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Sérvia. Foi verdade, sim, tanta rosa decepada, tanta pomba assassinada

Sérvia. Foi verdade, sim, tanta rosa decepada, tanta pomba assassinada

Afonso de Melo 25/03/2021 22:46

Portugal nunca perdeu com o seu adversário de sábado, uma selecção que sofreu as terríveis consequências de guerras contínuas, verdadeiras limpezas étnicas.

O tempo correu desesperantemente devagar até que a Sérvia, adversária de Portugal no segundo jogo do Grupo A de qualificação para a fase final do Campeonato do Mundo de 2022, no Qatar, marcado para depois de amanhã, em Belgrado, pudesse orgulhar-se da sua selecção. O furacão político que assolou os Balcãs desde sempre, grande parte dele assente em questões étnicas e religiosas, abafaram ao longo da História o Reino da Sérvia, nascido num dia de 1882, quando o príncipe Milan Obrenovic transformou o principado fazendo-se coroar Rei dos sérvios, libertando-se das garras do Império Otomano. Desde então, a guerra passou a ser o pão de cada dia: contra os búlgaros, em 1885, a Guerra dos Balcãs entre 1912 e 1913, antecipando a IGrande Guerra, a anexação pelo Império Austro-Húngaro e, finalmente, o nascimento do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos que não tardaria a chamar-se Reino da Jugoslávia, em 1929.

Como se percebe, a juventude sérvia estava demasiado entretida a engatilhar espingardas do que propriamente a dar pontapés numa bola. No entanto, a Federação do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos foi admitida na FIFA em 1919 com a designação de  Jugoslovenski Nogometni Savez e, no ano seguinte, participou nos Jogos Olímpicos de Antuérpia – torneio que tinha, à época, o estatuto de um Mundial –, saindo de lá enxovalhada graças a uma derrota por 0-7 face à Checoslováquia que a deixou desde logo fora da competição. Apesar de tudo, tinha sido o início de uma grande aventura.

Em crescendo. Dez anos mais tarde, os jugoslavos já tinha aprendido alguma coisa. Estiveram presentes na fase final da I Edição do Campeonato do Mundo, no Uruguai, e terminaram em quarto lugar, despachando pelo caminho o sempre fascinante Brasil por 2-1. O futuro parecia brilhante mas o advento da II Grande Guerra obliterou por completo o futebol nos Balcãs. Quando regressou ao activo, a Federação Jugoslava de Futebol já fazia parte de uma federação socialista idealizada pelo comandante Josip Broz Tito que defendia a existência de uma terceira via, ou seja, um carreiro estreito e pedregoso que passaria entre o capitalismo e o comunismo.

Ninguém tem dúvidas que as erupções políticas constantes que surgiram nos países que formavam a Jugoslávia arrasaram com selecções de enorme qualidade. Temos bem presente o que se passou nas vésperas do Euro-92. Já tinham decorrido doze anos sobre a morte de Tito e o borbulhar étnico da região tornava inevitável a guerra civil e os jovens que se tinham coroado campeões do mundo de sub-20, em 1987, no Chile –  Robert Jarni, Zvonimir Boban, Davor Suker, Igor Stimac, Robert Prosinecki e Predrag Mijatovic, entre outros –, estavam demasiado divididos para tirarem proveito do Mundial de 1990, em Itália, acabando a Jugoslávia, já em guerra, por ser banida do Europeu de 1992, na Suécia, abrindo lugar à Dinamarca. As finais dos Jogos Olímpicos de 1948 e 1952 e a vitória no mesmo torneio em 1960 caíram no esquecimento. Eugénio de Andrade escreveu: “Não é verdade tanta loja de perfumes/Não é verdade tanta rosa decepada/Tanta ponte de fumo, tanta roupa escura/Tanto relógio, tanta pomba assassinada”. Mas tudo isso foi verdade nos Balcãs do nosso tempo.

A dissolução da Jugoslávia permitiu, por exemplo, à Croácia surgir como uma espécie de herdeira dessa gesta de vencedores. Por seu lado, os sérvios continuavam banidos pela FIFA e assim se mantiveram durante mais dois anos. O Mundial e 1994 e o Europeu de 1996 não passaram de miragens. Finalmente, no dia 31 de Maio de 1995, a Sérvia, com este nome, festejou a sua primeira vitória, perante o Uruguai (1-0) em Belgrado. No dia 28 de Março de 2007, defrontou Portugal pela primeira vez – empate 1-1 na qualificação para o Euro-2008.  Até hoje, no total, seis jogos: três vitórias portuguesas e três empates. Sábado há mais.

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