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Lisboa em situação crítica com pico de contágios de covid-19 a 15 de fevereiro

Lisboa em situação crítica com pico de contágios de covid-19 a 15 de fevereiro

AFP Marta F. Reis 30/01/2021 10:00

Pico de contágios na região de Lisboa e Vale do Tejo só é esperado dia 15 de fevereiro. Hospitais estão já no limite da capacidade e com dezenas de doentes diariamente na urgência a aguardar vaga de internamento. Hospital de campanha do Estádio Universitário esgotou capacidade de oxigenoterapia em menos de uma semana.

O país vive as semanas mais duras da pandemia e a situação em Lisboa é a mais crítica, com um mês de fevereiro muito difícil pela frente. Dos dados epidemiológicos aos hospitais, atingem-se já patamares impensáveis há uns meses. Com os casos reportados ontem, a região de Lisboa e Vale do Tejo passou esta sexta-feira a linha dos 2 mil novos casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias (2050 era ontem a incidência acumulada), mais de duas vezes acima do patamar de risco extremamente elevado definido no final do ano passado.

A incidência é extremamente elevada em todo o país, mas nenhuma região se aproxima dos números de Lisboa e agora há agora sinais de desaceleração da epidemia no Norte e no Centro, ontem com incidências a 14 dias respetivamente de 1441 e 1775 casos por 100 mil habitantes. Note-se que a região Centro tem menos de metade da população da região de Lisboa e Vale do Tejo, concentrada sobretudo na área metropolitana, pelo que a elevada incidência reflete contágios sem precedentes no Centro, como se sucederam em todo o país desde o Natal, mas é puxada para cima por haver menos habitantes na região e reflete 29 298 casos diagnosticados nos últimos 14 dias. No Norte, sensivelmente com a mesma população da região de Lisboa, foram 60 mil novos casos diagnosticados no mesmo espaço de duas semanas e em Lisboa 75 mil. São os últimos sete dias que ajudam a perceber a situação dramática que se vive em Lisboa: destes 75 mil casos, 42 mil foram doentes diagnosticados apenas na última semana, quase o dobro do Norte, onde a epidemia deu sinais maiores de desaceleração e o que coloca Lisboa num nível de incidência acumulada semanal que nunca tinha sido atingido mesmo nos picos da epidemia na região Norte, mais afetada na primeira e na segunda vaga. Durante a semana, a ministra da Saúde revelou no Parlamento que os dados disponíveis sugerem que a nova variante pode representar já 50% dos casos na região de Lisboa e esse é um dos fatores que os especialistas acreditam que estarão a contribuir para a gravidade da situação a Sul. Somam-se dezenas de milhares de inquéritos epidemiológicos com atraso – números que nem a DGS, nem a ARS nem o Ministério da Saúde revelaram esta semana após já várias solicitações. A estimativa é que a variante possa tornar-se dominante ao longo das próximas semanas em todo o país, com a incerteza sobre o que isso representará na trajetória de descida de casos.

Carlos Antunes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que faz uma das modelações da epidemia apresentadas nas reuniões do Infarmed pelo epidemiologista Manuel Carmo Gomes, diz ao Nascer do SOL que para já existe esta previsão: o pico de casos, que pode ser atingido a nível nacional na próxima semana, vai acontecer mais tarde em Lisboa e neste momento está apontado apenas para 15 de fevereiro. Os internamentos, que expectavelmente continuarão a subir pelo menos uma a duas semanas após o pico, poderão assim continuar em trajetória ascendentes em Lisboa até ao final do próximo mês.

Dezenas aguardam vaga nas urgências

Nos hospitais da grande Lisboa a semana foi já a mais difícil dos últimos meses e terminou com um alívio em alguns pontos conseguido com alguma reorganização da resposta, mas pressão noutros. E com uma ideia de que na próxima semana, mantendo-se como tudo indica o tsunami de doentes, as soluções que esta semana ajudaram já não estarão disponíveis.

O Amadora-Sintra viveu a situação mais complexa: no dia em que chegou aos 363 doentes com covid-19 internados, 150 com necessidades de ventilação, a rede de fornecimento de oxigénio entrou em sobrecarga e deixou de conseguir garantir os débitos necessários aos doentes, que com covid-19 chegam a ser mais elevados do que noutras pneumonias. Até ontem tinham sido transferidos 114 doentes para os hospitais, e o hospital estava com 263 doentes enfermaria e a finalizar o reforço da rede de oxigénio e novas instalações que vão dar autonomia de oxigénio à área dedicada a doentes respiratórios na urgência. Mas 263 doentes eram os mesmos que tinha na passada sexta-feira, antes do fim de semana trazer uma enchente de doentes que obrigou a abrir três enfermarias em poucos dias. A última foi demais para a rede.

