07/02/2023
 
 

Putin reeleito até 2036

A geo-estratégia é imune à pandemia. O Grande Jogo está de volta, com mais jogadores e um tabuleiro mais vasto.

A 25 de Julho de 1998 Vladimir Putin tomou posse como director do FSB (o equivalente contemporâneo do KGB). A 9 de Agosto de 1999 assumiu as funções de primeiro-ministro, tornando-se o “cuidador” político de um periclitante Boris Yeltsin. Garantiu-lhe a imunidade contra procedimentos judiciais e sucedeu-lhe,  faisant fonction, como Presidente da República, a 31 de Dezembro de 1999. Eleito a 26 de Março de 2000, com 53,4% dos votos, tem ficado pelo Kremlin desde então, com um regresso às funções de primeiro-ministro em 2008, para colocar a zero o contador constitucional dos mandatos como PR. O Gotha da longevidade em cargo aguardava pelo ano de 2024 para saber se Putin voltaria à condição de PM antes de iniciar um novíssimo mandato como PR. Ainda capaz de surpreender depois de todos estes anos, Vladimir promoveu mais uma revisão constitucional que re-calibrou o contador de mandatos e lhe permitirá permanecer em funções até 2036.

Resolvida esta pequena dificuldade administrativa, Putin voltou à política externa, colocando à prova uma administração Biden teoricamente conformada com a continuação do conflito congelado no leste da Ucrânia. Regressando aos melhores momentos da guerra fria, os exércitos russos movimentaram na fronteira com a Ucrânia centenas de veículos blindados e milhares de soldados, à luz do dia e com excelente cobertura televisiva. Segundo Moscovo a movimentação seria justificada por uma rotação de forças. Como a Federação Russa denunciou em 2015 o Tratado sobre Forças Convencionais na Europa a aritmética das forças estacionadas nos flancos deixou de ter enquadramento jurídico, fica como matéria-prima da propaganda.

A equipa de Biden conta com diplomatas experientes, incluindo alguns “putinologistas”. Mas é uma equipa muito marcada pelo voluntarismo de Hillary Clinton enquanto secretária de Estado e enquanto candidata à Presidência dos EUA. Depois do conúbio de Trump com Putin há quem tema um excesso de agressividade por parte dos EUA, dirigida contra Moscovo a título de aplicação da máxima oriental “matar o macaco para assustar o tigre”. Uma política musculada contra os excessos de Moscovo teria menores custos (estratégicos, políticos, económicos e até militares) do que contra os de Pequim. Os adeptos desta abordagem apostam também na velocidade da reacção evitando uma aliança táctica entre Moscovo e Pequim.

Putin continua dedicado ao re-armamento, com uma tentativa de salto tecnológico. As ironicamente denominadas Wunderwaffen anunciadas nos últimos anos começam a ser testadas e a causar preocupação no ocidente, em particular os mísseis hipersónicos e os torpedos de muito longo alcance. A Federação Russa continua a vender petróleo e gás natural, não só aos europeus mas também à China. Manteve-se a gestão de conflitos congelados (Ucrânia, Transdeniéstria, Geórgia, Nagorno-Karabakh) bem como o apoio aos Estados clientes (Síria) ou aos antigos protectorados (Líbia). Assistimos, por via dos mercenários e do equipamento militar em segunda mão, a um regresso russo a África. Recentemente a diplomacia da vacina lançou Sputniks em todas as direcções.

Mantém-se o peso da geografia, com a imensidão do território e os benefícios das alterações climáticas. A Northern Sea Route, pelo Ártico, é praticável cada vez mais cedo em cada ano, permitindo poupar um terço da distância e do tempo de viagem entre a Ásia e a Europa. O bloqueio recente do Suez tornou ainda mais apetecível a rota russa, tornando menos competitivos os portos de transhipment mais a sul.

 

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

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