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Morreu Adam Zagajewski, um monge dedicado ao severo culto da História

Morreu Adam Zagajewski, um monge dedicado ao severo culto da História

Diogo Vaz Pinto 22/03/2021 20:09

Morreu este domingo, aos 75 anos, o mais destacado dos poetas polacos. Numa última ironia, deixou-nos no dia mundial da poesia, como quem se entrega ao encantamento do silêncio quando outros, em nome dos poetas, andavam por aí a cacarejar.

Morreu pela tarde, hora de que gostava, acompanhando de ouvido os melros, e Adam Zagajewski apreciava não apenas o canto destes pássaros, mas a consciência do que este demarca, tratando-se de uma espécie que só existe na Europa. “Assim, é um pássaro muito europeu este que canta para nós.” E no anoitecer, este filho da Europa, da sua cultura e da sua história, do seu esplendor e também dos seus horrores, via essa dupla condição da obscuridade. Por um lado, a meditação, a tranquilidade e a paz da noite, essa felicidade que se desprende do canto dos melros, mas a par da salvação ouvia também mover-se o perigo, o lado doloroso da vida, a devastação que nos segue por toda a parte. Este poeta polaco, nascido há 75 anos, em Lwov, morreu este domingo, em Cracóvia, e era um dos mais destacados autores europeus, sendo um herdeiro e continuador da geração anterior à sua, e que deu à literatura polaca a sua feição mais universal – Zbigniew Herbert, Wisława Szymborska e Czesław Miłosz. Há anos que o nome de Zagajewski era apontado como um crónico candidato ao Nobel, mas, à semelhança de Herbert, que era mais novo e morreu mais cedo (aos 73 anos) que os outros dois gigantes da sua geração, partiu demasiado cedo para que a Academia Sueca lhe fizesse justiça. Não deixou, no entanto, de alcançar uma projecção internacional invulgaríssima nos nossos dias para um poeta, e foi distinguido com alguns dos mais prestigiosos galardões literários, como o Princesa das Astúrias, em 2017, o Griffin, em 2016, ou o Neustadt, em 2004. Talvez a frase mais reveladora das que escreveu sobre o carácter ao mesmo tempo testemunhal e revigorante da sua obra, da sua capacidade de revirar os aspectos mais terríficos da existência e cruzar para a margem oposta, celebrando a vida e o desejo de permanecer atento, mantendo intacta a capacidade de assombro mesmo em face de um mundo que não abre mão da catástrofe, seja esta: “Onde quer que se faça um corte na vida, sempre esta irá ficar partida em duas metades.” Assim, as suas meditações, os poemas ou ensaios que escrevia, debatiam-se já não com a vivência dos piores horrores do século XX, mas com a sombra que estes continuam a projectar. “Diria que, de certa maneira, se esses horrores não me estão nos genes, estão cá dentro, e parte da minha vocação é não perder o pulso ao coração dessa guerra, encontrando uma forma de transmiti-lo”, disse no ano passado, numa entrevista ao El País.

Nascido em 1945, foi ainda envolvido nos cobertores que o envolveram recém-nascido que foi levado de Lvov para Gliwice. Eram ambas cidades polacas, mas no rescaldo da II Guerra, a sua cidade-natal passou para a Ucrânia, e nem os seus avós, nem os pais ou os tios se habituaram à condição de deslocados, o que deixou em Adam algo como um olhar que lançado por cima do ombro, para trás, para a aquela cidade perdida e quase sagrada, uma Lwov tocada pelo sonho, por uma beleza da qual se foi expulso. Assim, nos seus primeiros escritos, há uma sensação de lembrança que se impõe, com os seus cheiros e sabores, e que se torna um lugar mais real do que Gliwice, uma cidade industrial, nos seus feios tons de cinza, e que se tornou sinónimo de um desencontro fundamental o qual está sempre como pano de fundo da poesia de Zagajewski. A sua obra, como foi notado inúmeras vezes, lida com essa sensação de exílio que atravessa muita da melhor literatura do último século. Para isso contribuíram as duas décadas que o poeta passou exilado, depois de integrar a contestatária Geração de 68, sendo perseguido pelo comunismo, e, após a instauração da Lei Marcial de 1981, forçado a mudar-se para Paris no ano seguinte. Em 1988, chegaria aos EUA, tendo sido professor convidado em várias universidades, e passando o período mais longo em Houston, dando aulas na Universidade do Texas. Foi só em 2002 que regressou ao seu país, depois da queda do regime comunista, assentando em Cracóvia, sem deixar de viver uma parte do ano em França. O que lhe ficou desde a infância foi essa ideia de que a poesia é uma coisa de emigrantes, “esses infelizes que, com um património ridículo, procuram um balanço à beira do abismo, andando a cavalo entre continentes”. Encontrava, por isso, a sua linhagem entre esses nomes que representam “a Europa secreta da poesia”, adiantando que, embora essa “Europa secreta não tenha influência política, não tenha músculo político, é absolutamente indispensável como um lugar no qual um se possa esconder, mas também como uma reserva de energia para o futuro”, como notou na já referida entrevista ao diário espanhol.