Depois de um apelo dos hospitais da periferia ao Ministério da Saúde e à Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, que o jornal i noticiou, para que os hospitais tivessem taxas de esforço iguais, a ministra da Saúde reuniu-se com os administradores e foram reforçadas orientações para que todos os hospitais tivessem operacionais as camas previstas no nível máximo de contingência, segundo o documento revelado pelo i era no pior cenário previsto de 3008 camas.

Entre transferências e novas admissões, Santa Maria era ontem o hospital da região com mais doentes com covid-19 internados, 380. Destes, apurou o Nascer do SOL, 60 aguardavam vaga para internamento em enfermaria na urgência, um cenário que se tem repetido também no Hospital de Loures, o primeiro hospital onde foi ultrapassada já há duas semanas a capacidade possível e que tem a maior taxa de esforço na região, com mais de 70% das camas disponíveis alocadas à covid-19. Mas no Santa Maria surgiram outras soluções: com vários dias de filas com 10 e 15 ambulâncias horas à porta das urgências, e depois de revelar publicamente numa das noites em que a fila impressionava que 15% dos doentes transportados não tinham critérios para atendimento em serviço de urgência hospitalar, foi criado um protocolo de triagem com o INEM (que até aqui enviada as ambulâncias para o hospital) e os doentes sem gravidade passaram também a ser enviados pelo SNS24 para centros de saúde da zona de Sintra. A solução moderou a procura no hospital, ontem já sem filas, mas com a epidemia a subir tudo o que sai de um lado aumenta de outro. E se os doentes do Amadora-Sintra tiveram resposta nos outros hospitais, os doentes que saem das urgências aumentam a taxa de esforço do lado dos cuidados primários, que neste momento vivem já uma carga maior do que em qualquer outra altura da epidemia: ontem havia 181 811 casos de covid-19 no país, dos quais 6627 doentes internados nos hospitais do SNS. Significa que cerca de 175 mil estão a ser vigiados em casa, uma tarefa feita pelos médicos de família na plataforma Trace-Covid, que estão ainda de serviço nos locais de atendimento a doença respiratória nos centros de saúde.

Hospital de campanha a caminho da lotação máxima

No último fim de semana foi ativado o hospital de campanha no Estádio Universitário mas essa é também uma resposta de retaguarda para internamento de doentes moderados que na próxima semana já não terá a capacidade que teve esta semana.

António Diniz, coordenador da Estrutura Hospitalar de Contingência de Lisboa, traçou esta sexta-feira ao Nascer do SOL o ponto de situação: tinham durante a tarde 33 doentes internados, à espera ainda de receber mais. Mas as 23 camas onde é possível ter doentes a fazer tratamento com oxigénio estavam já todas ocupadas. No último domingo o médico admitia que as 58 camas, destinadas a receber doentes dos hospitais que ainda não podem ter alta mas já estão mais estabilizados, pudessem ficar ocupadas no espaço de uma semana e ontem a previsão parecia confirmar-se. «Atingindo os 58 doentes, só poderemos admitir mais à medida que dermos altas», explica.

Está a ser equipado um segundo pavilhão no estádio universitário que permitirá receber 150 doentes, 50 em oxigenoterapia, mas António Diniz considera impossível que fique pronto em menos de dez dias. «Estamos dependentes de conseguirmos o equipamento, porque conseguir equipamento para 150 camas numa fase destas é muito difícil. Já percebermos que há equipamento que não existe no mercado, como monitores de parâmetros vitais. Estão esgotados. Pedimos para tentar arranjar monitores recondicionados pelos serviços de utilização comum dos hospitais. São mais antigos, mas neste momento o importante é que funcionem e funcionem bem».

Nos últimos sete dias, o número de doentes com covid-19 internados no SNS subiu 14%, menos do que na semana anterior, mas há agora um efeito que distorce os números. Os internamentos começaram a baixar no Norte mas sobem em Lisboa. Na última sexta-feira havia 2145 doentes com com covid-19 internados nas enfermarias dos hospitais da região. Serão agora mais de 2500.

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