preenchiam as revistas, criando uma aura que era partilhada pelos leitores.

Por cada obra-prima, há uma infinidade de trabalhos correctos, que contribuem decisivamente para a consistência de uma visão global do trabalho de um determinado autor ou de um período. Alguns, sendo um recurso para tapar-buracos ao tempo em que eram publicados, hoje são vistos como fragmentos indissociáveis de uma época.

É o caso da série e do álbum que hoje aqui trazemos: Os 3 A – Os Piratas do Nevoeiro. André, Alain e Aldebert (Al, para os amigos) são três jovens escuteiros de espírito aventuroso, surgidos em 1963 nas páginas da revista Tintin belga, com desenhos de Mittéï (1932-2001) e texto de um certo M. Vaseur, pseudónimo de um nome sonante da BD, A.-P. Duchâteau (1925-2020), o argumentista de Ric Hochet, o repórter-detective.

A história, simples e movimentada, conta-se de uma penada: convidados por um armador, tio de Alain, a passar umas semanas a bordo do arrastão “Le Hardi” numa companha na costa da Islândia, são surpreendidos por um cargueiro à deriva, aparentemente sem vivalma. Alcançado o navio, deparam-se com a “Jolly Roger” hasteada – a característica bandeira dos piratas – e dão com a tripulação presa no porão.

Chegados à vila piscatória de Slandag, verificam que não se fala doutra coisa, com um clima de suspeição que se abate entre os homens do mar, em especial sobre os mestres dos rebocadores, que beneficiam financeiramente com o resgate dos barcos; e para mais, o modus operandi destes piratas modernos denuncia uma violência inquietante.

Típica série “para rapazes”, como então se dizia, em que não se vê uma figura feminina – muito medo das mulheres tinha a católica Bélgica; será preciso esperar pelo Maio de 68 para maior arejamento –, o argumento de Duchâteau é mais do que escorreito; mas a estrela aqui é Mittéï, desenhador em processo de revalorização, que algo estranhamente optará essencialmente pelos quadradinhos humorísticos, como o Incrível Désiré, sendo um dos vários autores que pegaram em Modeste et Pompon, após Franquin ter abandonado a revista Tintin, regressando à Spirou. Mittéï (Jean Thomas Toussaint Mariette), na altura assistente de Tibet em Ric Hochet, apresenta um trabalho empolgante, no dinamismo do desenho e nos enquadramentos das vinhetas.

A edição portuguesa, já com mais de meio século, é um desgraça: má impressão e ausência de qualquer referência aos autores. Com raras excepções – como então a Verbo, a União Gráfica ou a Bertrand, orientada por Vasco Granja –, a edição de BD estava geralmente entregue aos bichos.

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