Zagajewski organizava as suas ideias dividindo o mundo em metades. Assim, de um lado encontrava os homens de acção, aqueles que assumiam maiores responsabilidades no curso dos acontecimentos de maior relevância a nível social e político, e embora a sua obra fosse tremendamente permeável à realidade histórica, via-se como uma figura do campo oposto, o das pessoas que rezam. “Os poetas pertencem ao grupo dos que rezam”, dizia, advertindo ainda: “Não esperem grande coisa como resultado directo das suas orações.” E, no entanto, defendia que fazem falta os poetas como fazem falta os monges, para rezar e meditar – “só não esperem deles nenhuma proposta directa para a vida social”. Como escreveu o poeta francês Christian Bobin, Zagajewski também entendia que “a vida em sociedade é quando todos obedecem ao que ninguém quer”, ao passo que “a escrita é uma escapatória a esta miséria, uma variação da solidão assim como amar ou brincar – um princípio de insubmissão, uma virtude de infância”. Também ele poderia ter dito que “o que em nós está ferido pede asilo às mais pequenas coisas do chão – e recebe”.

O seu primeiro livro de poemas foi publicado em 1972, com o título Komunikat (“A mensagem”). Três anos depois estreou-se no romance, com a novela Cieplo zimno (“Quente e frio”), isto num período em que colaborava com a revista clandestina Zapis, que participava na resistência ao regime polaco. Zagajewski começou, assim, por uma poesia marcadamente política, e a dissidência valeu-lhe a proibição de publicar no seu país. Depois do exílio, depois de ter regressado a Cracóvia, o país balançou para o lado oposto do espectro político, e mais do que as muitas distinções que o foram consagrando, gozava ainda a dignidade de ter o nome na lista negra do actual governo nacionalista e anti-democrático polaco. E a sua poesia mantinha-se num equilíbrio funambulesco entre esse inventário de aspectos do quotidiano, alguns ressaltando esse ângulo sublime que se recorta contra o lado mais banal da existência, e capaz de uma ironia que se salvava sempre de cair no cinismo, foi-se impondo como uma réplica sagaz à mesquinha petulância do poder, dando ânimo aos fugitivos quando se vêem sem destino e ouvem os seus “carrascos a cantarem alegremente”. Esta obra com o seu tom modesto, mas sempre tensa, sempre à espreita de uma oportunidade para apontar esse ponto de fuga, o regime da transcendência, oferecia hipóteses de se salvar a consciência e até a esperança num “mundo estropiado”. Assim, contra “o fácil pessimismo apocalíptico de muitos mestres da retórica actual, que se comprazem em anunciar constantemente desastres e em proclamar que a vida não é mais que vazio, erro e horror” (Claudio Magris), Zagajewski em penhava-se em sabotar o fatalismo, brincando debaixo da mesa da tragédia. 

Escreveu certa vez que “os poemas são curtas tragédias, portáteis, como rádios a pilhas”, e traçava amiúde uma oposição entre a poesia e o jornalismo, dizendo que estavam um para o outro como noite e dia. “O dia pertence ao jornalismo e a noite aos poetas, aos músicos. Obtemos alguma da nossa força da parte nocturna da vida, porque a noite não é apenas símbolo da obscuridade e do medo, mas também da arte e da reflexão”. Por outro lado, sabia o perigo de a poesia se convencer demasiado dos seus poderes, entendendo que esta “certas vezes desaparece, deixando apenas fósforos ardidos”. Por isso, o facto de ter morrido no dia mundial da poesia não deixa de soar como uma última ironia, um sair de cena precisamente naquele dia em que tanto do que por aí se cacareja e que é publicitado como poesia toma a cena em tom celebratório, deixando muito claro esse regime de espalhafato com que a arte disfarça a sua irrelevância. E, nos últimos anos, enquanto a sua poesia chegava a outros idiomas e países, incluindo Portugal – onde a Tinta-da-China publicou a antologia “Sombras de sombras”, em 2017, com os poemas traduzidos do polaco por Marco Bruno, tendo sido alvo depois de uma revisão poética feita por Jorge Sousa Braga –, Zagajewski surgia como esse monge que preferia celebrar uma certa discrição, tendo sublinhado num dos seus últimos livros de ensaios o célebre aforismo de Kafka em que este nos exorta a tomar o partido do mundo, na luta entre nós e ele. “Na luta entre ti e o mundo, deves ficar do lado do mundo.” Uma atitude em que, ao invés de resignação, ou conformismo, o poeta polaco via um exemplo de superação e um valor em dilacerante contradição com o individualismo radical que se impôs como a nota dominante também nas expressões artísticas. “Haverá sempre tempo de se regressar a si mesmo”, defendia Zagajewski, mas, “de momento, tens de te pôr ao lado do mundo se pretendes ser justo”. “É mais fácil dizer: sou justo, sou bom. Mas o mundo é mais sábio do que nós. Por isso, o que se impõe hoje é essa tarefa de voltarmos ao mundo, de ficarmos do seu lado.”

