João Loureiro faz parte de uma lista de cinco suspeitos

João Loureiro faz parte de uma lista de cinco suspeitos


A Polícia Federal brasileira, que investiga o caso dos 500 quilos de cocaína apreendidos num avião privado, pediu à PJ a lista do património e contas bancárias de João Loureiro.


A Polícia Federal brasileira, no âmbito da investigação ao caso dos 500 quilos de cocaína apreendidos num jato privado naquele país, quer saber qual é o património, incluindo o financeiro, de João Loureiro e pediu à congénere portuguesa a sua colaboração para fazer esse levantamento tanto em Portugal como no Brasil. Caso a investigação confirme que há fortes indícios de que esse património do ex-presidente do Boavista é resultante de atividade criminosa, os bens serão apreendidos a favor do Estado.

Quem o afirma ao i é Elvis Secco, coordenador-geral do Departamento de Repressão a Drogas e Fações Criminosas da Polícia Federal brasileira, para quem a descapitalização patrimonial e a investigação direcionadas à lavagem de dinheiro são o soco mais duro dirigido ao rosto das organizações criminosas que vivem do narcotráfico. “A apreensão de droga é um meio, não é um fim. A única maneira de desmantelar estas redes é despojá-las dos seus recursos. Para as descapitalizar, precisamos de interromper a sua operação de lavagem de capital. Desta forma, mesmo que eles consigam escapar a uma condenação por tráfico de droga, há ainda outras acusações que os podem manter na prisão”, defende o delegado, que estranha a explicação de João Loureiro dada aos media portugueses de que teria viajado num avião privado para o outro lado do Atlântico para ter uma reunião com um empresário que alegadamente quereria contratá-lo como consultor. “Não é normal, porquê viajar num avião privado, que é muito caro, para ter uma entrevista de emprego? Neste momento, ainda não conseguimos confirmar essa versão”, comenta o crânio por trás de alguns dos maiores desmantelamentos de droga no Brasil.

A investigação está ainda a dar os primeiros passos e, por enquanto, apenas os cinco elementos que iam no avião – os três tripulantes e os dois passageiros (João Loureiro e o espanhol Mansur Ben-barka Heredia) – são considerados suspeitos dos crimes de tráfico de droga e lavagem de capital. Apesar de ainda não ter sido possível estabelecer uma conexão entre a droga apreendida e o grupo dos cinco, a Polícia Federal tem vindo a recolher as primeiras informações. O Brasil é das maiores portas de trânsito de cocaína para Portugal para chegar a outros países europeus e os investigadores já começaram a verificar os destinos das viagens feitas pelos suspeitos à Europa e ao Brasil tendo apurado, por exemplo, que João Loureiro tem sido visita constante nesta última paragem.

“O que mais me interessa é a análise financeira” Tarimbado no desmantelamento de redes internacionais de droga, Elvis Secco sabe bem como orientar-se nestes meandros. Mais importante do que a investigação ao tráfico, é na lavagem do dinheiro, na passagem do capital da economia ilícita para a lícita, que se apanham os traficantes. A quantidade de cocaína apreendida é grande de mais para estreantes, o negócio demasiado milionário, e o primeiro passo do delegado da Polícia Federal era óbvio: “Sabemos que João Loureiro tem um certo poder financeiro por isso pedimos aos nossos congéneres portugueses para identificarem o seu património, em Portugal ou no Brasil. O mesmo será feito com os restantes suspeitos. Também pedimos dados sobre os movimentos financeiros. É preciso muito dinheiro para comprar uma quantidade destas de droga. Por isso, neste momento, o que mais me interessa é a análise financeira das contas destas pessoas. Se no fim concluirmos que alguém está ligado ao tráfico daquela cocaína, são os policiais portugueses que vão atrás deles para sequestrar os bens”. O que já aconteceu, aliás, em Portugal com o carro de um dos suspeitos, Mansur Ben-barka Heredia, um espanhol que já se encontrava a ser investigado pela Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes da PJ. A viatura do suspeito esteve estacionada durante vários dias diante do aeródromo de Tires, de onde partiu o avião para o Brasil, mas está agora sob alçada daquela polícia portuguesa. O cidadão de nacionalidade espanhola – que, entretanto, se refugiou em Madrid – também aparenta ser homem de posses. Nas redes sociais do suspeito, as fotos revelam a vida de luxo de um colecionador de milhas pelos quatro cantos do mundo. No sábado, essas contas ficaram bloqueadas a estranhos. João Loureiro, esse, negou conhecer o suspeito, mas o tráfico telefónico e a localização celular dos dois enquanto estiveram no Brasil podem servir de tira-teimas.

João Loureiro é o único dos cinco suspeitos que ainda se mantêm no Brasil. O ex-presidente do Boavista e filho de Valentim Loureiro tinha viajado de Tires para o Brasil no mesmo avião – um Dassault Falcon 900B da Omni, empresa privada de transporte aéreo sediada no Aeródromo de Cascais –, no dia 27 de janeiro. A viagem de regresso esteve por várias vezes agendada, mas acabou sempre adiada. Da lista de passageiros do avião constavam outros nomes ligados ao mundo do futebol, como o jogador recém-contratado pelo Benfica Lucas Veríssimo e os empresários Bruno Macedo e Hugo Cajuda, mas nenhum terá utilizado o avião. Depois de várias escalas, a partida concretizou-se no dia 10 de fevereiro, do Aeroporto Internacional de Salvador, na Baía. Mas a viagem acabou interrompida depois de os pilotos terem identificado uma avaria no aparelho que obrigou a regressar à pista e a chamar os mecânicos. E foi enquanto decorria a revisão do avião que um dos mecânicos detetou um pacote de cocaína. Um dos pilotos alertou de imediato a Polícia Federal.

Elvis Secco, com traquejo em grandes apreensões de cocaína, mostra-se espantado: “Não é uma situação normal, 500 quilos de droga num pequeno avião é uma grande quantidade. Havia cocaína escondida por todo o lado: na carenagem [fuselagem do avião], oculta no motor, no soalho… por isso tinha de ter sido tudo muito bem preparado. Neste momento estamos também a tentar localizar empresas que possam ter feito a manutenção do avião durante esses dias no Brasil”.

O i apurou ainda que a Omni não se encontra por enquanto na lista dos suspeitos, apesar de a Polícia Federal ter apreendido o seu avião. Numa primeira reação, os responsáveis da empresa emitiram uma breve nota onde se confessaram “surpreendidos” com toda a situação e confirmaram que “a tripulação do voo regressou a Portugal há vários dias atrás”.