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Pode alguém ser quem não é?

Pode alguém ser quem não é?

Ricardo António Alves 25/01/2021 18:04

A Loja, de Derradé, é a materialização em quadradinhos do desejo de ter uma livraria de BD e também uma homenagem bem-humorada aos Clash.

Há quem sonhe mudar o mundo e quem tenha por objetivo de vida fazer férias de sonho. E há ainda quem queira somente esta coisa comezinha e tão difícil que é a sua própria autodeterminação.

Esta é a história de Bernardo Duarte (B.D., nas iniciais...). Bernardo, que no mais fundo do seu ser é um punk (na linha de The Clash), não passava de um vendido ou, pelo menos, de um acomodado, trabalhando como informático contratado por uma empresa de outsourcing num departamento duma firma qualquer, pobre diabo que nem sabe quem é o patrão. Despertador todos os dias às sete, pontualidade imaculada. Um dia dá-se o clique quando colegas e chefe insistem num fim de semana de team building, estratégia superdivertida para aumentar o commitment, ou fazer de adultos parvos amestrados. Quase um Michael Douglas em Um Dia de Fúria, Bernardo manda trabalho e colegas àquela parte e decide abrir uma livraria de banda desenhada em Alverca, a sua cidade.

A Loja, de Derradé (pseudónimo de Dário Duarte, Lisboa, 1971), um informático que adora a profissão, diz-nos a badana, é a materialização em quadradinhos do desejo de ter uma livraria de BD e também uma homenagem bem-humorada aos Clash e ao seu rock de combate. Todas as oito histórias têm títulos da banda: “This Is Radio Clash” é um bonito e vigoroso ajuste de contas com quem desdenha da banda desenhada; “The Magnificent Seven” – ou as sete da manhã, quando toca o despertador – mostra a insurreição de Bernardo que referimos atrás, tiro ao alvo no escritório à alienação carreirista-consumista; “Should I Stay Or Should I Go» revela a rápida postura na alheta de Carmen, a mulher de Bernardo, após saber que este se despedira; em “Long Time Jerk” surge-nos um sentencioso que crê a BD deseducativa, mas não encontra outro sítio para comprar um livro para oferecer a uma criança senão naquela loja; em “Rock The Casbah”, escrita quando o aiatola Khomeini proibiu o rock no Irão, Derradé aproveita para se meter com os puritanos de cá: a montra do dia de São Valentim está ricamente decorada com álbuns de Manara, Serpieri, Crumb, Alan Moore, o que motiva uma manifestação de gente pia, com o padre, tolerante e apreciador de quadradinhos, a salvar a situação; em “Death Is A Star” ficamos a saber o que acontece aos grandes colecionadores quando a morte corta a relação com a biblioteca de uma vida; “Career Opportunities” é uma brincadeira em circuito fechado com o mundo da BD portuguesa.

O ciclo fecha-se em “Lost In The Supermarket”: Carmen reaparece dez anos depois, trazendo companhia.
De dimensão e conseguimento diversos, Derradé faz-nos sorrir, rindo-se também de si próprio, sinal de inteligência e sanidade mental.

 

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