Em “Os meus mestres”, um dos poemas iniciais da antologia deste poeta publicada entre nós, diz-nos: “Os meus mestres não são infalíveis./ Não se trata de Goethe, que só conseguia/ adormecer quando ao longe/ gemiam os vulcões, nem de Horácio,/ que escrevia na língua dos deuses/ e dos sacerdotes. Os meus mestres/ pedem-me conselhos. Vestindo macios/ sobretudos deitados velozmente/ por cima dos sonhos, ao romper do dia, quando o vento/ fresco interroga os pássaros, os meus/ mestres falam por sussurros./ Consigo ouvir a sua voz trémula.”

Para Zagajewski a sabedoria era alcançada através de uma certa abdicação de si, dos seus impulsos ou interesses, e esta abertura e clareza estava sobretudo presente no tom dos seus poemas, no seu registo sereno, tantas vezes conversacional sem resvalar no monólogo intimista, nessas confissões bacocas, antes permitindo que o presente se inspecionasse a si mesmo num efeito de contraluz, como se o instante fosse já uma memória, um registo do passado. O poeta Robert Pinsky afirmou que os poemas do polaco tratavam sobre a presença do passado na quotidianeidade: “a história não como uma crónica dos mortos mas como uma força imensa, às vezes subtil, inerente ao que nós vemos e sentimos todos os dias, e à forma como o vemos e sentimos”. Os seus poemas têm uma força evocativa e documental, mais do que escrever cidades ou paisagens, erguem impressões, deixam objectos suspensos num desamparo tocante, quase nos põem música, excertos de canções entreouvidas, e de lembranças também, referências culturais que não se ficam pela sugestão mas animam esse registo assombrado, essa névoa acariciadora. Como notou o escritor irlandês Colm Tóibín, a obra deste poeta parece assombrada pelos detalhes que se perdem das coisas, esses contornos que vão dando de si, e a tarefa que toma como sagrada é a de inventariar essas coisas, “coisa que ele faz com extremo deleite, porque ama a linguagem, mas também com grande contenção e ainda algo próximo do arrependimento porque, ao mesmo tempo, ele também desconfia da linguagem”.

Este monge dedicado a um culto sóbrio e severo da História, tinha a noção de que todo o espírito crítico nasce do que essa perspectiva nos oferece, e afirmou que “toda a minha educação enquanto escritor se focou neste esforço de me libertar dos caprichos e dos esgares da História”. E reflectindo sobre a experiência do exílio, Zagajewski escreveu: “Eu perdi duas pátrias, mas busquei uma terceira: um espaço para a imaginação.” E o poema “Canção de um Emigrante” acaba assim: “Na igreja Ortodoxa/ em Paris, os últimos russos de cabelos/ cinzentos rezam a Deus, que/ é séculos mais novo que eles e se sente/ igualmente desamparado. Em cidades estranhas nós/ persistimos, como árvores, como pedras.”

Mas para um autor que traçava cortes e via a vida dividir-se em metades, nada nunca se mantinha estável, e em relação às virtudes da imaginação, ele mesmo notou que esta pode contar-se entre os seus próprios inimigos – “se perder o seu sentido de moderação, o seu peso e medida, se perder de vista esse mundo concreto que não pode ser dissolvido pela arte”. Vencedor do prémio Princesa das Astúrias no ano anterior a este ter sido entregue a Zagajewski, o ficcionista norte-americano Richard Ford, rendeu-lhe um dos mais acertados elogios ao congratular-se com a decisão dos jurados: “A poesia de Adam Zagajewski, luminosa, profunda, às vezes crua, mas sempre lírica, consegue o raro triunfo literário de ser política e, no entanto, supremamente humana, num único, contínuo e complexo movimento”.

Numa entrevista dada ao semanário Sol, em 2017, quando esteve em Portugal para participar numa sessão na Casa Fernando Pessoa que assinalou os 130 anos do patrono da instituição, o poeta polaco deixou claro que um dos elementos essenciais na escrita de um poema é aprender a dividir a conta com o acaso, dar-lhe margem para se introduzir, pois, como escreveu Derrida, “não há poema sem acidente, não há poema que não se abra como uma ferida, mas que não abra ferida também”. “Quando se escreve um poema”, disse então Zagajewski ao nosso semanário, “não se controla tudo o que nele se passa. Há coisas que conseguimos transformar, mas outras surgem-nos como se nos fossem ditadas. A consciência parece ter pouco a ver com elas. A minha ambição é nunca dizer nada que possa trair o mistério da vida. Ser fiel a este sentido. Mas também não ser pretensioso, não construir retoricamente castelos no ar. Acho preferível tentar ser honesto no que se escreve, dar sinal da nossa incerteza, das inseguranças, e também dos momentos de entusiasmo, esses momentos de epifania. Não posso dizer que detenha o controlo teórico dos meus poemas. Isso seria o fim da minha escrita. Se sabes exatamente o que queres dizer, deixas de escrever. Diria que se trata de uma espécie de luminosa ignorância. És ignorante, ignoras as coisas, mas de uma tal forma em que podes partilhá-lo com as outras pessoas.”

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